"O Bebê Milionário Pediu Um Sorvete… E Acabou Preso" Capítulo 1
O mar de Guarujá parecia uma placa azul sob o sol da tarde quando o iate da família Montenegro cortou a Baía de Santos em velocidade lenta.
Do lado de fora, o casco branco reluzia. Do lado de dentro, mármore claro, madeira escura, metais dourados e sofás de couro faziam o convés principal parecer mais a sala de um hotel de luxo do que uma embarcação.
Mas naquela tarde, o dono de toda a atenção não era nenhum empresário.
Era Theo Montenegro.
Com apenas um ano e oito meses, Theo ocupava sozinho uma enorme poltrona de couro bege, as pernas curtas sem alcançar o chão.
Vestia um pequeno paletó de veludo vinho, camisa branca, gravata-borboleta preta e sapatos perfeitamente engraxados.
No pulso, um relógio infantil feito sob medida imitava o modelo usado pelo pai.
No rosto, óculos escuros pequenos demais para esconder a expressão séria.
Um dos marinheiros passou por ele e inclinou a cabeça.
"Boa tarde, chefe."
Theo nem piscou.
Outro funcionário segurou o riso.
Desde que aprendera a andar, o menino desenvolvera o hábito de apontar para tudo como se estivesse dando ordens.
E a tripulação havia entrado na brincadeira.
Naquele dia, porém, Theo parecia particularmente exigente.
Ele observava uma bandeja de sobremesas passar de um lado para o outro do salão com a atenção de quem acompanhava uma negociação milionária.
Isabela Oliveira Martins percebeu.
Ela havia começado a trabalhar em eventos privados no litoral havia poucos meses e aquela era sua primeira vez a bordo do iate dos Montenegro.
Vinha de Santos, estava acostumada a clientes ricos, mas nunca tinha visto nada parecido.
Nem um bebê tratado como presidente de empresa.
Isabela atravessou o salão segurando uma bandeja prateada.
Sobre ela havia duas taças de sorvete artesanal, decoradas com chantilly, morangos e raspas de chocolate.
Theo acompanhou cada passo dela.
Quando Isabela passou diante da poltrona, ele levantou uma mão.
"Sorvete."
Isabela parou.
Olhou para os lados, procurando algum adulto responsável.
Nenhum.
Bruno Almeida, chefe da segurança da família, estava alguns metros adiante falando ao rádio.
A babá de Theo havia descido para buscar uma troca de roupa.
Isabela voltou os olhos para o menino.
Theo apontou de novo.
"Sorvete."
Ela mordeu o lábio para não rir.
"Sorvete, senhor Montenegro?"
Theo fez um movimento grave com a cabeça.
Como se tivesse acabado de aprovar uma aquisição.
Isabela se abaixou um pouco.
"Chocolate ou creme?"
Theo olhou para uma taça.
Depois para a outra.
"Dois."
Isabela finalmente riu.
"Ah, então o senhor já aprendeu a negociar."
Theo tirou os óculos com uma mão desajeitada.
Seus olhos castanhos ficaram enormes.
"Dois."
"Seu pai autorizou?"
Theo respondeu sem hesitar.
"Pai."
"Isso não foi exatamente um sim."
Ele apontou novamente para a bandeja.
Isabela sentiu uma ternura inesperada.
Havia algo estranho naquele menino.
Não em sua aparência, mas no modo como ele a observava.
Theo parecia confortável perto dela.
Como se já a conhecesse.
Isabela escolheu a menor taça e colocou sobre a mesa lateral.
"Uma. Se o seu pai reclamar, o senhor assume a responsabilidade."
Theo estendeu a mão imediatamente.
Antes que seus dedos alcançassem a colher, um som atravessou o salão.
Uma sirene.
Isabela ergueu a cabeça.
Bruno parou de falar ao rádio.
Uma segunda sirene soou mais perto.
Depois uma voz veio de fora.
"Embarcação Montenegro, reduza a velocidade e mantenha a posição."
O sorriso desapareceu do rosto de Isabela.
Bruno levou a mão ao ponto eletrônico.
"O que está acontecendo?"
Um segurança surgiu no corredor.
"Tem uma lancha oficial se aproximando pelo estibordo."
Bruno caminhou rapidamente até as janelas.
Três embarcações menores cercavam o iate.
