"O Bebê Milionário Pediu Um Sorvete… E Acabou Preso" Capítulo 3
Isabela chegou ao edifício do Grupo Montenegro pouco depois das sete da noite.
Não sabia por que havia sido chamada com tanta urgência.
Só sabia que Bruno fora buscá-la em Santos e que, durante todo o caminho até São Paulo, quase não dissera uma palavra.
Quando as portas do elevador se abriram no último andar, Isabela sentiu que alguma coisa estava errada.
Dante estava de pé diante da parede de vidro da sala de reuniões.
Ricardo permanecia perto da mesa.
Marcelo Azevedo segurava uma pasta de documentos.
Ninguém sorriu.
Isabela parou na porta.
"O que aconteceu?"
Dante virou-se devagar.
"Entre."
Ela entrou.
Bruno fechou a porta atrás dela.
Isabela olhou de um homem para outro.
"Se isso é por causa do depoimento do iate, eu já falei com a delegada."
"Não é sobre o seu depoimento."
Dante puxou uma cadeira.
"Sente."
Isabela não gostou do tom.
"Prefiro ficar em pé."
Ricardo cruzou os braços.
"Talvez seja melhor sentar."
Isabela olhou diretamente para ele.
"Eu disse que prefiro ficar em pé."
Dante pegou uma folha sobre a mesa.
"Você conhece a empresa Atlântico Azul Participações?"
"Não."
"Tem certeza?"
"Tenho."
"Já ouviu esse nome antes?"
"Nunca."
Dante colocou o papel diante dela.
Isabela leu rapidamente.
No topo estava o nome da empresa.
Mais abaixo havia seu próprio nome.
Ela congelou.
"Isso é o quê?"
"Uma autorização vinculada à abertura da empresa."
Isabela olhou novamente.
Seu nome completo aparecia no documento.
Isabela Oliveira Martins.
Seu CPF.
Sua data de nascimento.
O nome de Rosa Martins, sua mãe.
Ela perdeu a cor.
"De onde vocês tiraram isso?"
Marcelo respondeu:
"De registros ligados à empresa que colocou Theo como beneficiário."
Isabela ergueu os olhos.
"Eu não tenho nada a ver com isso."
Ricardo aproximou-se.
"Seu nome está no documento."
"Meu nome pode estar onde quiserem colocar."
"Seu CPF também?"
"Eu nunca vi esse papel."
Ricardo apontou para a parte inferior.
"E essa assinatura?"
Isabela baixou os olhos.
Ali estava uma assinatura.
Seu primeiro nome começava exatamente do jeito que ela costumava escrever.
O "I" levemente inclinado.
O "O" de Oliveira quase fechado.
Até o traço final parecia familiar.
Isabela deu um passo para trás.
"Não."
Dante observou seu rosto.
"É sua assinatura?"
"Se parece."
"Isso não responde."
Ela levantou a voz.
"Eu disse que se parece."
Ricardo soltou uma risada curta.
"Que conveniente."
Isabela se virou para ele.
"Você está me acusando de quê?"
"De saber mais do que está dizendo."
"Eu trabalho servindo mesas. Moro em Santos. Não tenho empresa, não tenho iate e não movimentei trinta milhões de reais."
Ricardo respondeu:
"Mesmo assim, seu nome aparece em tudo."
Isabela olhou para Dante.
"Foi por isso que mandou me buscar?"
Dante não desviou o olhar.
"Eu precisava ouvir de você."
"Ouvir o quê?"
"Se está mentindo."
A expressão dela mudou.
"Você acha que eu estou mentindo?"
"Eu não sei."
"Então acha."
"Eu disse que não sei."
Isabela sentiu a raiva subir.
"Ontem seu filho foi colocado no meio de uma investigação. Hoje eu descubro que meu nome está em documentos que nunca assinei. E sua primeira conclusão é que eu faço parte disso?"
Dante respondeu:
"Minha primeira conclusão é que alguém está escondendo alguma coisa."
"E decidiu que esse alguém sou eu."
"Seu nome está ligado à empresa."
"Eu não escolhi isso."
"Preciso ter certeza."
Isabela respirou fundo.
"Então pergunte."
Dante puxou outra folha.
"Por que os seus dados civis registram que você morreu?"
O silêncio foi imediato.
Isabela piscou.
"O quê?"
Marcelo colocou uma certidão sobre a mesa.
Isabela não pegou.
Dante falou:
"Segundo esse registro, Isabela Oliveira Martins morreu há quase dois anos."
Ela riu.
Mas o som saiu nervoso.
