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"Ele Entregou Meu Futuro a Outra — Mas Eu Voltei Antes" Parte 5 — Nem Mais Um Cruzeiro

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Parte 5 — Nem Mais Um Cruzeiro

Elisa não gritou.

Fechou a porta, colocou a bota sobre a mesa e examinou o corte. A lâmina seguira exatamente a costura do forro azul. Quem fizera aquilo sabia onde procurar.

Marcos conhecia o esconderijo. Meses antes, Elisa retirara dali algumas notas para pagar o remédio de Dona Teresa. Ele a vira guardar o restante e prometera esquecer.

Promessas eram a única coisa que Marcos distribuía sem medir o custo.

Elisa abriu seu caderno de despesas. Antes de esconder as economias, copiara os últimos números das notas maiores e marcara uma pequena linha vermelha ao lado do retrato impresso. Na primeira vida, não registrara nada. Desta vez, preparara-se até para perder.

Guardou o caderno no bolso e seguiu para a casa dos Nogueira.

A janela da sala estava aberta. Clara estava à mesa, contando dinheiro. As notas saíam de um saquinho de tecido azul com uma flor branca bordada no canto.

O saquinho que a mãe de Elisa costurara.

Ela poderia ter invadido a casa e puxado Clara pelos cabelos. Poderia ter transformado a verdade numa briga entre duas jovens, exatamente como Marcos desejava.

Em vez disso, Elisa voltou à cooperativa.

Vinte minutos depois, retornou acompanhada de Celina, do gerente Anselmo e de dois vizinhos: Dona Rosa, que morava diante da casa de Elisa, e Joaquim, responsável pelo depósito de café.

Clara tentou esconder o dinheiro quando os viu entrar.

"O que significa isso?"

Elisa apontou para o saquinho.

"Significa que você vai devolver o que roubou."

"Não roubei nada. Marcos me deu."

"Então ele vai explicar de onde tirou."

Como se tivesse sido chamado pelo próprio nome, Marcos surgiu no portão. A trena ainda aparecia no bolso da calça.

Ele viu o grupo reunido, o dinheiro sobre a mesa e Elisa com a bota rasgada na mão.

"Podemos resolver isso sem envolver a cidade inteira", disse.

"Já tentou resolver tudo escondido", Elisa respondeu. "Agora será na frente de testemunhas."

Marcos lançou um olhar rápido para Clara.

"Ela precisava comprar remédios para Dona Nádia. Eu ia repor o valor."

"Você entrou na minha casa e pegou meu dinheiro?"

"Nossa casa."

"Não somos noivos. A casa é minha. O dinheiro é meu."

"Elisa, não seja mesquinha. Clara salvou minha vida. A mãe dela está doente."

"Então venda sua bicicleta. Entregue seu salário. Trabalhe à noite. Pague sua dívida com o que é seu."

Marcos endureceu o maxilar.

"Depois do casamento, eu sustentaria você. Que diferença faz usar essas economias agora?"

"A diferença é que não haverá casamento."

Anselmo pigarreou.

"Marcos, você admite que entrou na casa dela e retirou o dinheiro?"

"Admito que peguei emprestado."

"Empréstimo exige consentimento", Celina disse.

Clara apertou o saquinho contra o peito.

"Ela não pode provar que as notas são dela."

Elisa abriu o caderno.

Leu os números finais de cada nota antes que Celina as recolhesse. Um a um, todos coincidiram. Dona Rosa reconheceu o saquinho e a flor que a mãe de Elisa bordava em suas costuras. Joaquim confirmou que duas das notas tinham sido pagas a Elisa no depósito três dias antes.

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O rosto de Clara ficou vermelho.

"Ela armou isso."

"Armei o roubo do meu próprio dinheiro?"

Elisa contou as notas sobre a mesa. Nenhuma faltava.

"A partir de hoje", disse a Anselmo, "meu salário só pode ser retirado com minha assinatura e meu documento. Ninguém fala em meu nome."

