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"Ele Entregou Meu Futuro a Outra — Mas Eu Voltei Antes" Parte 1 — O Dia em Que Voltei

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Parte 1 — O Dia em Que Voltei

A água barrenta entrou pela boca de Elisa Ribeiro antes que ela conseguisse gritar.

Na margem, Clara apertava contra o peito a pasta azul do Instituto Estadual de Artes de Minas. Ao lado dela, Marcos segurava Elisa pelo pulso, mas não para salvá-la.

Para impedi-la de alcançar os documentos.

"Você cuidou da minha mãe por três meses", Clara disse, sorrindo. "Agora eu vou estudar em Belo Horizonte com o seu nome. Você pode ficar aqui e continuar sendo a mulher obediente que Marcos precisa."

Elisa olhou para o homem com quem deveria se casar.

"Você sabia?"

Marcos desviou os olhos.

"Clara salvou minha vida. Eu devia isso a ela. E você não precisa de faculdade, Elisa. Eu posso sustentar você."

Ela tentou se soltar. Houve um empurrão, um grito e o vazio sob os pés.

O rio, engrossado por três dias de chuva, fechou-se sobre sua cabeça.

O último som que Elisa ouviu foi Marcos chamando seu nome tarde demais.

Ela abriu os olhos com um golpe de ar.

Não havia rio.

Havia um teto de madeira escurecida, uma cortina fina tremendo diante da janela e o canto áspero das cigarras no quintal. A camisola estava seca. Seus pés não tocavam lama, mas o assoalho frio da casa onde crescera.

Elisa levou as duas mãos ao pescoço. Respirou uma vez, depois outra. Nenhuma água. Nenhuma ferida.

Na parede, o calendário da cooperativa mostrava uma data marcada a lápis vermelho.

9 de julho de 1985.

Ela arrancou a folha, aproximou-a do rosto e leu novamente.

Era o dia seguinte ao resultado do concurso estadual de bolsas.

Era também o dia em que Marcos apareceria dizendo que a mãe dele sofrera um derrame.

Três batidas soaram na porta.

Pausadas. Cuidadosas. Exatamente como antes.

"Elisa? Você está acordada?"

O sangue desapareceu das mãos dela.

Na primeira vida, abrira a porta descalça. Marcos tinha os olhos vermelhos e a voz quebrada. Dissera que Dona Teresa estava paralítica, que não havia dinheiro para uma enfermeira, que ele só tinha Elisa.

Ela fora com ele sem fazer perguntas.

Durante três meses, lavara um corpo que não conhecia, trocara lençóis, cozinhara, perdera trabalho e deixara de responder às cartas do instituto. Quando desmaiou de fome ao lado da cama, Marcos pediu que ela fosse mais compreensiva. A mãe dele estava sofrendo.

Mas aquela mulher nunca fora Dona Teresa.

Era Nádia Nogueira, mãe de Clara, recém-chegada de uma fazenda distante. Marcos sabia desde o início.

"Elisa? Por favor. Aconteceu uma desgraça."

Ela dobrou o calendário e o colocou no bolso da camisola. Abriu a porta.

Marcos Azevedo estava no degrau com a camisa amarrotada e o cabelo úmido de suor. Aos vinte e um anos, ainda tinha o rosto do rapaz que lhe prometera uma casa com janelas azuis. Trazia no dedo o anel simples que os dois haviam comprado na feira.

正文1

Por um instante, o coração de Elisa tentou reconhecer o homem que amara.

Então ela se lembrou da mão dele fechada sobre seu pulso à beira do rio.

"Minha mãe teve um derrame", ele disse. "O lado esquerdo ficou paralisado. O médico acha que ela talvez nunca volte a andar."

Elisa permaneceu imóvel.

"Sua mãe?"

"Sim. Ela chegou ontem à noite. Foi tudo muito rápido."

"Dona Teresa voltou de Goiás sem avisar ninguém?"

Marcos piscou.

Na primeira vida, Elisa não fizera essa pergunta.

"Ela... não quis preocupar o povo da cidade."

