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"Ele Entregou Meu Futuro a Outra — Mas Eu Voltei Antes" Parte 6 — A Última Estrada de Santa Aurora

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Parte 6 — A Última Estrada de Santa Aurora

Elisa abriu a porta antes que o policial batesse.

O delegado Arnaldo Vieira desceu do carro com uma pasta fina debaixo do braço. Atrás dele, um soldado permaneceu junto ao portão.

"Elisa Ribeiro?"

"Sou eu. Sei por que veio."

Vieira olhou para a mala pronta no chão.

"Recebemos uma denúncia de falsificação e apropriação de documentos. Preciso que compareça à delegacia."

"Irei por vontade própria. Mas Celina Duarte vem conosco como testemunha, e esta mala não sairá das minhas mãos."

O delegado pareceu surpreso com a firmeza dela.

"Ninguém mencionou prisão."

"Ainda."

Elisa pegou a pasta onde reunira sua identidade, o comprovante do concurso, a declaração da cooperativa, a cópia da escala alterada e o bilhete do instituto. Os documentos verdadeiros permaneceram no fundo protegido da mala.

Clara e Marcos já estavam na delegacia.

Ela chorava diante da mesa do delegado, segurando uma fotografia de Elisa e uma certidão emitida em outro município. Marcos mantinha a mão sobre o ombro dela, mas retirou-a quando Elisa entrou.

"Foi ela", Clara disse. "Usou meu trabalho, mudou os números e tomou a bolsa antes que eu pudesse me matricular."

Vieira sentou-se.

"Cada pessoa falará uma vez. Quem interromper esperará do lado de fora."

Ele pediu que Clara explicasse por que a aprovação trazia o nome Elisa Ribeiro.

"Minha mãe trabalhou para a família dela", respondeu. "Elisa disse que poderíamos usar o nome dela no concurso porque eu não tinha todos os documentos. Depois ficou com a vaga."

"E a fotografia?"

"Ela exigiu que usássemos a dela."

A história era absurda, mas havia sido construída para produzir dúvida suficiente e atrasar a viagem.

Marcos confirmou que entregara a pasta a Clara.

"Eu tentava resolver uma discussão entre as duas", disse. "Elisa ficou com ciúme quando percebeu que Clara tinha talento. Deve ter trocado alguns papéis."

Elisa colocou sobre a mesa o recibo original da inscrição.

"Peça a Clara os títulos das três obras."

Vieira fez a pergunta.

Clara citou dois nomes errados e não conseguiu descrever a terceira pintura.

Elisa informou os títulos corretos, as dimensões, os materiais e a pequena rachadura que existia no canto inferior da tela principal.

"Também quero que conste uma pergunta", Elisa disse. "Se a inscrição era de Clara, por que Marcos tentou retirar a pasta usando o sobrenome dele e alegando ser meu noivo?"

Vieira voltou-se para Marcos.

Ele respondeu que pretendia evitar que o pacote se perdesse.

"E por que não procurou Clara, a suposta candidata?"

"Porque Elisa cuidava dessas coisas."

"Então ela cuidava dos documentos, pagava a postagem, tinha a fotografia registrada e conhecia todas as obras, mas a bolsa pertencia a outra pessoa?"

Marcos não respondeu.

Elisa pediu que a pergunta, o silêncio e cada documento entregue fossem registrados antes de prosseguirem. Vieira abriu uma nova folha no inquérito.

Depois mostrou o número da pasta falsa.

正文1

"Este foi o número que Clara apresentou. Não existe porque eu o preparei como isca depois que Marcos tentou retirar meu pacote sem autorização. O número verdadeiro está registrado no instituto e não será dito até que um funcionário possa confirmá-lo."

"Então admite que produziu documentos falsos?" Marcos perguntou.

"Admito que entreguei a você papéis sem valor oficial dentro de uma pasta que me pertencia. Você decidiu repassá-los para uma tentativa de fraude."

Celina colocou sua declaração autenticada sobre a mesa. Relatou a assinatura de retirada, o horário em que Elisa entregou a pasta a Marcos e a admissão feita por ele na casa dos Azevedo.

"Isso foi mal-entendido", Marcos insistiu. "Elisa e Clara estão brigando desde que saiu o resultado."

"Mal-entendido também foi entrar na minha casa?"

Elisa apresentou o caderno com os números das notas, a declaração de Dona Rosa e o registro de pagamento de Joaquim.

Em seguida, mostrou a escala de trabalho.

