"O Aviãozinho que Meu Neto Não Queria Soltar" Capítulo 3
Fechei a porta do escritório. Rosa continuou olhando a maçaneta até eu puxar a cadeira para o outro lado da mesa.
— Há quanto tempo?
Ela passou a mão no telefone.
— Quase um ano.
A casa de Farellones tinha se tornado o destino preferido de Marcos. Eu atribuía as viagens frequentes à vontade de afastar Noé da cidade e passar tempo em família.
Meu filho dizia que o menino dormia melhor na montanha. Cláudia mandava fotografias dele junto à janela, sempre com a neve ao fundo.
Rosa não lembrava dessas fotografias.
— Aqui tinha menos gente olhando — disse. — A escola era longe. Os vizinhos vinham só em temporadas.
— O que você viu?
Ela levantou o rosto.
— Primeiro tiravam sobremesa. Depois começaram a tirar o jantar inteiro.
Minha cadeira rangeu quando me inclinei.
— Por quê?
— Se ele chorava, se derramava alguma coisa, se deixava comida. Cláudia dizia que Noé precisava entender o valor do que tinha.
— E você?
Rosa engoliu em seco.
— Dava comida quando conseguia. Às vezes ele estava no quarto. Às vezes trancavam na lavanderia.
Levantei tão depressa que ela recuou.
Parei junto à estante. Um retrato de Noé com dois anos descansava ao lado de uma fotografia da minha mulher.
— Vou buscar água — disse.
Precisava fazer alguma coisa com as mãos antes de voltar a perguntar.
Quando trouxe dois copos, Rosa já havia aberto a conversa no telefone.
— Tentei falar com o senhor.
Sobre a tela, meu nome aparecia acima de uma sequência de mensagens. Li a primeira, enviada onze meses antes.
Seu Ricardo, o menino está aqui. Queria falar com o senhor sem Marcos junto. Pode me ligar?
A segunda dizia que Noé chorara depois do jantar. Na terceira, Rosa pedia meu contato direto, porque ninguém atendia o número antigo.
— Este telefone não fica mais comigo — expliquei.
Marcos organizara a troca depois de uma tentativa de golpe. Dissera que meu número estava comprometido por chamadas automáticas e que encaminharia os contatos importantes.
Eu autorizara. Também entregara a ele acesso a parte da agenda e da caixa de e-mail.
— Mandou para outro lugar?
Rosa abriu os e-mails. Três mensagens para meu endereço empresarial tinham a palavra "Noé" no assunto.
A última vinha acompanhada de uma fotografia da folha em que anotara a temperatura do menino. O telefone havia registrado o envio às três da manhã.
Olhamos a imagem sem procurar uma data mais conveniente.
— Você mediu de novo depois? — perguntei.
— Medi. Também liguei para o atendimento. Está no meu registro.
Rosa localizou a chamada e explicou o que fora orientada a fazer. Eu anotei que precisava confirmar com o serviço, sem depender apenas da lembrança dela.
Ela levantou o rosto.
— Eu devia ter conseguido falar antes.
Pus minha caneta na mesa.
— Você tentou. Agora vamos mostrar essas tentativas e verificar cada coisa.
O telefone dela tinha uma capa rachada. Lembrei que Marcos negara um aparelho novo para o trabalho no mês anterior, chamando a despesa de exagero.
Ofereci um equipamento da casa para usar depois da preservação dos dados. Rosa recusou que substituíssemos o antigo imediatamente.
— Quero guardar tudo que está aqui.
— Vamos guardar.
Ela tirou o carregador do bolso e ligou à tomada. Sentamos esperando a pequena luz acender, uma tarefa concreta que me permitiu voltar a ouvir sem interromper.
Nunca as vira.
Fotografei as telas com autorização e pedi que ela não apagasse nada. Depois liguei para Bernardo outra vez.
Ele já estava com um advogado local na linha. Expliquei que havia tentativas anteriores de pedir ajuda e possível interferência nos meus acessos.
— Não entrem nos sistemas com as credenciais de Marcos — disse Bernardo. — Preservem primeiro. Vamos trazer alguém para registrar e copiar corretamente.
Rosa ficou alisando a capa do telefone durante a chamada.