"Isso é ridículo."
"Eu também achei."
"Estou aqui."
"Eu sei."
"Então é um erro."
"Talvez."
Isabela finalmente pegou o documento.
Leu uma vez.
Depois outra.
Sua respiração mudou.
Ali estava seu nome.
CPF.
Filiação.
Data de nascimento.
E abaixo:
Falecimento.
Ela apertou o papel.
"Isso não existe."
Marcelo respondeu:
"O registro existe."
"Mas eu não morri."
"Ninguém está dizendo que morreu."
Isabela levantou os olhos.
"Então alguém declarou minha morte."
Ninguém respondeu.
Ela voltou ao documento.
A data chamou sua atenção.
Dezoito de agosto.
Seus dedos começaram a tremer.
Dante percebeu.
"Essa data significa alguma coisa para você?"
Isabela não respondeu.
"Isabela."
Ela continuou olhando para o papel.
Dante se aproximou.
"Você conhece essa data?"
Ela ergueu o rosto.
Os olhos estavam diferentes agora.
Não havia raiva.
Havia medo.
"Conheço."
Ricardo perguntou:
"Por quê?"
Isabela dobrou lentamente a folha.
"Isso não tem nada a ver com vocês."
Dante endureceu o rosto.
"Tem tudo a ver comigo."
"Não."
"Essa empresa foi aberta no dia seguinte."
Isabela franziu a testa.
"No dia seguinte a quê?"
Dante hesitou.
"A essa data."
Ela respirou fundo.
"Eu quero ir embora."
Dante bloqueou o caminho.
"Não antes de me dizer o que aconteceu em dezoito de agosto."
Isabela ficou imóvel.
"Saia da minha frente."
"Não."
Bruno observava da porta.
Marcelo abaixou os olhos.
Ricardo permaneceu em silêncio.
Isabela falou mais baixo.
"Você não tem o direito de entrar nessa parte da minha vida."
Dante respondeu:
"Quando essa parte aparece ligada ao nome do meu filho, eu tenho."
Ela empurrou o documento contra o peito dele.
"Seu filho."
Dante percebeu a dor na voz.
Isabela virou o rosto.
Por alguns segundos, pareceu tentar recuperar o controle.
Não conseguiu.
"Eu estava em São Paulo naquele dia."
Dante ficou atento.
"Fazendo o quê?"
Ela fechou os olhos por um instante.
"Parindo."
A sala ficou em silêncio.
Ricardo mudou de expressão.
Dante não disse nada.
Isabela continuou.
"Eu estava grávida."
Sua voz saiu baixa.
"Morava em Santos, mas minha gestação ficou complicada nas últimas semanas."
Ela apertou os próprios braços.
"Minha médica conseguiu uma transferência para um hospital em São Paulo."
Dante perguntou:
"Qual?"
Isabela olhou para ele.
"Hospital Santa Augusta."
Dante ficou imóvel.
Mas ela ainda não percebeu.
Isabela continuou:
"Minha mãe veio comigo. Eu entrei em trabalho de parto na noite do dia dezoito."
Ricardo perguntou:
"Menino ou menina?"
Ela virou o rosto para ele.
"Menino."
Sua voz falhou.
"Era um menino."
Ninguém interrompeu.
"Eu fiquei horas em trabalho de parto."
Isabela apertou os olhos.
"Quando ele nasceu, eu ouvi o choro."
A lembrança parecia arrancar o ar de seus pulmões.
"Eu ouvi meu filho."
Dante abaixou lentamente o documento.
"Você chegou a vê-lo?"
"Por alguns segundos."
Isabela passou a mão pelo rosto.
"Colocaram ele perto de mim. Depois disseram que precisava de atendimento."
Ela respirou fundo.
"Eu estava exausta. Apagava e acordava."
A voz ficou mais baixa.
"Quando acordei de verdade, minha mãe estava chorando."
Dante sentiu um peso no peito.
"O que disseram?"
"Que houve uma complicação."
Isabela apertou os lábios.
"Disseram que meu filho não tinha resistido."
O silêncio da sala se tornou pesado.
Ricardo desviou o olhar.
Até Marcelo pareceu desconfortável.
Dante perguntou:
"Você viu o corpo?"
Isabela endureceu.
"Não."
"Por quê?"
"Disseram que eu estava fraca demais."
"E depois?"
"Minha mãe tentou resolver tudo."
Ela balançou a cabeça.
"Eu não queria ver ninguém. Não conseguia levantar da cama sem sentir que estava faltando alguma coisa."
Dante continuou:
"Deram algum documento?"