"Qual médico a examinou?"

"O doutor Paulo. Quer dizer, um colega dele. Eu nem guardei o nome. Elisa, isso importa agora?"

"Importa se você quer que eu cuide de uma mulher doente."

A aflição no rosto dele endureceu por um segundo. Depois Marcos recuperou a voz mansa.

"É só por algumas semanas. Estou procurando alguém, mas até lá preciso de você. Somos noivos. Em poucos meses, seremos uma família."

"Posso visitar Dona Teresa?"

"Hoje não. Ela está muito fraca."

"Então peça ao médico para vir falar comigo."

Marcos olhou para o interior da casa, como se procurasse uma versão mais dócil de Elisa escondida atrás dela.

"O que aconteceu com você? Ontem estava feliz. Ganhou a bolsa que sempre quis."

"Justamente por isso não posso abandonar tudo."

"Você ainda nem recebeu a documentação."

A frase saiu rápida demais.

Elisa ergueu os olhos.

"Como sabe que não recebi?"

Marcos abriu a boca e demorou um instante para responder.

"Santa Aurora é pequena. O correio da cooperativa não guarda segredo."

Ali estava o medo escondido sob a gentileza. Não era a doença de uma mãe que o levara até ela tão cedo. Era a pasta azul que ainda não chegara às mãos da dona.

Ele estendeu o braço.

"Venha comigo. Depois resolvemos a faculdade. Se os papéis chegarem, eu mesmo guardo para você."

Elisa recuou antes que os dedos dele tocassem seu pulso.

"Não vou."

"Como assim?"

"Se Dona Teresa está doente, você deve cuidar dela ou contratar alguém. Eu não sou enfermeira e ainda não sou sua esposa."

"As pessoas vão falar se você me abandonar numa hora dessas."

"Que falem."

Marcos franziu a testa. A máscara de desespero começou a rachar.

"Clara colocou alguma coisa na sua cabeça?"

O nome surgiu antes de Elisa mencioná-lo.

Ela quase sorriu.

"Por que Clara saberia de uma doença da sua mãe?"

"Eu só estou tentando entender essa mudança."

"Então entenda isto." Elisa tirou o anel do dedo e o colocou na palma dele. "Nosso noivado terminou."

Marcos ficou pálido.

"Não diga uma coisa dessas por raiva."

"Não é raiva. É a primeira decisão lúcida que tomo sobre você."

Ele fechou os dedos sobre o anel.

"Você vai jogar fora quatro anos por causa de uma manhã ruim?"

"Não. Estou evitando jogar fora o resto da minha vida."

Elisa fechou a porta.

Marcos chamou seu nome, primeiro baixo, depois com força. Disse que voltaria quando ela estivesse calma. Disse que a faculdade a estava tornando orgulhosa antes mesmo da primeira aula.

Ela esperou até os passos desaparecerem.

Então puxou uma caixa de madeira debaixo da cama.

Dentro estavam o comprovante de inscrição no concurso, cópias das certidões, três fotografias e as cartas antigas de Helena, sua prima em Belo Horizonte. Elisa separou tudo sobre a mesa.

Escreveu numa folha:

Proteger os originais.

Guardar cada prova.

Sair de Santa Aurora.

Não contou a ninguém que voltara da morte. Marcos e Clara ainda acreditavam conhecer cada fraqueza dela. Essa seria sua maior vantagem.

Elisa vestiu a saia mais resistente, prendeu o cabelo e foi até o posto de correspondência da Cooperativa Agrícola Santa Aurora.

Seu pacote deveria ter chegado naquela manhã.

Celina Duarte, a contadora que também registrava as entregas, procurou o nome no livro grosso sobre o balcão. A expressão dela mudou.

"Tem alguma coisa errada", disse.

"O quê?"

Celina virou o livro na direção de Elisa.

Ao lado de seu nome havia o número do pacote do instituto, a hora da retirada e uma assinatura inclinada.

"Seus documentos chegaram às oito e vinte", Celina falou. "E alguém já assinou por eles."

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