Homens e mulheres uniformizados se preparavam para subir a bordo.
Theo, completamente indiferente, pegou a colher.
Isabela segurou sua mão antes que ele mergulhasse no sorvete.
"Espera um pouquinho."
Theo franziu a testa.
"Meu."
"Eu sei."
A porta lateral do salão se abriu.
Três agentes entraram primeiro.
Atrás deles vinha uma mulher alta, de cabelos escuros presos, expressão firme e uma pasta preta na mão.
Bruno se colocou na frente.
"A senhora não pode entrar aqui sem autorização."
A mulher mostrou a identificação.
"Delegada Camila Nogueira."
Bruno olhou rapidamente o documento.
"Isso é uma embarcação particular."
"Eu sei exatamente de quem é esta embarcação."
"Qual é o motivo da abordagem?"
Camila não respondeu imediatamente.
Seus olhos percorreram o ambiente.
Pararam em Theo.
O bebê havia conseguido recuperar a colher.
Estava tentando alcançar o chantilly.
Camila caminhou em direção a ele.
Bruno bloqueou seu caminho.
"Nem mais um passo."
Camila ergueu a pasta.
"Saia da frente, senhor Almeida."
"Se veio falar com o senhor Montenegro, ele não está a bordo."
"Não vim falar com Dante Montenegro."
Bruno estreitou os olhos.
"Então veio falar com quem?"
Camila apontou para a poltrona.
"Com ele."
Por alguns segundos, ninguém entendeu.
Isabela olhou para Theo.
Theo olhou para o sorvete.
Bruno soltou uma risada seca.
"Isso é alguma brincadeira?"
Camila abriu a pasta.
"Theo Vasconcelos Montenegro."
Theo ergueu os olhos ao ouvir o próprio nome.
Camila continuou.
"Ele está sob custódia."
O salão inteiro ficou em silêncio.
Uma colher caiu no chão ao fundo.
Isabela se levantou de imediato.
"O quê?"
Bruno deu um passo à frente.
"Repita."
"Theo Montenegro está sob custódia."
Bruno ficou vermelho.
"Ele tem menos de dois anos."
"Eu sei a idade dele."
"Então a senhora sabe que acabou de dizer uma coisa absurda."
Camila manteve a voz baixa.
"Eu estou cumprindo uma ordem dentro de uma investigação federal. Ninguém está colocando algemas em uma criança."
Theo apontou para o sorvete.
"Sorvete."
Isabela sentiu o peito apertar.
Camila olhou para ele por um segundo.
A dureza de sua expressão vacilou.
Mas voltou imediatamente.
"Precisamos preservar esta embarcação, recolher documentos e impedir que o beneficiário legal seja removido antes da verificação."
Bruno quase avançou.
"Beneficiário de quê?"
Antes que Camila respondesse, passos rápidos soaram na entrada do salão.
Dante Vasconcelos Montenegro surgiu acompanhado por dois seguranças.
Ele havia chegado de lancha após receber o aviso.
Alto, de terno escuro sem gravata, Dante entrou com o rosto fechado.
"Quem deu ordem para parar meu iate?"
Ninguém respondeu de imediato.
Bruno se aproximou.
"Delegada Camila Nogueira."
Dante reconheceu o nome.
Isso o deixou ainda mais sério.
Camila virou-se para ele.
"Senhor Montenegro."
"Delegada."
"O senhor chegou rápido."
"Disseram que agentes armados entraram na minha embarcação."
Dante olhou para Theo.
O filho estava sentado diante de um sorvete intocado.
Depois olhou para Isabela, que permanecia ao lado do menino.
"Ele está bem?"
Isabela assentiu.
"Está assustado, mas está bem."
Theo levantou os braços.
"Papai."
A expressão de Dante mudou imediatamente.
Ele foi até a poltrona e pegou o filho no colo.
Theo agarrou a lapela de seu paletó.
Dante olhou para Camila.
"Agora alguém vai me explicar o que está acontecendo."
Camila fechou a pasta.
"Seu filho está relacionado a uma investigação financeira."
Dante ficou imóvel.
"Meu filho?"
"Sim."
"Ele ainda usa fralda."
"Também sei disso."
Dante deu uma risada sem humor.
"Então talvez a senhora queira reformular."
Camila retirou algumas folhas.
