"O Bebê Milionário Pediu Um Sorvete… E Acabou Preso" Capítulo 2
Na manhã seguinte, o nome de Theo Montenegro já estava em todos os portais de notícia do país.
As imagens do iate em Guarujá apareciam repetidas vezes na televisão, ao lado de manchetes que pareciam absurdas demais para serem reais.
"Bebê milionário ligado a esquema de R$ 30 milhões."
"Filho de Dante Montenegro aparece como beneficiário de empresa investigada."
"Polícia apura uso de criança em movimentações financeiras."
Dante desligou a televisão com tanta força que o controle bateu na mesa de mármore.
Theo estava no colo da babá, ainda de pijama, apertando um pequeno carrinho entre as mãos.
A mansão em Jardim Europa estava cercada por jornalistas desde o amanhecer.
Câmeras ocupavam a calçada.
Carros de reportagem bloqueavam parte da rua.
Qualquer funcionário que atravessasse o portão era cercado por perguntas.
"Senhor Montenegro, quem abriu a empresa?"
"Dante, seu filho recebeu dinheiro ilegal?"
"Há outras contas no nome de Theo?"
Bruno fechou as cortinas da sala.
"Já mandei reforçar o portão."
Dante andava de um lado para o outro.
"Quero descobrir quem vazou isso."
"Pode ter vindo de dentro da própria investigação."
"Então descubra quem."
Bruno assentiu.
Dante parou diante da janela.
"Também quero uma lista completa de todos que tiveram acesso aos documentos de Theo desde o nascimento."
"Escola, hospital, cartório, escritório de advocacia?"
"Todos."
A porta da sala se abriu.
Ricardo Montenegro entrou sem esperar ser anunciado.
Usava um terno cinza escuro e trazia o rosto fechado.
"O conselho está em pânico."
Dante nem se virou.
"Bom dia para você também."
"Não existe bom dia quando metade da Faria Lima está perguntando se nossa empresa lava dinheiro usando um bebê."
Dante olhou para ele.
"Minha empresa não lava dinheiro."
"Eu sei."
Ricardo jogou uma pasta sobre a mesa.
"Mas os investidores não sabem."
Bruno observava os dois em silêncio.
Ricardo respirou fundo.
"Precisamos reagir antes que isso destrua o grupo."
"Reagir como?"
"Suspender qualquer movimentação ligada à Atlântico Azul, contratar auditoria externa e descobrir quem colocou Theo nesses documentos."
"Isso já está sendo feito."
"Não rápido o bastante."
Dante estreitou os olhos.
Ricardo apontou para a televisão desligada.
"Seu filho virou manchete nacional em menos de doze horas."
Theo ergueu a cabeça ao ouvir a voz mais alta.
Seu rosto mudou.
O lábio inferior tremeu.
A babá tentou balançá-lo.
"Calma, meu amor."
Theo começou a chorar.
Primeiro baixo.
Depois mais forte.
Dante imediatamente atravessou a sala.
"Me dá ele."
A babá entregou Theo.
Dante o apertou contra o peito.
"Está tudo bem."
Theo se debateu.
"Papai."
"Eu estou aqui."
O menino virou o rosto.
Continuou chorando.
Dante tentou distraí-lo com o carrinho.
Nada.
Ricardo observou a cena com impaciência.
"Talvez seja melhor levar o menino para o quarto."
Dante lançou um olhar frio.
"Talvez seja melhor você calar a boca."
Ricardo ergueu as mãos.
"Estou tentando ajudar."
Theo começou a chorar ainda mais.
Bruno se aproximou.
"Senhor Dante..."
Uma funcionária apareceu na porta.
"Desculpe interromper."
Dante virou-se.
"Fala."
"Aquela moça do iate está aqui."
Dante franziu a testa.
"Que moça?"
"Isabela Oliveira."
O choro de Theo parou por um segundo.
Ele ouviu o nome.
Virou o rosto para a porta.
"Isa."
Dante ficou imóvel.
Ricardo olhou para Theo.
"Ele disse o quê?"
Theo estendeu os braços para o corredor.
"Isa."
A funcionária arregalou os olhos.
Dante também.
"Ele conhece o nome dela?"
A babá balançou a cabeça.
"Eu nunca ensinei."
Isabela apareceu alguns segundos depois.
Estava vestida de maneira simples, calça escura e uma camisa clara.
Parecia desconfortável naquele ambiente.
"Senhor Montenegro."
Theo a viu.
O choro voltou imediatamente.
Mas dessa vez ele se inclinou na direção dela.
"Isa."
Isabela congelou.
"Oi, Theo."
O menino estendeu os dois braços.
Dante percebeu.
Seu rosto endureceu.
Theo insistiu.
"Isa."
Isabela não se moveu.
Dante olhou para o filho.
Depois para ela.
"Pegue."
Isabela hesitou.
"Tem certeza?"
"Pegue."
Ela se aproximou devagar.
Quando Theo passou para seus braços, algo aconteceu que deixou todos em silêncio.
Ele parou de chorar.
Simplesmente parou.
Encostou o rosto no ombro de Isabela.
Uma das mãos pequenas se fechou na gola de sua camisa.
Isabela ficou imóvel.
Sentiu um aperto tão forte no peito que quase perdeu o ar.
Não fazia sentido.