Quando encerrei, ela perguntou se seria despedida.
— Por que eu faria isso?
— Marcos disse que, se eu levasse coisa de família para fora, não trabalhava mais em nenhuma casa de vocês.
Puxei o papel com meus contatos e escrevi um número particular novo.
— Este fica comigo. Se eu mudar, aviso pessoalmente.
Rosa dobrou o papel e colocou no bolso do cardigã.
Eu queria perguntar por que não procurara outra pessoa. O telefone sobre a mesa, com quase um ano de mensagens sem resposta, me impediu de começar pela acusação mais confortável.
— O que mais preciso saber?
Ela falou da noite de febre. Encontrara Noé dormindo no corredor porque ele não conseguira entrar no quarto dos pais.
Levara o menino para sua própria cama e mandara uma mensagem. Cláudia descobrira na manhã seguinte e proibira que o gesto se repetisse.
— Ela dizia que ele manipulava todo mundo — contou Rosa. — Se eu pegasse no colo, aprendia a chorar mais.
Passei o dedo pela borda do copo.
Quando Marcos tinha seis anos, corria para meu quarto durante tempestades. Eu o colocava entre mim e Helena e voltava a dormir com o pé dele empurrando minha costela.
Não consegui encaixar esse menino na voz que ouvira junto à lareira.
Rosa descreveu apenas o que presenciara. Quando não sabia uma data, dizia que não sabia; quando ouvira de Noé, diferenciava do que vira pessoalmente.
Pedi que escrevêssemos uma linha do tempo sem forçar precisão onde não existia.
Ela lembrou um fim de semana em fevereiro, uma visita minha cancelada em maio e a semana em que a professora ligara.
— Professora?
— Dona Patrícia. Perguntou pelos desenhos que ele fez.
Noé estava matriculado em São Paulo, mas perdia aulas durante as viagens. Marcos me dizia que a escola autorizava atividades remotas e que ele se adiantava em tudo.
— A professora falou com Marcos?
— Eu passei a chamada. Depois ele disse que era bobagem e que eu não precisava anotar no seu calendário.
Olhei minha agenda no aparelho. Os últimos meses eram uma sequência impecável de reuniões, viagens e lembretes de aniversários.
Nenhum pedido de Rosa. Nenhuma ligação da professora.
Era possível organizar uma vida inteira de maneira a esconder justamente o que precisava ser visto.
— Ela deixou alguma coisa?
Rosa assentiu e foi ao armário do corredor. Voltou com uma pasta de plástico que protegia folhas dobradas.
— Ele queria mandar para o senhor. Guardei porque Marcos disse que iam jogar fora.
O primeiro desenho mostrava um homem grande segurando uma criança. Reconheci a camisa verde que usara numa visita ao ateliê.
O segundo tinha um carro, uma montanha e um avião de asas compridas demais.
No terceiro, uma casa ocupava quase toda a folha. Três figuras estavam dentro; uma menor ficava fora, debaixo de riscos azuis.
— Ele escreveu sozinho? — perguntei.
— A professora ajudou com algumas letras. Foi em abril.
Outubro, três meses antes do meu aniversário.
Enquanto eu aprovava transferências e elogiava a organização de Marcos, meu neto tentava aprender a escrever o que acontecia quando a porta fechava.
Rosa sentou outra vez.
— Ele fala que gosta do frio — disse. — Mas só quando o pai está perto.
Pus a folha sobre a mesa e li as letras feitas a lápis.
QUANDO EU ME COMPORTO MAL, A CASA FECHA.
Não subi para perguntar se desenhara aquilo pensando numa lembrança específica. Também não fotografei para enviar ao grupo da família.
Liguei o scanner do escritório. Bernardo receberia uma cópia, a equipe especializada outra, e o original continuaria protegido.
Rosa se levantou para verificar o menino. Pedi que me avisasse se acordasse.
No corredor, uma porta abriu. Marcos apareceu de calça de pijama, olhar parado no desenho.
— O que está acontecendo?
Virei a folha para baixo.
— Amanhã você vai responder a outras pessoas.
Meu filho levou a mão à maçaneta do escritório. Fechei a porta antes que entrasse.
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