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"O Verão em Que Deixei de Esperar por Ele" Capítulo 2 — O Futuro Que Não Cabia na Casa Deles

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Capítulo 2 — O Futuro Que Não Cabia na Casa Deles

Na manhã seguinte, acordei com vinte e três mensagens de Gabriel.

As primeiras diziam que ele só queria conversar. Depois vieram as cobranças. Por fim, uma frase apareceu três vezes:

Você vai entender quando parar de agir como criança.

Não respondi.

Augusto me orientou a protocolar uma contestação formal sobre o acesso indevido, mesmo que aquele processo não devolvesse minha escolha a tempo. Segundo ele, uma coisa era minha entrada na universidade. Outra, a responsabilidade de quem usara meus dados.

“E a vaga que o senhor mencionou?” perguntei.

“Preciso confirmar seus arquivos antes de lhe dar esperança. Hoje vou solicitar as certidões da missão. Até lá, não conte isso a ninguém.”

Passei o dia reunindo documentos. À tarde, recebi uma notificação de que minha contestação havia sido registrada.

Às seis, Gabriel bateu à minha porta.

Ele carregava uma caixa de celular, três livros de Enfermagem e um envelope grosso. Atrás dele, Bianca abraçava o próprio corpo como se tivesse sido obrigada a acompanhá-lo.

“Trouxe algumas coisas para você”, ele disse.

“Eu não pedi nada.”

“Seu celular está com a tela quebrada. Comprei um novo. Os livros são os melhores para o primeiro semestre.”

Ele ergueu o envelope.

“Aqui tem dinheiro para matrícula, roupas e o que mais precisar. Meu pai vai pagar sua faculdade inteira.”

Ativei discretamente o gravador no bolso do short.

“Por que seu pai pagaria?”

“Porque você fará parte da família.”

“E o que esperam em troca?”

Gabriel franziu a testa.

“Não transforma carinho em negociação.”

“Você mudou meu curso para que eu cuidasse de Bianca. Quero saber o preço exato desse carinho.”

Bianca começou a chorar.

“Eu disse que isso daria problema. Gabriel, vamos embora. Ela me odeia por estar doente.”

“Eu não odeio você por estar doente”, respondi. “Odeio que use sua doença para justificar o que fizeram.”

Gabriel colocou as caixas sobre uma cadeira no corredor e avançou um passo.

“Fui eu quem entrou na conta. Fui eu quem confirmou. Se quer culpar alguém, culpe a mim.”

“Obrigada por repetir.”

O olhar dele desceu para o meu bolso.

Antes que pudesse reagir, peguei as caixas e o envelope e os coloquei no chão, do lado de fora.

“Não quero seu dinheiro.”

“E vai viver de quê em Brasília?”

“Isso não é problema seu.”

“Você nem vai para Brasília.”

A certeza com que falou quase me fez rir.

Fechei a porta.

Naquela noite, Marta telefonou. Sua voz veio macia, treinada para parecer maternal.

“Querida, amanhã é aniversário da Bianca. Vamos fazer um jantar pequeno. Otávio gostaria muito que você viesse.”

“Não acho uma boa ideia.”

“Gabriel está sofrendo. Vocês cresceram juntos. Não jogue quinze anos de carinho fora por uma decisão tomada para protegê-la.”

Eu ia recusar quando pensei no gravador, na confissão de Gabriel e na forma como toda aquela família falava em meu nome.

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“Eu vou.”

Cheguei ao condomínio pouco depois das sete. Não era um jantar pequeno. Havia carros importados na entrada, um bufê montado perto da piscina e pelo menos trinta convidados.

Bianca usava um vestido rosa-claro. Quando me viu, sorriu como se o dia anterior não tivesse acontecido.

Gabriel veio ao meu encontro e tentou segurar minha mão.

“Eu sabia que você voltaria.”

Afastei os dedos.

“Vim conversar.”

“Hoje não estraga nada. Meu pai preparou uma surpresa.”

Essa frase me fez ligar o gravador antes de entrar na sala de jantar.

Otávio ocupava a cabeceira da mesa. Era um homem grande, sempre impecável, com o tipo de sorriso que fazia ordens parecerem favores.

“Elisa, sente-se ao lado de Gabriel.”

Escolhi a cadeira vazia em frente aos dois.

Durante o jantar, Marta contou aos convidados como cuidara de mim “como uma filha” depois da morte de meus pais. Não mencionou que eu continuara morando com minha avó e que, depois da morte dela, aprendera a pagar contas com a pequena pensão deixada pelo governo.

Quando o bolo chegou, Otávio se levantou com uma taça na mão.

“Hoje celebramos Bianca, mas também queremos anunciar uma alegria para nossa família.”

Gabriel olhou para mim. Havia expectativa em seus olhos, não dúvida.

“Elisa e Gabriel vão ficar noivos antes do início das aulas.”

Os convidados aplaudiram.

Eu não consegui me mover por um segundo.

Marta colocou uma caixa de veludo sobre a mesa. Gabriel abriu. Dentro havia um anel fino com uma pedra transparente.

“Depois da formatura, vocês se casam”, Otávio continuou. “Elisa trabalhará em uma das clínicas parceiras da empresa e também poderá acompanhar o tratamento de Bianca. Assim, ninguém ficará sozinho.”

Não era um pedido.

Era a assinatura final de um contrato que eu nunca vira.

Levantei-me.

“Não haverá noivado.”

Os aplausos morreram.

Gabriel ficou de pé tão rápido que a cadeira bateu no piso.

“Elisa, não começa.”

“Você alterou minha inscrição sem permissão. Sua família escolheu minha profissão, minha cidade, meu casamento e até a pessoa de quem eu deveria cuidar. Em que momento alguém planejava perguntar o que eu queria?”

Marta levou a mão ao peito.

“Depois de tudo que fizemos por você?”

“O quê, exatamente?”

Ela abriu a boca, mas Otávio respondeu.

“Demos proteção. Nome. Futuro.”

“Eu já tenho nome.”

“Um nome não paga aluguel.” O sorriso dele desapareceu. “Você é uma garota sozinha. Há destinos piores do que entrar para uma família respeitada.”

“E há coisas piores do que ficar sozinha.”

Olhei para Gabriel.

“Uma delas é viver ao lado de alguém que chama controle de amor.”

Bianca chorava em silêncio, cercada por amigas. Gabriel apertou a caixa do anel.

“Você está nos humilhando por orgulho.”

“Não. Estou recusando uma vida que vocês montaram sem mim.”

Peguei minha bolsa e caminhei até a saída.

Gabriel me alcançou no jardim e segurou meu braço.

“Se passar por aquele portão, acabou.”

“Acabou ontem.”

“Você não tem para onde ir.”

“Tenho a minha casa.”

“Uma casa caindo aos pedaços e uma pensão que mal paga comida. Quando receber a confirmação de Enfermagem, vai voltar pedindo ajuda.”

Soltei meu braço.

“Espere sentando.”

Saí sem olhar para trás.

No ônibus, abri o gravador. A confissão de Gabriel estava nítida. A fala de Otávio sobre proteção, nome e futuro também.

Enviei os arquivos para a pasta de provas.

Então chegou uma mensagem automática do portal de inscrições.

Sua contestação entrou em análise prioritária. Consta, porém, declaração eletrônica de alteração voluntária assinada pela candidata.

Abri o documento anexado.

Meu nome estava no final. Minha data de nascimento também.

Mas eu nunca escrevera aquelas palavras.

Gabriel não havia apenas mudado minha escolha.

Ele criara uma declaração para fazer parecer que eu tinha concordado.

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