Ela havia conhecido aquele menino no dia anterior.
Só isso.
Mas segurá-lo daquele jeito despertava uma sensação estranha.
Familiar.
Dolorosa.
Como se seu corpo reconhecesse algo que sua cabeça não entendia.
Theo suspirou.
Fechou os olhos.
Ricardo observou.
"Curioso."
Dante olhou para ele.
"O quê?"
"Ele nunca faz isso com desconhecidos."
Isabela passou a mão devagar nas costas de Theo.
"Talvez esteja assustado."
Dante respondeu:
"Ele está."
Ela olhou para ele.
"Eu vim porque a delegada Camila pediu que todos os funcionários do iate prestassem depoimento."
"Então por que está aqui?"
"Porque meu celular ficou na embarcação."
Bruno respondeu:
"Está com a equipe de segurança. Eu mando buscar."
Isabela assentiu.
Theo apertou mais forte sua camisa.
Dante viu.
Algo na cena o incomodou.
Não por ciúme.
Por estranheza.
Aquela criança demorava dias para aceitar novos funcionários.
Com Isabela, bastara uma tarde.
Ricardo voltou ao assunto.
"Precisamos ir para a Faria Lima."
Dante não tirou os olhos de Theo.
"Bruno, mande preparar o carro."
"Sim."
Ricardo apontou para Isabela.
"E ela?"
"Ela vai embora assim que Theo acordar."
Isabela ergueu a cabeça.
"Eu posso entregar agora."
Dante respondeu:
"Não."
Ela hesitou.
Dante baixou o tom.
"Deixe ele dormir."
Por um instante, os dois se olharam.
Isabela assentiu.
Horas depois, a cobertura da sede do Grupo Montenegro estava tomada por advogados, auditores e executivos.
No centro da sala de reuniões, uma tela exibia dezenas de documentos.
A Atlântico Azul Participações havia movimentado trinta milhões de reais em menos de um ano.
Parte do dinheiro passara por contas no Brasil.
Outra parte seguira para empresas estrangeiras.
Dante estava na cabeceira.
Ricardo à sua direita.
Marcelo Azevedo, advogado da família, organizava os arquivos.
"Temos um problema maior do que imaginávamos."
Dante cruzou os braços.
"Fala."
Marcelo abriu uma planilha.
"A empresa não foi criada há sete meses."
Ricardo franziu a testa.
"Quando foi?"
"Quase dois anos atrás."
Dante ficou imóvel.
"Data exata."
Marcelo olhou para a tela.
"Dezenove de agosto."
Dante mudou de expressão.
Ricardo percebeu.
"O que foi?"
Dante respondeu baixo.
"Theo nasceu dia dezoito."
A sala ficou em silêncio.
Marcelo assentiu.
"A empresa foi aberta no dia seguinte ao nascimento dele."
Ricardo bateu a mão na mesa.
"Isso é impossível."
"Está registrado."
"Quem registrou?"
Marcelo demorou alguns segundos para responder.
"Uma representante legal."
Dante se inclinou para frente.
"Quem?"
Marcelo abriu outro documento.
"Não foi você."
Dante não piscou.
"Eu já entendi isso."
"Também não foi Helena."
Ricardo perguntou:
"Então quem assinou?"
Marcelo girou o notebook.
Na tela havia um nome.
Dante leu.
"Isabela Oliveira Martins."
A expressão de Ricardo mudou.
"Isabela?"
Dante lembrou da mulher segurando Theo naquela manhã.
Lembrou do menino parando de chorar nos braços dela.
"É a mesma Isabela do iate?"
Marcelo abriu outro arquivo.
"CPF confere."
"Tem certeza?"
"Nome completo, data de nascimento e filiação também."
Dante ficou em silêncio.
Ricardo se levantou.
"Então aquela mulher está envolvida."
Dante levantou os olhos.
"Não sabemos disso."
"Dante, o nome dela está na abertura da empresa."
"Nome pode ser usado."
"CPF também?"
"Pode."
Ricardo soltou uma risada curta.
"Você está defendendo uma funcionária que conheceu ontem."
Dante respondeu com frieza:
"Estou defendendo fatos."
Marcelo mexeu no teclado.
"Tem mais."
Dante olhou para ele.
"O quê?"
Marcelo abriu um cadastro vinculado ao documento.
Sua expressão mudou.
Ricardo percebeu.
"Fala."
Marcelo respirou fundo.
"Segundo esse registro, Isabela Oliveira Martins não poderia ter assinado nada recentemente."
Dante franziu a testa.
"Por quê?"
Marcelo virou a tela mais uma vez.
Havia uma certidão digital.
No campo de situação civil, uma palavra chamou atenção.
Óbito.
Dante ficou imóvel.
Ricardo se aproximou.
"Isso é algum erro?"
Marcelo balançou a cabeça.
"O sistema registra que Isabela Oliveira Martins morreu há quase dois anos."
Dante se levantou.
"Ela esteve na minha casa hoje de manhã."
Marcelo respondeu:
"Então alguém está usando os dados de uma mulher oficialmente morta."
Dante olhou novamente para a tela.
A data de falecimento aparecia abaixo do nome.
Ele leu duas vezes.
Depois uma terceira.
Dezoito de agosto.
O mesmo dia em que Theo nasceu.
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