"O Bebê Milionário Pediu Um Sorvete… E Acabou Preso" Capítulo 4
A casa de Rosa Martins ficava em uma rua tranquila de Santos, longe dos prédios luxuosos da orla e ainda mais distante do mundo dos Montenegro.
Isabela não queria voltar ali com Dante.
Mas, naquela manhã, percebeu que havia perguntas que só sua mãe poderia responder.
Rosa abriu a porta e perdeu o sorriso ao ver a filha acompanhada por dois homens de terno.
"Isabela?"
"Mãe, esse é Dante Montenegro."
Rosa reconheceu o sobrenome imediatamente.
Seu rosto endureceu.
"O pai daquele menino?"
Dante percebeu a escolha das palavras.
"Do Theo."
Rosa olhou para a filha.
"O que aconteceu?"
Isabela entrou sem responder.
Bruno permaneceu do lado de fora enquanto Dante acompanhava as duas até a pequena sala.
Havia fotografias da família sobre um móvel de madeira.
Nenhuma de bebê.
Isabela sentou-se.
"Mãe, eu preciso falar sobre aquela noite."
Rosa ficou imóvel.
"Que noite?"
"Você sabe."
O silêncio respondeu antes dela.
Rosa apertou as mãos.
"Por que agora?"
"Porque alguma coisa aconteceu naquele hospital."
"Isabela..."
"Meu prontuário desapareceu."
Rosa empalideceu.
Dante observou.
"E alguém registrou minha morte no mesmo dia em que meu filho nasceu."
Rosa precisou se apoiar na cadeira.
"Isso não pode ser verdade."
"É."
Isabela respirou fundo.
"Eu preciso saber tudo o que você lembra."
Rosa olhou para Dante.
"Ele precisa ficar?"
"Precisa."
Rosa não gostou.
Mas sentou.
"Você estava muito mal."
"Eu sei."
"Não sabe."
A voz de Rosa tremeu.
"Você gritava perguntando pelo bebê. Depois dormia por causa dos remédios. Quando acordava, perguntava de novo."
Isabela abaixou os olhos.
Rosa continuou:
"Uma enfermeira veio falar comigo perto das quatro da manhã."
"O que ela disse?"
"Que o bebê tinha piorado."
"Você viu ele?"
Rosa demorou.
"Não."
Isabela levantou a cabeça.
"Você nunca viu?"
"Não deixaram."
"Por quê?"
"Disseram que estavam tentando estabilizar."
Dante perguntou:
"Quem falou com a senhora?"
Rosa fechou a expressão.
"Não lembro o nome."
"Homem ou mulher?"
"Uma enfermeira primeiro. Depois um médico."
"Como ele era?"
"Uns cinquenta anos. Alto. Cabelo grisalho nas laterais."
Dante olhou para Bruno, que havia entrado discretamente.
Bruno anotou.
Isabela perguntou:
"Quando disseram que ele morreu?"
Rosa respirou fundo.
"Pouco antes das seis."
Isabela apertou os dedos contra os joelhos.
"E eu não vi meu filho."
"Eu pedi."
A voz de Rosa quebrou.
"Juro que pedi."
Isabela levantou os olhos.
Rosa já chorava.
"Eu disse que você precisava se despedir."
"E?"
"Disseram que não era recomendado."
Isabela ficou de pé.
"Não era recomendado?"
"Você estava muito fraca."
"Ele era meu filho!"
"Eu sei."
"Então por que você aceitou?"
Rosa também se levantou.
"Porque eu estava sozinha!"
O grito calou a sala.
Rosa enxugou o rosto.
"Minha filha estava numa cama sem conseguir ficar em pé. Meu neto tinha acabado de morrer. Um médico dizia que eu precisava pensar na sua saúde."
Isabela virou o rosto.
"Eu devia ter insistido."
"Devia."
Rosa fechou os olhos ao ouvir aquilo.
Isabela imediatamente se arrependeu.
Mas a dor de dois anos não deixava espaço para delicadeza.
Dante permaneceu em silêncio.
Ele conhecia aquela culpa.
Rosa caminhou até um armário.
"Quando você recebeu alta, uma funcionária trouxe suas coisas."
Ela abriu uma gaveta.
"Suas roupas, documentos e isso."
Rosa retirou uma pequena caixa.
Colocou sobre a mesa.
Isabela ficou paralisada.
"Mãe..."
"Eu guardei."
Dentro havia uma manta de bebê azul-clara.
Pequena.
Cuidadosamente dobrada.
Isabela tocou o tecido.
Sua respiração falhou.
"Eu achei que você tivesse jogado fora."
"Eu nunca conseguiria."
Isabela levou a manta ao rosto.
O choro veio sem aviso.
Dante desviou os olhos.
Rosa abraçou a filha.
"Desculpa."
Isabela apertou a manta contra o peito.
"Eu nem pude enterrar meu filho."
Rosa ficou tensa.
Dante percebeu.
"Como assim?"
Isabela respondeu sem olhar para ele.
"O hospital disse que cuidaria dos procedimentos."
Dante franziu a testa.
"Não houve funeral?"
"Não."
"Certidão de óbito da criança?"
"Eu nunca recebi."
Dante olhou para Bruno.
Aquilo não parecia apenas estranho.
Parecia errado.
Rosa falou:
"Eu tentei perguntar depois."
Isabela se virou.
"Você nunca me contou."
"Porque você não conseguia ouvir o nome dele sem passar mal."
"O que disseram?"
"Que o setor responsável entraria em contato."
"E entrou?"
Rosa balançou a cabeça.
"Não."
