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"Ele Entregou Meu Futuro a Outra — Mas Eu Voltei Antes" Parte 3 — A Dívida Que Ele Pagou Com a Minha Vida

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Parte 3 — A Dívida Que Ele Pagou Com a Minha Vida

Elisa olhou para a mão estendida.

Na primeira vida, colocara ali tudo o que tinha: salário, confiança, juventude e futuro. Marcos fechara os dedos sobre cada coisa como se fosse naturalmente dele.

Desta vez, ela entregou apenas a armadilha.

"Está bem."

O alívio atravessou o rosto dele antes que pudesse escondê-lo.

"Eu sabia que você voltaria a pensar com calma."

Marcos pegou a pasta e examinou o lacre. Elisa virou ligeiramente o corpo. Pela janela do escritório, Celina observava os dois.

"Anote que recebeu de mim às nove e dez", Elisa disse. "Não quero que se perca."

"Não vai se perder."

"E não entregue a ninguém."

Ele sustentou o olhar dela.

"Você ainda não confia em mim?"

"Estou tentando descobrir se algum dia deveria ter confiado."

Elisa foi embora sem olhar para trás.

Marcos esperou até ela dobrar a esquina. Então escondeu a pasta sob a camisa, montou na bicicleta e tomou a estrada que levava à casa dos Nogueira.

Celina registrou o horário.

Na manhã seguinte, pouco depois das dez, um rapaz do posto regional de matrículas chegou à cooperativa procurando a contadora. Trazia uma ficha com anotações vermelhas e perguntou se conheciam Clara Nogueira.

Celina mandou chamá-la imediatamente.

"Ela tentou se matricular com o seu número", contou quando Elisa entrou no escritório. "Apresentou uma certidão emitida em outra cidade e disse que Elisa Ribeiro era o nome usado nos documentos do concurso."

"E acreditaram?"

"O número da pasta não existe. A ordem das obras não confere, a assinatura é diferente e a fotografia é sua. Retiveram cópias do que ela levou e abriram uma ocorrência administrativa."

A armadilha cumprira exatamente sua função. Clara não ganhara uma vaga. Ganhara um registro oficial de que tentara tomá-la.

Elisa se levantou.

"Venha comigo."

Celina arregalou os olhos.

"Para onde?"

"Quero que escute o que eles dirão antes de inventarem uma versão melhor."

A porta da casa dos Azevedo estava aberta. Antes mesmo de chegar ao alpendre, Elisa ouviu a voz de Clara.

"Você disse que estava tudo resolvido!"

"Fale mais baixo", Marcos respondeu.

"Eles ficaram com cópias da certidão. Disseram que podem chamar a polícia. Você jurou que bastava levar a pasta!"

Elisa fez um sinal para Celina permanecer ao seu lado, fora do campo de visão da janela.

"Eu não sabia que Elisa tinha mexido nos papéis", Marcos disse. "Ela nunca desconfiou de mim antes."

"E agora? O que você vai fazer?"

"Vou conversar com ela. Elisa não precisa estudar para ter uma vida boa. Quando nos casarmos, eu vou sustentá-la."

"E eu?"

"Você salvou minha vida. Eu prometi que encontraria uma maneira."

O som de metal caindo veio do quarto dos fundos.

Clara se virou imediatamente.

"Mãe?"

Ela correu pelo corredor.

Elisa entrou na sala.

Marcos empalideceu ao vê-la. Depois percebeu Celina na porta e perdeu o resto da cor.

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"Elisa, eu posso explicar."

"A mulher naquele quarto é Nádia Nogueira."

Não era uma pergunta.

Ele passou a mão pelo rosto.

"Dona Nádia precisava de cuidados. Clara não conseguiria trabalhar e cuidar dela ao mesmo tempo. Eu só pedi sua ajuda porque sabia que você tem um coração bom."

"Você disse que era sua mãe."

"Se eu contasse tudo, você talvez não viesse."

"Então mentiu porque a verdade não lhe daria o que queria."