"Ele tirou meu dinheiro para entregar a Clara. Quando recuperei, eliminou meus turnos e escreveu o nome dela por cima. Não são duas mulheres brigando. É um homem usando acesso, salário e documentos para me obrigar a aceitar a decisão dele."

O delegado comparou as iniciais de Marcos na escala com a assinatura de retirada.

"São suas?"

Marcos demorou a responder.

"São. Mas eu pretendia devolver o dinheiro."

"E devolveria a matrícula?" Elisa perguntou.

Ele baixou os olhos.

Vieira mandou o soldado telefonar para o posto regional assim que abrisse. Também determinou que fossem solicitadas as cópias dos documentos apresentados por Clara.

"Até recebermos a confirmação, ninguém será detido", disse. "Mas nenhum de vocês deve desaparecer."

"Minha viagem parte às cinco e quarenta. A matrícula termina amanhã."

Clara enxugou as lágrimas depressa demais.

"Ela está fugindo."

Elisa entregou ao delegado o endereço de Helena, o endereço do instituto e a convocação assinada pela secretaria.

"Estarei em três lugares verificáveis. Fugir seria permanecer aqui e deixar que roubassem meu nome."

Vieira examinou a passagem.

"Apresente-se ao posto policial da rodoviária antes do embarque. Se os documentos básicos conferirem, poderá viajar, mas continuará obrigada a responder."

Quando Elisa saiu da delegacia, o céu começava a clarear.

Não voltou para casa. Dona Rosa levou pão, água e a mala até a rodoviária. Celina trouxe a cópia final do livro de correspondência. Anselmo apareceu pouco depois e assinou uma declaração confirmando que Marcos perdera acesso aos registros.

Pela primeira vez, Elisa não estava cercada por pessoas decidindo por ela. Estava cercada por pessoas dispostas a dizer o que tinham visto.

O ônibus azul já soltava fumaça na plataforma quando o delegado Vieira chegou com o soldado.

Elisa abriu a mala sobre um banco e apresentou sua identidade, o recibo do concurso e a carta do instituto. Antes que pudesse retirar a pasta protegida, Clara surgiu correndo.

"Ela vai levar tudo!"

Clara agarrou a alça da mala. Elisa segurou o outro lado. Roupas e lápis caíram no chão quando o fecho se abriu.

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"Solte", Elisa ordenou.

"Essa bolsa é minha! Eu desenhei aquelas obras. Você só teve dinheiro para enviá-las."

As pessoas na plataforma se aproximaram. O motorista olhou o relógio.

Marcos chegou logo atrás, ofegante.

"Elisa, pare com isso. Volte para casa e eu retiro a denúncia."

"Você não pode retirar os documentos que Clara já apresentou ao posto regional."

"Podemos explicar que foi uma confusão. Ninguém precisa sair ferido."

Ele tirou do bolso o anel simples que Elisa lhe devolvera no primeiro dia.

"Case comigo. Eu construo seu ateliê. Você pinta quanto quiser e eu cuido do resto."

Tentou colocar o anel na mão dela.

Elisa o tomou entre dois dedos e o pousou no banco da rodoviária.

"Você ainda não entendeu. Não quero um quarto onde eu tenha permissão para pintar. Quero uma vida em que você não tenha poder para conceder ou retirar minha liberdade."

"Eu amo você."

"Amor não entrega o futuro de uma mulher a outra e oferece comida em troca do silêncio."

Marcos olhou ao redor. A cidade que sempre lhe dera razão agora assistia à recusa.

"Se entrar nesse ônibus, acabou."

"Acabou quando você assinou por mim."

Elisa voltou-se para o delegado. Retirou do fundo da mala a pasta original do Instituto Estadual de Artes de Minas.

O lacre, o número e a fotografia estavam intactos.

Clara perdeu a voz.

"Você queimou..."

"Você queimou o que decidiu que era meu sem abrir para conferir."

Vieira comparou o número verdadeiro com o recibo de inscrição e com a carta da secretaria. Tudo coincidia.

Elisa então colocou sobre o banco o embrulho de papel vegetal assinado por Celina.

"Estes são os fragmentos que retirei do fogão. Clara diz que destruiu meus documentos. Marcos diz que tudo foi uma confusão. Então leia o que restou e diga, diante de todos, a quem pertenciam."

O motorista anunciou a última chamada.

Vieira abriu o embrulho com cuidado. Separou o pedaço do selo, o fragmento do número e três partes de um nome chamuscado.

Clara deu um passo para trás.

Marcos ficou imóvel.

O delegado uniu as duas primeiras bordas. Entre as cinzas apareceu uma letra ainda nítida.

M.

Vieira ergueu os olhos e encarou Marcos.

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