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"O Verão em Que Deixei de Esperar por Ele" Capítulo 1 — A Senha Que Ele Nunca Deveria Ter Usado

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Capítulo 1 — A Senha Que Ele Nunca Deveria Ter Usado

Faltavam dezessete minutos para o encerramento das inscrições quando o e-mail chegou.

Sua opção de curso foi atualizada com sucesso.

Eu estava sentada à mesa da cozinha, cercada por cadernos de inglês, espanhol e história do Brasil. Na parede, acima do calendário, havia um cartão-postal do Palácio Itamaraty que eu guardava desde os treze anos.

Abri o portal sem respirar.

Onde deveria estar escrito Relações Internacionais — Universidade de Brasília, aparecia Enfermagem — Campinas.

Por alguns segundos, achei que o cansaço tivesse embaralhado as letras. Atualizei a página. Saí da conta. Entrei de novo.

Nada mudou.

Cliquei no histórico de segurança. Às 23h31, alguém havia acessado meu perfil de um aparelho que eu conhecia bem demais. O modelo do notebook e a região da conexão apareciam no alerta automático.

Era o computador de Gabriel.

Fotografei a tela. Gravei um vídeo mostrando o relógio, o endereço do portal e cada alteração. Tentei mudar o curso de volta, mas o sistema pediu uma confirmação enviada para um número terminado em 47.

O número de Gabriel.

Ele também tinha trocado meu telefone de recuperação.

Peguei a mochila e saí de casa sem desligar o computador. A noite de Campinas estava abafada. Corri as quatro quadras até o condomínio dos Vasconcelos, com o celular apertado na mão e o coração batendo na garganta.

O porteiro me conhecia desde criança e abriu o portão sem perguntar nada.

Encontrei Gabriel perto da piscina, usando uma camiseta branca e segurando dois copos de milk-shake. Bianca estava sentada numa espreguiçadeira, coberta por uma manta fina apesar do calor.

Gabriel me viu e não pareceu surpreso.

Foi isso que me feriu primeiro.

Não houve susto, culpa ou medo. Apenas a expressão cansada de quem esperava uma reação exagerada.

“Você entrou na minha conta?”

Bianca baixou os olhos. Gabriel colocou um dos copos sobre a mesa.

“Elisa, fala baixo.”

“Você mudou meu curso?”

“Mudei.”

A palavra caiu entre nós com uma facilidade obscena.

“Eu passei três anos falando da UnB. Três anos. Você viu meu cartão do Itamaraty, leu minhas redações, me ouviu estudar até de madrugada. Como conseguiu fazer isso?”

Gabriel soltou o ar, impaciente.

“Porque alguém precisava pensar com a cabeça fria. Relações Internacionais não garante emprego. Enfermagem é uma profissão séria, estável e útil.”

“Útil para quem?”

Ele olhou para Bianca antes de responder.

Foi um movimento pequeno. Mesmo assim, disse tudo.

“A Bianca tem uma doença crônica. Há semanas em que ela mal consegue sair da cama. Se você estudar aqui, pode ajudar quando for necessário.”

Bianca ergueu o rosto devagar. Seus olhos já estavam molhados.

“Eu nunca pedi para ele fazer isso, Elisa.”

“Mas deu a ele a minha senha?”

Ela apertou a manta contra o peito.

“Eu só vi quando usei seu notebook naquele dia. Nem sabia para que era.”

Gabriel se colocou na frente dela.

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“Não envolve a Bianca. Eu fiz porque era a melhor decisão.”

Olhei para o rapaz que conhecia desde os quatro anos. Quando a mãe dele morreu, fui eu quem me sentei no chão do quarto até o amanhecer porque ele não suportava ficar sozinho. Quando Marta e Bianca entraram na casa, ele dizia que jamais permitiria que ocupassem o lugar da mãe.

Eu o defendi. Guardei seus segredos. Esperei por ele durante quinze anos sem perceber que estava esperando.

“Então mude o seu curso”, falei. “Faça Enfermagem. Cuide dela.”

O maxilar dele endureceu.

“Meu pai já definiu minha formação. Vou estudar Administração em Brasília e assumir a empresa.”

“Seu futuro não pode mudar porque seu pai decidiu. O meu pode mudar porque você decidiu?”

“Não distorce o que eu disse.”