"Sim."
"Certidão?"
"Documentos do hospital."
"E o registro do bebê?"
Isabela respirou fundo.
"Eu nunca fiz."
Dante franziu a testa.
"Por quê?"
"Porque disseram que ele morreu antes de concluírem o registro."
Ricardo olhou para Marcelo.
Marcelo entendeu.
Isabela percebeu.
"O que foi?"
Ninguém respondeu.
Ela olhou para Dante.
"O que vocês estão pensando?"
Dante perguntou:
"Qual era o nome dele?"
Ela demorou.
"Eu queria chamar de Miguel."
"Queria?"
"Eu ainda não tinha registrado."
Dante assentiu lentamente.
Isabela passou a mão sobre os olhos.
"Depois voltei para Santos."
Sua voz estava mais firme, mas o rosto já estava molhado.
"Eu nunca mais voltei àquele hospital."
Dante perguntou:
"E nunca percebeu que havia uma certidão de óbito no seu nome?"
"Claro que não."
"Não recebeu nenhuma notificação?"
"Nada."
Marcelo falou pela primeira vez em vários minutos.
"Seu CPF continuou ativo?"
"Sim."
"Conta bancária?"
"Normal."
"Carteira de trabalho?"
"Normal."
Marcelo franziu a testa.
"Então esse óbito pode ter sido inserido em uma base específica."
Isabela respondeu:
"Eu não entendo nada disso."
"Nem deveria."
Dante continuava parado.
Seu rosto estava estranho.
Isabela percebeu.
"Por que está me olhando assim?"
Ele demorou a responder.
"Você disse que entrou no Hospital Santa Augusta no dia dezoito de agosto."
"Sim."
"À noite?"
"Sim."
"Que horas seu filho nasceu?"
Isabela pensou.
"Pouco depois das onze."
Dante respirou devagar.
Ricardo virou-se para ele.
"Dante."
Isabela olhou de um para outro.
"O que foi?"
Dante não respondeu imediatamente.
As mãos dele se fecharam.
"Marina também estava naquele hospital naquela noite."
Isabela franziu a testa.
"Quem é Marina?"
"Minha esposa."
O ar pareceu mudar.
"Esposa?"
"Ela morreu no parto de Theo."
Isabela congelou.
Dante continuou:
"Theo nasceu no Hospital Santa Augusta."
Ela não piscou.
"Não."
"Sim."
"Não."
"Isabela."
Ela deu um passo para trás.
"Você está confundindo as datas."
"Não estou."
Dante conhecia aquela data melhor do que qualquer outra.
"Dezoito de agosto."
Isabela ficou completamente pálida.
Marcelo abriu um arquivo no notebook.
Dante se aproximou.
"Que horas Theo nasceu oficialmente?"
Marcelo pesquisou.
Alguns segundos pareceram longos demais.
Então ele parou.
"Vinte e três horas e quarenta e sete minutos."
Isabela levou a mão à boca.
Dante olhou para ela.
Seu filho havia nascido pouco depois das onze.
Theo também.
No mesmo hospital.
Na mesma noite.
Dante pegou o telefone.
"Bruno."
"Sim."
"Quero tudo sobre o Hospital Santa Augusta naquela noite."
Bruno já estava se movendo.
Dante continuou:
"Plantão médico, enfermagem, prontuários, câmeras, transferências, tudo."
Ricardo falou:
"Depois de dois anos, muita coisa pode ter desaparecido."
Dante virou-se para ele.
"Então encontre o que não desapareceu."
Isabela ainda estava parada.
O rosto molhado.
"Isso não quer dizer nada."
Dante olhou para ela.
"Talvez não."
"Milhares de crianças nascem em São Paulo."
"Não no mesmo hospital, quase na mesma hora, enquanto alguém declara a mãe de uma delas morta."
Isabela balançou a cabeça.
"Não."
A porta se abriu.
Bruno havia recebido uma mensagem antes mesmo de sair.
Ele olhou para o celular.
Depois para Dante.
"Tem uma coisa."
Dante perguntou:
"O quê?"
Bruno entrou novamente.
"Eu pedi uma consulta preliminar nos registros antigos do Santa Augusta."
Isabela segurou a borda da mesa.
Bruno continuou:
"Naquela noite, aparecem dois partos masculinos registrados no mesmo setor, com menos de uma hora de diferença."
Dante ficou imóvel.
"E os prontuários?"
Bruno engoliu em seco.
"Um está completo."
"E o outro?"
Bruno olhou diretamente para Isabela.
"Foi apagado."
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