Clara voltou à sala. A doçura que usava diante dos vizinhos desaparecera. Ela trazia a pasta azul amassada numa das mãos.

"Foi você que adulterou isso."

Elisa não respondeu a ela. Manteve os olhos em Marcos.

"Quero ouvir de você. Entregou meus documentos a Clara?"

"Não faça uma cena na frente de Celina."

"Sim ou não?"

Marcos olhou para a contadora, depois para Clara. O silêncio já era uma confissão, mas Elisa esperou.

"Entreguei", ele admitiu. "Mas não para prejudicar você."

Celina inspirou fundo atrás dela.

"Como roubar meu nome não me prejudicaria?"

"Clara me tirou de um reservatório quando éramos crianças. Eu estava me afogando. Ela arriscou a própria vida e perdeu parte da audição depois da infecção que teve."

"Isso lhe dá direito à sua vida", Elisa disse. "Não à minha."

"Eu pretendia compensar você."

"Com o quê?"

"Com casamento. Com uma casa. Você poderia pintar quando quisesse. Eu cuidaria de todas as despesas."

Marcos se aproximou, como se oferecesse um futuro generoso em vez de uma cela sem grades.

"Uma faculdade não é a única maneira de ser feliz. Clara não tem ninguém. Você tem a mim."

Elisa sentiu algo morrer dentro dela pela segunda vez, mas dessa vez não foi amor. Foi a última dúvida de que talvez ele tivesse sido apenas manipulado.

Não fora.

Marcos fizera as contas. Pesara duas mulheres e decidira que o sonho de Elisa custava menos do que a dívida dele.

"Quando pretendia me contar?" ela perguntou. "Depois que Clara estivesse matriculada? Depois do casamento?"

Marcos apertou os lábios.

"Quando você estivesse mais calma e entendesse que nada mudaria entre nós."

"Tudo já tinha mudado. Você só esperava que eu descobrisse tarde demais."

Celina tirou do bolso o pequeno caderno onde registrava entregas e horários.

"Vou anotar exatamente o que ouvi aqui", disse. "Inclusive que você admitiu ter repassado a pasta."

Marcos deu um passo na direção dela.

"Isso é um assunto de família."

"Não quando envolve documentos da cooperativa e uma tentativa de matrícula com nome falso."

Pela primeira vez, ele pareceu compreender que não poderia apagar aquela manhã convencendo Elisa a perdoá-lo em particular.

Sobre a mesa havia dois envelopes grandes. O azul, já aberto, trazia seu nome. O pardo tinha o selo do Instituto Mineiro de Engenharia e fora endereçado a Marcos.

Enquanto Clara gritava que Elisa precisava retirar a denúncia, Dona Nádia tornou a bater a caneca no quarto. Marcos foi ajudá-la. Clara correu atrás dele, exigindo que a mãe confirmasse quem tivera a ideia dos documentos.

Por alguns segundos, a sala ficou vazia.

Elisa agiu.

Retirou o conteúdo inválido da capa azul. Abriu o envelope pardo pela dobra já solta e trocou os dois conjuntos. Os papéis verdadeiros da engenharia ficaram sob a capa marcada com seu nome. O material falso foi para o envelope de Marcos.

Quando os passos voltaram, ela já estava diante da mesa, com as mãos vazias.

"Você queria me compensar?" perguntou.

Marcos assentiu, desesperado para transformar sua traição em sacrifício.

"Eu vou trabalhar a vida inteira se for preciso."

Elisa olhou para ele e depois para Clara.

"A dívida é sua, Marcos. Só pode pagá-la com aquilo que pertence a você."

Clara soltou uma risada amarga.

"Bonito. Mas você também não vai estudar."

Antes que alguém a impedisse, ela agarrou a pasta azul com o nome de Elisa e correu para a cozinha.

Abriu a porta do fogão a lenha.

As chamas se ergueram quando Clara lançou os documentos de Marcos no fogo.

 

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