“Você roubou minha escolha.”

“Eu protegi você de uma fantasia.” Ele se aproximou. “Você não tem família, Elisa. Não tem dinheiro para viver sozinha em Brasília e não conhece ninguém lá. Aqui, você terá trabalho na rede de clínicas parceiras do meu pai. Depois, quando nós nos casarmos, tudo fica ainda mais fácil.”

“Quando nós o quê?”

Gabriel hesitou, como se tivesse revelado uma surpresa antes da hora.

“Você sempre soube que acabaríamos juntos.”

Eu também acreditava nisso.

Até aquele instante.

Não por causa de uma declaração, de um beijo ou de uma promessa. Eu acreditava porque Gabriel sempre estivera ali, ocupando espaço em todas as minhas memórias. Confundi permanência com amor. Confundi intimidade com o direito de ser compreendida.

Ele pegou o copo que havia deixado sobre a mesa e o ofereceu a mim.

“Toma. É de morango. A Bianca adora. A gente conversa quando você estiver mais calma.”

Olhei para a bebida rosa escorrendo pelo plástico.

“Morango me faz mal.”

Gabriel ficou imóvel.

“Desde quando?”

“Desde sempre.”

Bianca segurava o outro copo, também de morango. Na lateral havia um coração desenhado com caneta e o nome dela.

Quinze anos, e ele já não sabia sequer o que eu podia beber.

“Elisa, não faz drama por causa de um sabor.”

“Não é por causa do sabor.”

Abri o histórico de mensagens em meu celular.

“Você escreveu que alterou minha inscrição porque eu precisava parar de ser teimosa. Escreveu também que, quando eu recebesse o resultado, acabaria agradecendo.”

O rosto dele mudou.

“Você está me gravando?”

“Ainda não.”

Guardei o aparelho.

“Mas estou salvando tudo.”

Pela primeira vez naquela noite, ele pareceu preocupado.

“Vai fazer o quê? Me denunciar?”

“Vou recuperar o que é meu.”

“O prazo termina em minutos.”

Havia triunfo em sua voz. Um triunfo discreto, quase paternal. Ele acreditava que o relógio estava do lado dele.

“Então você planejou até o horário.”

“Planejei para impedir que você cometesse um erro.”

“O erro foi acreditar que você me amava.”

Bianca prendeu a respiração. Gabriel empalideceu.

Eu tirei do chaveiro a pequena chave que abria o portão lateral daquela casa e a coloquei ao lado do milk-shake.

“A partir de hoje, não entre na minha casa, não toque nas minhas coisas e não decida nada em meu nome.”

“Você está terminando comigo por causa de uma inscrição?”

“Não havia namoro para terminar. Só havia uma garota esperando você enxergá-la.”

Dei um passo para trás.

“Ela cansou.”

Voltei para casa andando. Minhas pernas tremiam, mas não parei. À meia-noite, o portal fechou com Enfermagem registrada como minha escolha.

Chorei durante três minutos.

Depois lavei o rosto e comecei a trabalhar.

Baixei os alertas de acesso, exportei as conversas, enviei as gravações para duas contas de nuvem e escrevi uma linha do tempo. Fotografei meu caderno de preparação, o comprovante da escolha original e o cartão-postal do Itamaraty com a data no verso.

Por fim, abri a gaveta onde minha avó guardava os documentos dos meus pais.

Havia duas medalhas dentro de uma caixa azul e um cartão antigo com um número de telefone.

Coronel Augusto Tavares.

Ele atendera ao funeral representando a equipe com a qual meus pais haviam trabalhado na missão humanitária. Antes de partir, ajoelhou-se diante de mim e disse que eu poderia telefonar se algum dia precisasse entender o que eles tinham deixado para trás.

Eu nunca ligara.

Até aquela noite.

Augusto atendeu no terceiro toque.

“Elisa?”

Minha voz falhou apenas uma vez.

Contei tudo.

Quando terminei, ele ficou em silêncio por alguns segundos.

“Não apague nada”, disse. “Amanhã vamos provar que essa escolha não foi sua.”

“O prazo acabou. Eu perdi a UnB.”

“Não, menina.” A voz dele ficou firme. “Seus pais não deixaram apenas medalhas. Existe uma vaga que Gabriel jamais poderia apagar.”

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