"O Bebê Milionário Pediu Um Sorvete… E Acabou Preso" Capítulo 5
Dante passou a noite inteira no escritório sem conseguir fechar os olhos.
O laudo estava sobre a mesa.
Ele tinha lido tantas vezes que já sabia de cor cada linha.
Probabilidade de paternidade: 0%.
Mas nada naquele papel conseguia apagar a imagem de Theo chamando por ele no escuro.
Nem a primeira febre.
Nem os primeiros passos.
Nem o jeito como o menino corria para seus braços sempre que ouvia sua voz.
Ao amanhecer, Dante subiu para o quarto.
Theo ainda dormia.
O urso de pelúcia estava caído ao lado da cama.
Dante se abaixou, pegou o brinquedo e colocou perto do menino.
Theo abriu os olhos devagar.
"Papai."
Dante fechou os olhos por um segundo.
"Estou aqui."
Theo estendeu os braços.
Dante o pegou no colo.
O menino encostou a cabeça em seu peito.
Nada havia mudado para Theo.
E, naquele instante, Dante decidiu que nada mudaria para ele também.
A porta se abriu.
Helena Montenegro entrou sem bater.
Estava pálida.
"Dante, precisamos conversar."
Ele não respondeu.
Theo brincava com o botão de sua camisa.
Helena olhou para o neto.
"É verdade?"
Dante levantou os olhos.
"Quem contou?"
"Ricardo disse que houve um exame."
Dante sentiu a raiva subir.
"Ricardo não deveria saber."
"Mas sabe."
Helena respirou fundo.
"Eu quero ver o resultado."
"Não."
"Dante."
"Eu disse não."
Helena deu um passo à frente.
"Isso não é apenas uma questão sua."
Dante riu sem humor.
"Meu filho deixou de ser meu filho porque um laboratório imprimiu um número?"
"Não é isso que estou dizendo."
"Então diga."
Helena olhou para Theo.
"Se ele não é seu filho biológico, precisamos entender o impacto jurídico."
Dante ficou imóvel.
"Impacto jurídico?"
"Você sabe como o patrimônio foi estruturado."
"Ele tem menos de dois anos."
"Os trusts, as participações, os direitos sucessórios..."
Dante interrompeu.
"Não fale de dinheiro na frente dele."
Theo olhou de um para outro, percebendo a tensão.
Helena baixou a voz.
"O nome Montenegro carrega obrigações."
Dante respondeu:
"Ele carrega meu filho."
"Se Theo não tem sangue Montenegro, isso muda tudo."
Dante apertou o menino contra o peito.
"Para mim, não."
Helena permaneceu em silêncio.
Dante percebeu uma coisa.
Não era apenas preocupação no rosto da mãe.
Era medo.
"Por que você está tão assustada?"
Helena desviou os olhos.
"Porque o grupo pode entrar em guerra."
"Ou porque você sabe mais do que está dizendo?"
Ela voltou a encará-lo.
"Não comece."
"Eu não comecei nada."
Theo se mexeu.
Dante encerrou a conversa.
"Saia do quarto."
Helena ficou tensa.
"Dante..."
"Agora."
Ela saiu sem responder.
Minutos depois, o telefone de Dante tocou.
Bruno.
"Temos movimento no conselho."
Dante colocou Theo no chão.
"Que tipo de movimento?"
"Ricardo está ligando para os membros mais antigos."
Dante fechou o maxilar.
"Assunto?"
"Governança."
"Tradução."
"Quer convocar uma reunião extraordinária."
"Para quê?"
Bruno hesitou.
"Questionar sua permanência na presidência."
Dante soltou uma risada seca.
"Rápido."
"Ele está usando a crise da Atlântico Azul."
"Não é só isso."
"O que mais?"
"Ele está insinuando que você escondeu do grupo a verdadeira situação sucessória de Theo."
Dante ficou imóvel.
"Ele sabe do exame."
"Sim."
"Descubra como."
Dante desligou.
Duas horas depois, entrou na sede do Grupo Montenegro acompanhado de Bruno.
Os corredores da Faria Lima estavam silenciosos demais.
Executivos evitavam olhar diretamente para ele.
Dante entrou na sala do conselho.
Ricardo já estava lá.
"Você não perdeu tempo."
Ricardo levantou-se.
"Estou protegendo a empresa."
"De mim?"
"Da instabilidade."
Dante puxou uma cadeira.
"Então fale na minha cara."
Ricardo apoiou as mãos na mesa.
"O mercado já está reagindo. O nome do grupo foi ligado a uma empresa investigada. Agora surgem dúvidas sobre o herdeiro."
Dante respondeu:
"Meu filho não é assunto do conselho."
"Quando ele possui participação futura, é."
"Ele não possui nada hoje."
"Mas o estatuto sucessório existe."
Dante estreitou os olhos.
"E você está muito interessado nele."
Ricardo sorriu de lado.
"Alguém precisa pensar na família."
Dante levantou-se.
"Você quer minha cadeira."
Ricardo não negou.
"Eu quero estabilidade."
"Você quer poder."
"Talvez sejam a mesma coisa."
Dante se aproximou.
"Se tentar usar Theo para chegar até mim, vai se arrepender."
Ricardo respondeu baixo:
"Se ele nem é seu filho, por que está tão preocupado?"
O silêncio ficou pesado.
Dante segurou a raiva.
"Porque pai é quem fica."
Ricardo não respondeu.
Horas depois, Dante mandou chamar Isabela à mansão.