O gerente assentiu.

"Vou registrar agora."

Dona Rosa ergueu a mão, inquieta.

"Também vi quando ele entrou na casa de Elisa", contou. "Foi no começo da tarde. Clara esperou perto do pé de limão e depois entrou. Os dois saíram juntos, mas Clara levava algo escondido sob a blusa."

Marcos virou-se para a vizinha.

"A senhora está confundindo as coisas."

"Tenho setenta anos, não sou cega."

Anselmo tirou do bolso o molho de chaves do escritório.

"Você não terá mais acesso aos registros de pagamento", disse a Marcos. "Nem retirará correspondência ou dinheiro em nome de ninguém. Amanhã conversaremos sobre suas funções na cooperativa."

"Tudo isso por causa de algumas notas?"

"Por causa de uma casa invadida, dinheiro levado e documentos entregues sem autorização", Celina respondeu.

Marcos encarou Elisa. A culpa em seu rosto cedeu lugar a uma irritação fria.

"Você está colocando todos contra mim."

"Não precisei colocar ninguém. Só parei de esconder o que você faz."

"Quando essa raiva passar, vai se arrepender de me humilhar diante da cidade."

"Roubar é uma escolha sua. A vergonha também."

Pela primeira vez, ele não encontrou uma frase gentil para encerrar a discussão.

Elisa colocou o dinheiro no bolso e pegou o saquinho azul.

Clara tentou segurá-lo.

"Minha mãe precisa de remédio!"

"E a filha dela precisa aprender que sofrimento não transforma roubo em direito."

Elisa saiu sem olhar para Marcos.

Na manhã seguinte, seu nome não apareceu na escala da colheita.

Celina mostrou-lhe o livro antes que o sino do trabalho tocasse. A linha de Elisa fora riscada e o nome de Clara estava escrito por cima. Ao lado havia as iniciais de Marcos, que ajudava Anselmo a organizar as equipes externas.

A alteração fora feita na tarde anterior, antes de Anselmo recolher as chaves dele.

"Ele disse que você precisava descansar para o casamento", Celina contou.

Elisa pediu uma cópia da página.

Anselmo ofereceu-se para corrigir a escala imediatamente, mas ela apontou para a próxima turma disponível, no depósito.

"Coloque-me ali. E não apague a alteração."

O gerente compreendeu. A prova valia mais do que a vingança de obrigar Marcos a admitir naquele instante.

Naquela tarde, chegou uma ordem de pagamento de Helena. O valor cobria a diferença da passagem e trazia o endereço de uma pequena editora que precisava de ilustradores iniciantes.

Também havia um bilhete da secretaria do Professor Augusto Ferraz: Elisa deveria apresentar-se pessoalmente com os originais. A ocorrência criada pela tentativa de Clara não cancelaria sua aprovação.

Elisa vendeu o tecido branco que Marcos deixara em sua casa. Com o dinheiro, comprou uma mala de lona, lápis, pão seco e uma passagem sem reserva antecipada. Trabalhou os últimos turnos no depósito e recebeu cada pagamento pessoalmente.

Na véspera da viagem, entregou a nova chave de casa a Dona Rosa.

"Se eu não voltar?"

"Então cuido como se fosse minha", a vizinha prometeu.

Elisa retirou o quadro da parede. Guardou os documentos verdadeiros e os fragmentos queimados no fundo da mala. A lata enterrada sob o limoeiro forneceu o restante de suas economias.

Tudo estava pronto.

Já passava das nove da noite quando Celina bateu à porta, sem fôlego.

"Marcos e Clara estão na delegacia", disse. "Levaram uma fotografia sua e uma denúncia assinada."

"Que denúncia?"

"Disseram que você roubou a bolsa de Clara e falsificou os documentos para fugir para Belo Horizonte."

Faróis atravessaram a janela.

Um carro da polícia parou diante da casa.

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