"O Aviãozinho que Meu Neto Não Queria Soltar" Capítulo 4
O desenho permanecia sobre minha mesa quando o céu começou a clarear.
Passei a primeira parte da manhã ao telefone, acompanhado por Bernardo e por um colega dele que conhecia os procedimentos locais. A exposição de Noé ao frio precisava ser informada, e o restante exigia avaliação sem pressa para escolher culpados menores.
A equipe médica já havia registrado suas observações. Eu autorizara o encaminhamento e fornecera tudo o que estava sob minha responsabilidade.
Depois veio a parte que me fazia apertar o aparelho.
Liguei para a polícia.
Expliquei onde estávamos, quem eram os responsáveis pela criança e quais registros poderiam ajudar. Não pedi prisão imediata nem tentei comprar um resultado.
Quando perguntaram se o homem citado era meu filho, respondi sim.
Marcos entrou no escritório antes que eu terminasse de anotar os próximos passos.
— Para quem você ligou?
— Para quem devia ter recebido uma ligação há meses.
Ele fechou a porta.
— Você está exagerando.
Coloquei a caneta sobre a mesa.
— Essa palavra acabou aqui.
Marcos se aproximou sem sentar.
— Noé é difícil. Você fica com ele algumas horas e acha que sabe o que é educar.
— Explique.
— Birra, desobediência. Ele mente, faz cena, quer tudo do jeito dele.
— E vocês deixam sem jantar?
— Não deixamos.
Mostrei a sequência de pedidos de Rosa sem entregar o telefone dela.
— Então vamos conferir os registros.
Marcos olhou a tela e se endireitou.
— Rosa está despedida.
— Não está.
— Ela trabalha para a família.
— O contrato é comigo.
Ele virou para a janela.
— Você sempre faz isso. Me corrige na frente dos outros, tira minha autoridade e depois pergunta por que ele não respeita ninguém.
A luz da manhã deixava os objetos do escritório nítidos demais. Vi o peso de papel que Marcos fizera numa oficina da escola e que eu guardava havia mais de trinta anos.
Também vi quantas vezes usara esse menino antigo como desculpa para o homem adulto.
— Cometi muitos erros com você — disse.
Meu filho relaxou os ombros.
— Finalmente.
— Dei cargos antes de você estar pronto. Corrigi problemas sem exigir que os enfrentasse. Confundi pagar uma dívida com ensinar responsabilidade.
Ele voltou a ficar rígido.
— Não venha fazer discurso.
— Um fornecedor você tratou mal, eu telefonei pedindo desculpa. Um funcionário você demitiu para esconder uma falha, eu consegui outro emprego. Cada vez você saiu com menos trabalho do que as pessoas atingidas.
Marcos bateu os dedos na mesa.
— Você quer me transformar num criminoso por causa de um castigo.
— Quero que as pessoas certas determinem o que aconteceu. Desta vez não vou preparar sua saída antes da apuração.
Ele abriu a porta com força. Pedi que não acordasse Noé.
Meu filho quase respondeu, mas Rosa surgiu no corredor e disse que o menino já tomava café.
Marcos passou por ela sem olhar.
Fui à cozinha. Noé estava sentado perto da janela, o avião ao lado do prato.
Rosa cortara o pão em quatro pedaços e deixara uma porção de frutas separada. Ele comia devagar, verificando a entrada entre uma mordida e outra.
Sentei do lado, sem ocupar a cadeira à sua frente.
— Como estão os pés?
— Ardem um pouco.
— O doutor vai conferir de novo.
Noé tocou o avião.
— Você gostou mesmo?
— Gostei.
— Mais que o relógio?
Afastei a caneca para ver seu rosto.
— Seu presente não precisa vencer outro presente.
Meu neto ficou olhando a hélice. Depois empurrou o avião um pouco na minha direção, permitindo que permanecesse perto dos dois.
Letícia chegou por chamada no fim da manhã, em coordenação com os profissionais que nos atendiam ali. Trabalhava no Brasil com proteção de crianças e ajudaria a organizar a continuidade quando pudéssemos retornar.
Não começou perguntando o que Marcos e Cláudia tinham feito.