Ela chegou desconfiada.
Theo estava no jardim com a babá.
Quando viu Isabela, abriu um sorriso imediato.
"Isa!"
Ela parou.
O peito apertou.
Theo caminhou desajeitado até ela.
Isabela se abaixou.
Ele se jogou em seus braços.
Por alguns segundos, ela esqueceu todo o resto.
Dante observava de longe.
Depois se aproximou.
"Precisamos conversar."
Isabela percebeu o tom.
"O que aconteceu?"
"Eu fiz o exame."
Ela ficou séria.
"O seu?"
"Meu e do Theo."
"Resultado?"
Dante respondeu sem rodeios.
"Não sou o pai biológico dele."
Isabela ficou imóvel.
Theo brincava com seu cabelo.
"Tem certeza?"
"Refizemos a conferência."
Ela olhou para o menino.
A expressão mudou.
Dante percebeu.
"Quero que você faça também."
Isabela ergueu os olhos.
"Não."
"Precisamos saber."
"Eu disse não."
"Isabela..."
"Não."
Theo se assustou com a voz.
Ela o abraçou mais forte.
Dante respirou fundo.
"Se houver uma chance..."
"Não fale."
"De quê?"
"De ele ser meu."
Dante ficou em silêncio.
Isabela sentiu os olhos arderem.
"Você não entende."
"Entendo mais do que imagina."
"Não."
Ela balançou a cabeça.
"Eu enterrei um filho sem ter um corpo para enterrar."
Dante não respondeu.
"Passei dois anos tentando aceitar que ele morreu."
A voz falhou.
"Se eu fizer esse exame e der negativo, eu perco ele de novo."
Theo encostou o rosto no ombro dela.
Isabela fechou os olhos.
"Eu não consigo."
Dante falou mais baixo.
"E se der positivo?"
Ela abriu os olhos.
"Também não sei se consigo."
A resposta surpreendeu Dante.
"Por quê?"
"Porque aí significa que alguém roubou meu filho."
Ela olhou para Theo.
"E deixou que eu acreditasse que ele estava morto."
O menino já começava a cochilar.
Isabela continuou balançando devagar.
Dante observou.
Theo dormiu em poucos minutos.
Sem choro.
Sem resistência.
Como se aquele colo fosse antigo.
Isabela passou a mão no cabelo dele.
Uma lágrima caiu.
"Ele sempre dorme assim?"
Dante respondeu:
"Não."
Ela olhou para ele.
"Comigo, sim."
Dante assentiu.
Foi isso que acabou quebrando sua resistência.
No dia seguinte, Isabela entrou em uma clínica particular em São Paulo.
Bruno acompanhou todo o procedimento.
Nada sairia dali sem cadeia de custódia.
Nenhum nome seria compartilhado com o laboratório além do necessário.
Nenhuma amostra seria trocada.
Dois dias depois, o resultado chegou.
Dante chamou Isabela.
Ela entrou no escritório e viu o envelope.
Parou na porta.
"Já chegou?"
"Sim."
"Você abriu?"
"Não."
Ela demorou a se aproximar.
Theo estava com a babá no andar de cima.
Isabela sentou.
As mãos tremiam.
Dante empurrou o envelope na direção dela.
"Quer abrir?"
Ela não respondeu.
Ficou olhando.
Depois pegou.
Rasgou lentamente.
Leu o próprio nome.
Depois o de Theo.
Seus olhos desceram.
Pararam.
Ela não respirou.
Dante percebeu.
"Isabela?"
Ela levou a mão à boca.
O papel começou a tremer.
"Não."
Dante se levantou.
"Me mostra."
Ela não conseguiu.
Ele pegou o laudo.
Probabilidade de maternidade: 99,99%.
Dante ficou imóvel.
Isabela soltou um som baixo.
Quase um gemido.
"Ele está vivo."
As pernas cederam.
Dante conseguiu segurá-la antes que caísse.
Isabela começou a chorar.
Não como antes.
Era um choro profundo.
Descontrolado.
"Meu filho está vivo."
Dante não sabia o que dizer.
Ela apertou o laudo contra o peito.
"Ele estava vivo."
Dois anos.
Dois aniversários.
Duas noites de dezoito de agosto passadas chorando por uma criança que respirava em outra casa.
Isabela levantou de repente.
"Eu quero ver ele."
Dante assentiu.
Subiram.
Theo estava sentado no tapete do quarto, empilhando blocos.
Quando viu Isabela, sorriu.
"Isa."
Ela parou na porta.
O sorriso dele a destruiu.
Isabela caiu de joelhos.
"Theo."
O menino levantou.
Caminhou até ela.
Isabela o abraçou com tanta força que começou a soluçar.
"Meu filho."
Theo tocou o rosto dela.
"Mamã?"
Isabela congelou.
Dante também.
Theo repetiu, sem entender o peso daquela palavra.
"Mamã."
Isabela fechou os olhos e o beijou na testa.
"Sim."
Dante permaneceu alguns passos atrás.
O peito apertado.
Ele deveria sentir apenas alívio.
Mas não sentia.
Porque agora havia uma verdade impossível diante deles.
Theo era filho de Isabela.
Não era filho biológico de Dante.
Ainda assim, Marina havia dado à luz naquela mesma noite.
Dante entrou no quarto.
Isabela levantou os olhos.
Ele falou devagar:
"Se Theo é seu filho..."
Ela ficou séria.
Dante olhou para o menino entre os braços dela.
"...onde está o filho que minha esposa deu à luz?"
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