"O Aviãozinho que Meu Neto Não Queria Soltar" Capítulo 2
Marcos permaneceu na entrada, segurando a maçaneta como se pudesse negociar o exame pela posição do corpo.
— Você não vai me expulsar.
— Desta sala, vou.
Cláudia apareceu atrás dele. Rosa se colocou ao lado da porta e apontou para o salão, sem a delicadeza habitual de quem conduzia convidados.
— A casa é da família — insistiu meu filho.
— É minha. E vocês vão esperar lá fora.
Ele me encarou por alguns segundos. Depois saiu, puxando Cláudia pelo cotovelo, e Rosa fechou a porta.
Voltei à cama. O médico continuava sentado numa cadeira baixa, com as mãos visíveis sobre os joelhos.
— Posso ficar? — perguntei ao meu neto.
Noé assentiu e deslizou os dedos para dentro da minha mão.
— O doutor só faz o que explicar antes — disse. — Você pode pedir uma pausa.
O médico repetiu a oferta. Chamava-se Tomás, morava a poucos quilômetros e atendia famílias que se hospedavam na região havia muitos anos.
Noé permitiu que ele levantasse o suéter. Duas marcas amareladas apareciam perto das costelas.
Meu braço endureceu sobre a cama. Retirei a mão de perto do menino para que ele não sentisse meu aperto.
— Vou perguntar sobre estas marcas — disse Tomás. — Você sabe como apareceram?
— Caí.
A resposta saiu depressa. O médico não insistiu imediatamente; examinou a abrasão do joelho, conferiu a temperatura e voltou a cobri-lo.
Rosa trouxe água. Noé bebeu apoiando o copo com as duas mãos.
— Preciso saber como você se machucou para cuidar melhor — disse Tomás. — Pode me contar quando estiver pronto.
Meu neto olhou para a porta.
— Eles vêm?
— Agora não — respondi. — Rosa fica ali comigo.
Ela levou a cadeira para perto da entrada.
Noé passou o dedo pela asa torta do avião.
— Mamãe me empurrou.
O médico fez uma anotação, mantendo a voz no mesmo volume.
— Onde você estava?
— Na mesa. Semana passada. Eu não terminei o jantar.
Esperei ele acrescentar alguma coisa. Noé não acrescentou.
Tomás fez apenas as perguntas necessárias ao atendimento. Depois pediu para conversar comigo no corredor, deixando Rosa junto do menino.
A temperatura estava baixa, mas o quadro não parecia grave naquele momento. Era preciso observação, cuidado com os pés e uma avaliação mais completa conforme a evolução.
Quanto às marcas, ele registraria o que vira e o relato espontâneo. Não poderia dizer pela cor exatamente quando haviam surgido nem reduzir tudo a uma impressão minha.
— Precisa ser encaminhado — disse.
Concordei. Pedi os contatos de atendimento local e de profissionais especializados em proteção infantil.
— Não interrogue seu neto durante a noite — orientou. — Você pode acolher. A investigação precisa evitar que ele conte a mesma história para cada pessoa da família.
No salão, Marcos falava ao telefone perto da lareira. Cláudia chorava diante de uma prima que ainda não decidira se deveria consolá-la.
Ela me viu e se aproximou.
— Você está fazendo todo mundo pensar coisas horríveis.
— O médico está registrando o que encontrou.
— Noé inventa. Você sabe que crianças inventam.
Meu filho encerrou a chamada.
— Foi uma noite difícil. Amanhã ele vai estar bem.
Eu segurava o papel com as instruções do médico. Dobrei ao meio para não rasgá-lo entre os dedos.
— Amanhã vocês não ficam sozinhos com ele.
— Você não decide isso — respondeu Marcos.
— Vou chamar quem pode decidir.
Cláudia ficou imóvel. Marcos tirou o telefone do bolso, olhou a tela e guardou outra vez.
Não dei a nenhum dos dois oportunidade de transformar o corredor numa reunião. Voltei para o quarto e encontrei Noé com um prato de sopa sobre uma bandeja.
Rosa segurava a colher, mas esperava ele pedir ajuda.
— Posso comer tudo? — perguntou o menino.
Ela levantou o rosto para mim. Eu puxei uma cadeira.
— Pode comer quanto quiser. Se não quiser mais, a gente guarda.
Noé tomou a primeira colherada sem olhar para a porta. Na segunda, olhou.