Dante perguntou:
"A senhora guardou algum documento daquela internação?"
"Alguns."
Rosa procurou outra pasta.
Entregou a Dante.
Havia recibos, uma pulseira hospitalar de Isabela e papéis de alta.
Bruno fotografou tudo.
Dante segurou a pulseira.
Hospital Santa Augusta.
18 de agosto.
Aquela data parecia persegui-lo.
Isabela percebeu seu silêncio.
"Agora é sua vez."
Dante ergueu os olhos.
"Minha vez?"
"Você ouviu tudo sobre meu filho."
Ela apertou a manta.
"Quero saber o que aconteceu com Theo naquela noite."
Dante demorou a responder.
"Marina entrou no hospital no fim da tarde."
"Ela já estava em trabalho de parto?"
"Sim."
Ele sentou.
"A gravidez tinha sido tranquila. Ninguém esperava uma emergência."
Isabela permaneceu de pé.
"O parto começou pouco depois das dez."
Dante olhou para as próprias mãos.
"Eu estava do lado de fora."
A memória voltou inteira.
Corredores brancos.
Passos correndo.
Uma porta fechada.
Sangue no uniforme de uma enfermeira.
"Primeiro disseram que estava tudo bem."
Dante respirou fundo.
"Depois um médico saiu correndo."
Isabela não disse nada.
"Marina teve uma hemorragia."
A voz dele perdeu a dureza habitual.
"Eu tentei entrar. Não deixaram."
"Você viu Theo nascer?"
"Não."
Isabela ficou imóvel.
Dante continuou:
"Ouvi um bebê chorar."
Ela apertou a manta.
"Depois?"
"Disseram que o menino precisava ir para observação neonatal."
"Você viu o rosto dele?"
Dante balançou a cabeça.
"Não naquela hora."
Isabela sentiu um arrepio.
"E Marina?"
Dante ficou em silêncio por alguns segundos.
"Ela morreu antes do amanhecer."
Rosa levou a mão à boca.
Dante olhou para a janela.
"Quando me disseram, eu esqueci de tudo."
Sua voz ficou baixa.
"Eu só conseguia pensar que tinha entrado naquele hospital com uma esposa e um filho e podia sair sem nenhum dos dois."
Isabela sentiu a raiva diminuir.
Não a desconfiança.
Mas a raiva.
"Quando você pegou Theo pela primeira vez?"
Dante respondeu:
"Na manhã seguinte."
Isabela parou.
"Quanto tempo depois do nascimento?"
"Quase dez horas."
"Você não o viu antes?"
"Não."
"Nem através do vidro?"
"Não."
Dante percebeu onde aquilo estava chegando.
"Disseram que ele estava em observação."
Rosa perguntou:
"Quem entregou o menino?"
Dante tentou lembrar.
"Um médico e uma enfermeira."
"Você conhecia o médico?"
"Não."
Bruno levantou os olhos.
"Consegue reconhecer?"
"Talvez."
Dante se levantou.
"Quero a lista de todos os médicos daquele plantão."
"Já pedi."
"Não espere."
Bruno assentiu.
No caminho de volta para São Paulo, Dante não falou.
A lembrança da primeira vez que segurou Theo não saía de sua cabeça.
O menino estava enrolado em uma manta branca.
Pequeno.
Quieto.
Dante o havia segurado e prometido que nunca o abandonaria.
Nunca perguntara por que não lhe permitiram vê-lo antes.
Naquela época, a morte de Marina havia destruído qualquer capacidade de pensar.
Agora, cada detalhe parecia suspeito.
Naquela noite, Dante entrou sozinho no quarto de Theo.
O menino dormia de lado, abraçado a um urso.
Dante sentou ao lado da cama.
Passou a mão pelos cabelos dele.
Theo abriu os olhos.
"Papai."
"Estou aqui."
Theo estendeu a mão.
Dante segurou.
O menino voltou a dormir.
Dante ficou ali por quase uma hora.
Então pegou o telefone.
Ligou para Bruno.
"Preciso que faça uma coisa sem contar a ninguém."
"Pode falar."
"Nem Ricardo. Nem minha mãe. Nem Marcelo."
Bruno ficou sério.
"O que precisa?"
Dante olhou para Theo.
"Um exame de DNA."
Houve silêncio.
"Seu e do Theo?"
"Sim."
"Tem certeza?"
"Faça."
Dois dias depois, Dante estava em seu escritório na mansão quando Bruno entrou carregando um envelope.
Dante soube pela expressão dele.
"Chegou?"
Bruno colocou o envelope sobre a mesa.
"Sim."
Dante não tocou.
"Você viu?"
"Não."
"Mais alguém sabe?"
"Ninguém."
Dante abriu o envelope.
O papel pareceu pesado demais entre seus dedos.
Leu o primeiro nome.
Dante Vasconcelos Montenegro.
Depois o segundo.
Theo Montenegro.
Seus olhos desceram até a conclusão.
Ele parou.
Leu novamente.
Bruno percebeu que algo estava errado.
"Dante?"
Ele não respondeu.
A mão que segurava o laudo começou a tremer.
"Senhor Dante?"
Dante levantou os olhos.
Pela primeira vez desde que Bruno o conhecia, havia medo no rosto daquele homem.
Bruno pegou o documento.
Então viu.
Probabilidade de paternidade: 0%.
Bruno ficou sem palavras.
Dante olhou para a fotografia de Theo sobre a mesa.
O menino que chamava por ele quando tinha medo.
O menino que dormia segurando sua mão.
O filho que ele criara desde o primeiro dia de vida.
Dante falou quase sem voz.
"Theo não é meu filho biológico."
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