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"O Aviãozinho que Meu Neto Não Queria Soltar" Capítulo 1

正文开头

Os pés de Noé apareceram no alcance dos faróis antes de seu rosto.

Afundei o pedal do freio. O carro parou atravessado diante da casa, e o motorista atrás de mim buzinou enquanto eu abria a porta sem desligar o motor.

Meu neto estava a poucos metros da entrada. A neve passava de seus tornozelos, a barra da calça cinza grudava nas pernas e o suéter fino parecia uma roupa esquecida no varal.

— Noé!

Ele levantou a cabeça. Seus lábios tinham perdido a cor, e as mãos apertavam alguma coisa contra o peito.

— Vovô!

Corri soltando os botões do sobretudo. Quando o envolvi, seu corpo tremia inteiro; um dos pés se ergueu do chão e ficou suspenso, como se ele tivesse desistido de encontrar um lugar menos frio.

— O que você está fazendo aqui?

Noé tentou responder, mas os dentes batiam. Peguei-o no colo e segurei a nuca por cima do tecido.

O peso dele me assustou. Eu conhecia aquele menino desde o primeiro choro, carregara-o em praias, aeroportos e escadas, mas meu braço o acomodou com facilidade demais.

— Estou aqui. Vamos entrar.

Ele enterrou o rosto no meu pescoço. Um objeto duro ficou entre nós, pressionando minha camisa.

— Está machucando você?

Meu neto retirou uma das mãos do casaco e mostrou um avião de madeira. Uma asa pendia para a esquerda, a hélice tinha duas pontas diferentes e pequenas manchas azuis escapavam da pintura.

Na lateral, letras grandes ocupavam quase todo o espaço disponível.

PARA O VOVÔ.

— Fiz pra você — disse, ainda com a boca tremendo. — De aniversário.

Eu completava sessenta e sete anos naquela noite. Marcos, meu único filho, organizara o jantar na casa de montanha que mantínhamos perto de Farellones, onde a família passava algumas semanas durante o inverno chileno.

A viagem de Santiago demorara mais que o previsto. Uma parte da estrada fechara por causa da tempestade, e eu chegara depois do horário combinado, embora antes do que Marcos esperava.

Ele insistira em cuidar de tudo.

— Deixa alguém fazer alguma coisa por você, pai — dissera pelo telefone.

Atrás dos vidros, a lareira iluminava uma mesa comprida. Vi pratos, fitas douradas e mãos erguendo taças.

— Quem colocou você aqui fora?

Noé baixou o rosto para o avião.

— Eu fui ruim.

Continuei caminhando, protegendo seus pés sob o casaco.

— Perguntei quem colocou você aqui.

— Papai disse que eu tinha que aprender.

Parei na porta. A maçaneta estava gelada.

— Aprender o quê?

Ele apertou minha camisa.

— A não fazer vergonha.

Empurrei a porta com o ombro. A conversa cessou na mesa como se alguém tivesse desligado um rádio.

Marcos estava perto da lareira, de cabelo penteado e taça na mão. Usava um suéter cinza com desenhos escuros, comprado especialmente para a viagem.

Ao lado dele, Cláudia segurava um guardanapo que não precisava. O vestido dourado, a corrente de pérolas e os sapatos claros pareciam escolhidos para uma fotografia.

正文1

— Ricardo — disse ela. — Achamos que você chegaria mais tarde.

Passei pelos dois e levei Noé até o sofá. Rosa apareceu do corredor antes que eu a chamasse.

— Mantas. E o médico do vilarejo, agora.

Ela olhou para os pés do menino e levou a mão à boca. Depois se moveu depressa, sem pedir explicações.

Marcos pousou a taça.

— Pai, não precisa fazer esse espetáculo.

Virei a cabeça.

— Encontrei seu filho descalço na neve.

— Foram só uns minutos — disse Cláudia.

— Quantos?

Ela ajeitou o colar. Marcos abriu as mãos.

— Foi um castigo.

Noé se encolheu antes que o pai terminasse. Coloquei a mão sobre o ombro dele, por cima do sobretudo.

— Por quê?

Marcos viu o avião. A mudança em seu rosto foi tão rápida que acompanhei seu olhar para conferir se havia alguma coisa escondida na madeira.

— Me dá isso, Noé.

O menino puxou o presente para dentro do casaco.

— É do vovô.

— Eu mandei dar.

Levantei entre os dois.

— Por que quer o avião?