Um ruído de taça veio do salão e seu braço parou no ar. Rosa disse que estava recolhendo a mesa, e ele voltou a comer.
Enquanto isso, eu telefonava para o serviço indicado por Tomás. Expliquei a exposição ao frio, as marcas e a necessidade de orientação urgente, sem tentar abreviar a história para proteger nosso sobrenome.
Recebi instruções para manter os registros e procurar o atendimento apropriado. Anotei tudo, inclusive os horários.
Depois liguei para Bernardo Lima, que cuidava dos meus assuntos empresariais e patrimoniais no Brasil. Ele atendeu de São Paulo com a voz de quem acabara de acordar.
— Ricardo, houve um acidente?
— Preciso de ajuda. Mas primeiro ouça até o fim.
Quando terminei, ele pediu o nome do médico e disse que acionaria um colega local. Não prometeu resolver a proteção de uma criança com uma procuração ou uma transferência bancária.
Foi a primeira pessoa naquela noite que me ajudou sem fingir que meu dinheiro tornava tudo simples.
Noé dormiria no meu quarto. Rosa carregou suas coisas, e eu levei o menino, agora com meias sobre os pés doloridos.
Na mala dele, as roupas estavam dobradas com uma precisão que não combinava com as de uma criança de seis anos. Rosa explicou que Cláudia conferia a arrumação antes de dormir.
Pedi que deixasse apenas o necessário ao alcance. Noé escolheu uma camiseta verde, rejeitou outra e guardou o carrinho vermelho num bolso.
— Posso levar duas coisas? — perguntou.
— Quantas couberem aqui sem ficar pesado.
Ele olhou a bolsa pequena, abriu o zíper e colocou o carrinho ao lado do avião. Depois retirou o presente de madeira.
— Esse vai na mão.
Rosa fechou a bolsa e esperou que ele pedisse ajuda para levantar. Não corrigiu a escolha.
No quarto, Noé examinou o armário e encontrou chinelos do meu tamanho. Tentou enfiar um pé, sorriu quando a ponta desapareceu e tirou depressa ao ouvir passos.
Deixei os chinelos ao lado da cama. A brincadeira poderia voltar quando quisesse.
Ele pediu que a luz do banheiro ficasse acesa. Também quis a porta entreaberta.
— E o avião?
Coloquei o presente sobre a mesa de cabeceira, voltado para a cama.
— Fica aqui.
Noé examinou o lugar, como se verificasse uma promessa por vez.
— Papai está bravo comigo?
Sentei ao lado dele.
— Hoje você não precisa resolver o que seu pai sente.
— Você vai dar castigo?
— Os adultos também respondem quando fazem uma coisa errada.
Ele apertou o lençol.
— Eu quebrei o copo.
— Copos quebram.
— Era caro.
Lembrei do relógio sobre o aparador, intacto em sua caixa, enquanto meu neto ficava descalço lá fora.
— A gente compra outro copo, Noé. Não compra outra criança.
Ele me olhou até o queixo começar a tremer. Puxei a cadeira para mais perto, deixando que escolhesse se queria abraço.
Meu neto se aproximou e encostou o rosto na minha manga.
— Não joga meu avião fora.
— Não vou jogar.
— A asa ficou torta.
Passei o dedo pela madeira lixada. Dois anos antes, em meu ateliê, eu o ensinara a usar uma lixa grossa; ele trabalhara num bloco pequeno durante uma tarde inteira.
— Você trabalhou muito nele?
— Um monte de dias.
— Dá para ver.
Ele sorriu pela primeira vez. Um sorriso pequeno, rápido, que desapareceu quando uma porta bateu no corredor.
Rosa apareceu e avisou que os últimos convidados estavam indo embora. O médico telefonaria mais tarde para conferir a evolução.
Noé adormeceu segurando minha mão. Esperei sua respiração ficar regular antes de soltá-la.
Não fui atrás de Marcos. Tampouco tentei reconstruir naquela madrugada cada conversa do último ano.
Fiquei observando os pés cobertos e o avião sobre a mesa, incapaz de escolher qual daqueles detalhes me prendia mais.
Às duas, desci para buscar a pasta do seguro e meus contatos. A porta do escritório estava aberta.
Rosa me esperava com o telefone sobre a mesa.
— Preciso que me conte o que sabe — disse.
Ela puxou uma cadeira e olhou o corredor antes de responder.
— Eu tinha medo do dia em que o senhor perguntasse.
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