Perguntou onde Noé dormiria, quem estava com ele, como se alimentara e que orientações havíamos recebido. Pediu que o menino não fosse cercado por familiares querendo uma explicação.
— Ele precisa de segurança antes de precisar entender o processo — disse.
Dois profissionais locais compareceram mais tarde. Conversaram com o médico, comigo e com os pais separadamente.
Cláudia trocara o vestido por um conjunto claro. Explicou que o filho passara poucos minutos fora, que não entendera a profundidade da neve e que eu havia me assustado por chegar durante a crise.
Marcos disse que os sapatos estavam próximos da porta.
Ficaram próximos mesmo. Rosa os encontrou dentro de um armário de serviço, longe do alcance de Noé.
Entregou-os sem comentário, numa sacola limpa.
Os responsáveis pela avaliação explicaram o que poderia ser estabelecido naquele momento e o que exigiria continuidade. A permanência do menino comigo precisava ser formalizada, não apenas anunciada por mim diante da lareira.
Aceitei cada etapa, mesmo as que pareciam lentas.
Perguntaram se eu tinha condições de permanecer ali sem viajar a trabalho. Mostrei a agenda cancelada, os contatos de atendimento e o quarto onde Noé estava dormindo.
Também precisavam saber quem ajudaria quando eu descansasse. Rosa tinha papel importante, mas não seria responsável sozinha por tudo.
Preparei uma lista de pessoas disponíveis e deixei que os profissionais avaliassem o arranjo. Não ofereci funcionários como se fossem equipamentos da casa.
Rosa foi ouvida sobre sua própria disponibilidade. Pediu um dia para organizar coisas pessoais e confirmou que queria ficar com o menino naquele momento.
Noé brincava com blocos enquanto conversávamos em outra sala. Quando lhe explicaram onde passaria a noite, quis saber se poderia buscar o pijama azul.
Um profissional o acompanhou até as roupas. Marcos esperava no corredor e tentou perguntar se o menino não queria voltar ao quarto deles.
A pergunta foi interrompida.
Noé voltou com a camiseta verde e um livro sem capa. Sentou perto de Rosa, abraçando ambos.
Assinei os registros que exigiam minha confirmação, lendo antes. Bernardo verificou o que precisava de orientação especializada e o que era apenas registro do atendimento.
Pela primeira vez, assinar devagar parecia uma forma de chegar mais depressa ao que importava.
Ao final, recebi instruções por escrito. Guardei duas cópias, uma comigo e outra com Rosa, e marquei o próximo horário de avaliação.
Cláudia tentou entrar no quarto para abraçar Noé antes de sair. Ele se escondeu atrás de Rosa.
A mãe ficou parada com os braços abertos.
— Você vai fazer isso comigo?
Um dos profissionais interrompeu a pergunta. A visita não aconteceria daquela maneira.
Eu já me levantava quando ouvi a orientação e consegui parar. Não precisava ocupar cada espaço para que a proteção funcionasse.
Noé continuou com Rosa. Pedi que preparassem uma tarde tranquila, sem discussões no corredor.
Bernardo providenciou uma equipe técnica autorizada a examinar os sistemas da casa. Havia câmeras nas entradas, áreas comuns e circulação; nenhum quarto tinha gravação.
Marcos costumava administrar atualizações e acesso remoto. Os dados recentes pareciam incompletos.
Uma técnica chamada Daniela chegou com um computador e caixas lacradas para os equipamentos. Pediu que não tentássemos recuperar arquivos por conta própria.
— Seu filho tem acesso ao servidor? — perguntou.
— Ao sistema local, sim.
Ela registrou a informação e verificou a rotina de cópia remota.
Durante uma hora, o escritório ficou cheio de barras de progresso e números que eu não compreendia. Marcos telefonou quatro vezes.
Encaminhei as chamadas para Bernardo.
À tarde, Rosa levou Noé para descansar. O menino pediu que eu ficasse por perto quando acordasse.
Prometi apenas que estaria na casa.
Daniela ergueu a mão, chamando-me de volta ao monitor.
— O histórico local foi apagado em parte. A cópia automática não.
Ela abriu uma lista de arquivos preservados.
Na primeira imagem, Noé estava sentado sozinho na escada.
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