— Porque toda essa bobagem começou com ele.

Cláudia soltou o ar pelo nariz.

— Preparamos um presente decente. Uma peça de coleção. Ele queria aparecer com esse negócio.

Sobre o aparador, uma caixa de couro permanecia aberta. Um relógio antigo repousava no veludo, e um cartão trazia os nomes dos dois.

Noé levantou o rosto.

— Eu só queria dar meu presente.

Ajoelhei diante dele, sem deixar Marcos se aproximar.

— O que aconteceu?

Meu neto olhou para o pai. A mão do menino procurou a minha, e segurei seus dedos com cuidado.

— Caiu um copo.

— Porque ele fez birra — interrompeu Marcos.

— Não fiz.

— Chega, Noé.

Os ombros dele subiram até quase tocar as orelhas. Permaneceram ali quando o pai se calou.

— Pode continuar — disse eu.

Noé respirou pela boca.

— Mamãe falou que o avião dava vergonha. Eu disse que ela não podia jogar fora porque era seu. Aí ela tentou pegar.

Cláudia cruzou os braços.

— Não inventa.

Meu neto parou de falar. Atrás dela, duas pessoas da família olharam para os próprios pratos.

— Rosa, fique aqui — pedi, quando ela voltou com as mantas.

Ela cobriu as pernas dele. Noé relaxou apenas um pouco ao vê-la sentar na ponta do sofá.

— Você correu? — perguntei.

Ele assentiu.

— Papai disse que, se eu gostava de ser selvagem, podia ficar fora até aprender educação.

Marcos fez um gesto impaciente.

— Ele saiu calçado.

Noé olhou para os pés.

— Mamãe tirou meu chinelo.

Cláudia respondeu antes que eu perguntasse.

— Estavam sujos. Ele pisou no vinho.

— E vocês fecharam a porta?

Ela olhou para Marcos.

— Ricardo, você dramatiza tudo.

Meu filho avançou e estendeu a mão outra vez.

— Me dá o avião. É um pedaço de madeira. Você sempre acaba com qualquer disciplina.

正文2

Bloqueei seu braço com o meu. Ele recuou, esbarrou na mesa lateral e derrubou duas caixas de presente.

Cláudia tentou passar pelo outro lado. Segurei seu antebraço antes que tocasse Noé e a afastei do sofá.

Ela tropeçou nos pacotes. Soltei assim que recuperou o equilíbrio.

— Não encoste nele — disse.

Marcos ajeitou o suéter.

— Você vai me corrigir na frente da família?

Peguei meu neto de novo. Os pés dele desapareceram sob a manta, e o avião ficou entre sua mão e meu peito.

— Vocês vão responder pelo que fizeram.

Rosa apontou para o quarto de hóspedes no corredor. Levei Noé para lá enquanto os convidados começavam a recolher casacos, sem saber onde pousar os olhos.

O médico chegou quarenta minutos depois. Rosa havia trazido meias secas, água e uma bolsa de roupas, mas não tentara esquentar os pés com força nem colocá-lo direto na água quente.

Antes da chegada, fiquei junto da cama enquanto Rosa atendia as ligações. Noé não queria que eu retirasse o casaco.

— Está molhado na barra — expliquei.

Ele apertou a gola.

Rosa trouxe uma manta seca e deixou que tocasse o tecido. Trocamos uma cobertura pela outra devagar, e meu neto permitiu que o sobretudo fosse para a cadeira.

— Fica aí — pediu.

— Fica.

Marcos apareceu no corredor, mas não entrou. Noé acompanhou sua sombra debaixo da porta até ela desaparecer.

O avião permaneceu junto de sua mão. Só então conseguiu beber dois goles de água.

O profissional se apresentou, deixou a maleta sobre uma cadeira e perguntou ao menino se poderia examinar suas mãos.

Noé consentiu. Seu tremor diminuíra, e ele conseguiu dizer onde os dedos doíam.

Marcos entrou sem bater quando o médico pediu para examinar o tronco.

Meu neto agarrou a barra do suéter.

— Não.

O médico retirou a mão imediatamente.

Marcos cruzou os braços junto à porta.

— Faz isso toda vez. Nunca deixa ninguém ajudar.

Noé puxou meu casaco até cobrir o queixo.

Eu me levantei e caminhei até a porta, deixando o avião sobre a cama ao alcance dele.

— Saia, Marcos.

— Ele é meu filho.

— Então ouça quando ele diz não.

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