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"Ele Entregou Meu Futuro a Outra — Mas Eu Voltei Antes" Parte 4 — As Cinzas do Homem Que Me Traiu

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Parte 4 — As Cinzas do Homem Que Me Traiu

O papel se curvou no instante em que tocou as chamas.

"Clara!"

Marcos avançou para o fogão, mas ela se colocou na frente dele.

"Deixe queimar. Ou ela vai usar esses documentos para me denunciar."

O lacre azul derreteu. As primeiras folhas escureceram pelas bordas, revelando por um segundo o timbre do Instituto Mineiro de Engenharia.

Marcos não viu.

Seus olhos estavam em Elisa.

Ele esperava um grito, lágrimas, talvez uma tentativa desesperada de enfiar as mãos no fogo. Na primeira vida, ela teria feito tudo isso. Teria implorado por um papel que julgava ser a única prova de seu futuro.

Desta vez, Elisa permaneceu imóvel.

Celina foi quem pegou a pinça de ferro ao lado do fogão.

"Vocês enlouqueceram? Isso é documento oficial."

Ela tentou puxar o pacote, mas Clara bateu na mão dela. Marcos segurou Clara pelos ombros, tarde demais. A maior parte das folhas já virara uma massa preta, quebradiça.

"Chega!" ele gritou.

Clara respirava depressa. Havia medo em seus olhos, mas o sorriso apareceu quando ela tornou a olhar para Elisa.

"Agora acabou. Sem pasta, sem matrícula."

Elisa baixou a cabeça para esconder o que sentia.

Não era derrota. Era a certeza de que os dois haviam acabado de condenar o futuro de Marcos com as próprias mãos.

"Você conseguiu o que queria", ela murmurou.

Marcos interpretou a frase como Clara interpretaria. Aproximou-se de Elisa com a voz mais suave.

"Eu sinto muito. Não sabia que ela faria isso."

Elisa ergueu os olhos.

"Você colocou a pasta nas mãos dela."

"Eu cometi um erro. Mas ainda podemos consertar nossa vida."

Nossa vida.

Ele falava como se a palavra apagasse a fraude, a mentira sobre Dona Nádia e os meses de trabalho que planejara arrancar dela.

"Vou comprar outra aliança", Marcos continuou. "Também vou falar com o senhor Anselmo sobre o terreno perto da capela. Construiremos dois quartos. Um deles pode ser seu ateliê."

Clara cruzou os braços.

"Um ateliê? Para ela brincar de pintar enquanto você paga as contas?"

"Não se meta."

"Você prometeu cuidar de mim e da minha mãe."

Marcos fechou os olhos por um instante, comprimido entre a mulher a quem devia a vida e aquela cuja vida decidira administrar.

"Eu vou cumprir tudo", disse. "Mas isso termina hoje."

Elisa quase perguntou quantas vezes ele pretendia pagá-las usando coisas que pertenciam a ela.

Em vez disso, ajoelhou-se diante do fogão.

"O que está fazendo?" Marcos perguntou.

"Guardando o que sobrou."

Com a pinça, retirou os fragmentos que ainda não tinham se desfeito. Espalhou-os sobre uma edição velha do jornal local. Celina se abaixou para ajudá-la.

Entre as cinzas, Elisa encontrou metade de um selo: Instituto Mineiro de Engenh... Mais abaixo, um pedaço exibia a sequência do registro de Marcos. Outro conservava três letras do sobrenome Azevedo.

Ela os cobriu rapidamente antes que ele se aproximasse.

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"Não precisa fazer isso", Marcos disse. "Olhar para esses restos só vai machucar você."

"Quero me lembrar deste dia."

Ele confundiu a resposta com saudade do que fora destruído. Tocou o ombro dela.

"Eu vou compensar cada coisa que perdeu."

Elisa afastou-se antes que o toque se completasse.

Dobrou o jornal ao redor dos fragmentos e o entregou a Celina por um segundo.

"Viu o que estava escrito?"

A contadora olhou discretamente sob a dobra. Seus olhos se arregalaram ao reconhecer o instituto de engenharia, mas Elisa apertou o pulso dela.

"Não agora."

Celina compreendeu. Devolveu o pacote sem dizer nada.

Nas três semanas seguintes, Elisa representou a jovem derrotada que Marcos esperava encontrar.

Não repetiu que o noivado terminara quando ele apareceu com tábuas para reformar sua janela. Não discutiu quando ele deixou um corte de tecido branco sobre a cama e disse que Dona Teresa sonhava vê-la casada na igreja. Apenas perguntou datas, preços e nomes, como se estivesse finalmente aceitando os planos dele.

Cada resposta virava informação.

Marcos pretendia ir a Belo Horizonte somente no fim de agosto. Ainda não escrevera ao instituto de engenharia porque acreditava que seu próprio pacote permanecia intacto no armário. Clara evitava a cooperativa desde a tentativa frustrada de matrícula. Dona Nádia continuava na casa dos Azevedo, escondida dos vizinhos mais curiosos.

Enquanto eles relaxavam, Elisa trabalhava.

Colhia café antes do amanhecer, organizava sacas no depósito à tarde e, à noite, fazia pequenos retratos para famílias da região. Separava cada pagamento. Parte ficava no forro de uma bota velha; parte, numa lata enterrada sob o pé de limão.

Também envolveu os fragmentos queimados em papel vegetal e anotou a data, o local e os nomes dos presentes. Celina assinou no verso como testemunha.

O pacote foi escondido atrás do mesmo quadro que protegia os documentos verdadeiros.

No sábado, Elisa caminhou até a rodoviária do município vizinho sob o pretexto de comprar tinta. Perguntou ao atendente quais ônibus chegavam a Belo Horizonte antes do fechamento do registro e descobriu que a única viagem segura partia às cinco e quarenta da manhã.

Não comprou a passagem ainda. Uma reserva em seu nome poderia chegar aos ouvidos de Marcos. Em vez disso, anotou o valor, o número da plataforma e o nome do motorista que fazia a linha havia quinze anos.

Depois foi ao correio e enviou a Helena um cartão sem remetente aparente.

"Chego antes do fim de agosto. Se alguém perguntar, não sabe onde estou."

Na volta, parou no cartório. Pediu uma nova certidão de nascimento e confirmou quais documentos seriam aceitos caso alguém tentasse declarar perda ou solicitar uma segunda via em seu lugar. A funcionária exigiria presença pessoal ou procuração reconhecida.

Elisa deixou por escrito que não havia concedido procuração a ninguém.

Cada porta que Marcos acreditava controlar estava sendo fechada por dentro.

Elisa já tinha o suficiente para a passagem, alimentação durante a viagem e as primeiras semanas em Belo Horizonte.

Faltavam vinte dias para a matrícula.

Numa tarde, ao voltar do depósito, encontrou Marcos saindo de sua casa com uma trena na mão.

"O que estava fazendo aqui?"

"Medindo a janela. Quero instalar uma nova antes do casamento."

Ele ainda tinha a chave que Elisa lhe dera meses antes, quando acreditava que confiança significava não guardar portas.

"Não entre sem me avisar novamente."

Marcos sorriu, como se ela tivesse feito um pedido infantil.

"Logo esta também será minha casa."

Depois que ele saiu, Elisa trocou a fechadura. Conferiu o quadro: intacto. Conferiu a lata sob o limoeiro: intacta.

Por último, puxou a bota debaixo da cama e abriu o forro.

O tecido azul costurado por sua mãe estava rasgado.

Todo o dinheiro havia desaparecido.

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