"Nos últimos onze meses, aproximadamente trinta milhões de reais circularam por uma empresa chamada Atlântico Azul Participações."
Dante não reagiu.
"Não conheço."
"Ela é proprietária legal de duas embarcações."
"Quais?"
Camila apontou para o chão.
"Esta é uma delas."
Bruno olhou para Dante.
Dante apertou Theo contra o peito.
"O iate pertence a uma holding do Grupo Montenegro."
"Pertencia."
Camila mostrou um documento.
"Foi transferido há sete meses."
"Para quem?"
"Atlântico Azul Participações."
Dante pegou o papel.
Seus olhos correram pelas linhas.
"Quem é o sócio?"
Camila não desviou o olhar.
"Não há sócio convencional."
"Então quem controla a empresa?"
"O beneficiário final registrado."
Dante sentiu algo mudar em seu rosto.
"Quem?"
Camila olhou para Theo.
"Theo Montenegro."
O silêncio voltou.
Dante olhou para o filho.
Theo brincava com o botão de sua camisa.
"Isso é impossível."
"Legalmente, não."
"Meu filho não abre empresa."
"Concordo."
"Meu filho não compra iate."
"Concordo."
Dante levantou a voz.
"Meu filho nem sabe escrever o próprio nome."
Theo se assustou.
Isabela instintivamente estendeu a mão para ele.
Dante abaixou o tom imediatamente.
Camila cruzou os braços.
"Então alguém está usando o nome dele."
Dante respirou fundo.
"Quem?"
"É isso que estamos tentando descobrir."
"Então investigue adultos."
"Estamos investigando."
"Deixe meu filho fora disso."
"Não posso."
Dante estreitou os olhos.
"Por quê?"
Camila abriu outra divisória da pasta.
"Porque existem movimentações bancárias em nome dele."
"Fraudadas."
"Provavelmente."
"Provavelmente?"
"Existe mais."
Dante ficou em silêncio.
Camila colocou uma fotografia sobre a mesa.
Era a imagem de um contrato.
No topo estava o nome da Atlântico Azul Participações.
Abaixo, o nome de Theo Montenegro.
Dante nem tocou no documento.
"Isso não prova nada."
Camila retirou outra folha.
"Também encontramos autorizações para movimentação de recursos."
"Assinadas por quem?"
Camila hesitou.
"Chegaremos a isso."
Dante deu um passo à frente.
"Chegaremos agora."
Theo começou a se mexer em seus braços.
"Sorvete."
Ninguém respondeu.
Theo tentou apontar para a taça.
"Sorvete."
Isabela pegou a colher.
Dante permitiu com um gesto.
Ela ofereceu uma pequena porção ao menino.
Theo abriu a boca.
Camila observou a cena.
Por um instante, aquilo parecia tão absurdo que até ela precisou desviar o olhar.
Um bebê com chantilly no canto dos lábios estava no centro de uma investigação de milhões.
Dante limpou a boca do filho com um guardanapo.
Depois voltou a encarar Camila.
"Quero o nome da pessoa que colocou Theo nisso."
"Eu também."
"Então por que falar em custódia?"
"Porque hoje pela manhã alguém tentou transferir outra embarcação para fora do país."
Dante parou.
"Usando o nome de Theo?"
"Sim."
Bruno praguejou baixo.
Camila continuou.
"E houve uma tentativa de movimentar oito milhões de reais."
Dante ficou pálido de raiva.
"De qual conta?"
"Uma conta vinculada ao mesmo grupo."
"Quem autorizou?"
Camila abriu a pasta pela última vez.
"É justamente aí que a situação fica pior."
Ela retirou um envelope plástico transparente.
Dentro havia uma folha branca.
Dante se aproximou.
Isabela também olhou.
No centro do documento havia uma marca escura.
Pequena.
Oval.
Um dedo.
Dante ergueu os olhos.
"O que é isso?"
Camila colocou o envelope sobre a mesa.
"Uma autorização biométrica."
Dante não entendeu.
"De quem?"
Camila olhou para Theo.
Theo segurava a colher de sorvete com a mão direita.
Camila apontou para seu pequeno polegar.
"Dele."
Dante ficou sem respirar.
Camila falou mais baixo.
"Esse documento contém a impressão digital de Theo Montenegro."
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