"Todos Pensavam Que Eu Era Apenas a Empregada — Até o Dono da Mansão Me Chamar de “Filha”" Capítulo 3
Parte 3 — Ela É Minha Filha
Na manhã seguinte, Augusto Valença não esperou o café.
Também não esperou a prudência.
Às sete e quinze, já estava no escritório, com as cortinas ainda fechadas e o telefone preso entre os dedos.
"Quero o laboratório mais discreto de São Paulo."
Do outro lado da linha, Dr. Tomás Siqueira fez uma pausa.
"Augusto, preciso entender exatamente o que você está pedindo."
"Um exame de DNA."
Silêncio.
Tomás conhecia Augusto havia vinte e oito anos.
Conhecia seus negócios, seus contratos, seu testamento e até os detalhes que a própria família desconhecia.
Mas aquela voz não era a voz de um empresário.
Era a voz de um homem com medo.
"Entre quem?"
Augusto fechou os olhos.
"Entre mim e Lavínia Alencar."
Dessa vez, o silêncio foi maior.
"Você está dizendo que acredita..."
"Eu não estou dizendo nada."
Augusto se levantou.
"Estou mandando confirmar."
Tomás respirou fundo.
"E ela sabe?"
"Não."
"Então precisamos fazer isso corretamente."
"Faça."
"Augusto."
"O quê?"
"Se o resultado for o que você está pensando, sua vida inteira muda."
Augusto olhou para o retrato de Isadora sobre uma estante.
"Minha vida inteira mudou há trinta e seis anos."
Tomás não respondeu.
Naquela mesma manhã, Dona Célia pediu a Lavínia que entregasse uma pasta no escritório.
Augusto estava sozinho.
Quando ela entrou, ele levantou os olhos.
"Pode deixar aí."
Lavínia colocou a pasta sobre a mesa.
Mas, antes de sair, percebeu um pequeno envelope branco ao lado da mão dele.
Havia dois cotonetes esterilizados e um saco lacrado.
Ela franziu a testa.
Augusto cobriu o material com um documento.
"Mais alguma coisa?"
Lavínia o observou por um instante.
"Não."
Ela saiu.
Cinco minutos depois, Augusto chamou Célia.
"Preciso de uma coisa."
A governanta fechou a porta.
"O quê?"
"Um copo usado por Lavínia."
Célia ficou imóvel.
"Senhor Augusto..."
"Não me peça para esperar."
"Eu não ia pedir."
"Então?"
Ela baixou a voz.
"Eu só queria saber se o senhor está preparado."
Augusto riu sem humor.
"Não."
Foi a resposta mais honesta que ele dera em anos.
No fim da manhã, Tomás apareceu pessoalmente.
Terno escuro, postura impecável, óculos de armação prateada.
Ele carregava uma pasta fina.
"Enviei para um laboratório particular."
Augusto se levantou.
"Quanto tempo?"
"Disseram algumas horas."
"Algumas horas?"
"É o máximo que consegui."
Augusto passou a mão pelo rosto.
"Eu não tenho algumas horas."
"Vai precisar ter."
Tomás olhou para ele.
"E não faça nada antes do resultado."
Augusto soltou uma risada amarga.
"Você acha que eu consigo agir normalmente?"
"Acho que você precisa."
Naquela tarde, a mansão Valença recebeu mais de oitenta convidados para um almoço beneficente.
Era um evento tradicional da família, voltado para uma fundação infantil.
Empresários, políticos, médicos, jornalistas e socialites ocupavam o salão principal.
Lavínia trabalhava com a equipe.
Camisa branca.
Saia preta.
Cabelo preso.
Ela tentava manter os olhos longe de Augusto.
Desde a conversa do dia anterior, algo nele a deixava inquieta.
E a forma como Beatriz a evitava era ainda pior.
"Taça de espumante."
A voz veio ao lado.
Lavínia reconheceu antes de olhar.
Camila.
Ela estava usando um vestido azul-claro estruturado, joias discretas e um sorriso perfeito para os convidados.
"Claro."
Lavínia pegou uma taça da bandeja.
Camila não recebeu.
"Mais fria."
Lavínia a encarou.
"Esta acabou de sair do balde de gelo."
"Eu disse que quero outra."
Lavínia respirou fundo.
Pegou outra.
Camila examinou a taça.
"Essa serve."
Lavínia começou a se afastar.
"Espere."
Ela parou.
Camila se aproximou e falou baixo.
"Você está gostando disso, não está?"
"Disso o quê?"
"Do meu pai defendendo você."
Lavínia manteve a expressão neutra.
"Eu não pedi que ele fizesse isso."
"Mas gostou."
"Gostei de ser tratada como gente."
Camila apertou os lábios.
"Não confunda educação com importância."
Lavínia olhou diretamente para ela.
"Eu não costumo confundir as duas coisas."
Camila sorriu.
"Você deveria tomar cuidado."
"Com o quê?"
"Com a ideia de que pertence a lugares onde só está trabalhando."
Lavínia ficou imóvel.
Bruno apareceu perto delas.
Ele segurava uma taça de vinho branco.
"Algum problema?"
Camila respondeu antes.
"Nenhum."
Ela lançou um olhar para Lavínia.
"Eu só estava explicando algumas coisas."
Bruno olhou para a ex-mulher.
Por um segundo, Lavínia viu a mesma expressão da noite do divórcio.
Superioridade.
Piedade falsa.
"Talvez seja melhor você não discutir aqui", disse ele.
Lavínia ergueu uma sobrancelha.
"Eu não estava discutindo."
"Você sabe como essas coisas parecem."
Ela quase riu.
"Você sempre se preocupou muito com aparência."
Bruno endureceu o rosto.
Camila percebeu.
"Vocês ainda conversam assim?"
Lavínia respondeu.
"Não. Isso foi mais do que ele ouviu de mim nos últimos meses."
Bruno deu um gole.
"Você continua complicada."
"Engraçado."
Lavínia ajeitou a bandeja.
"Você dizia que eu era complicada quando eu começava a perceber suas mentiras."
O sorriso de Camila desapareceu.
Bruno olhou ao redor.
"Baixe a voz."
"Eu estou falando baixo."
"Então pare."
"Por quê?"
Lavínia sustentou o olhar dele.
"Tem medo de alguém descobrir quem você é?"
Antes que Bruno respondesse, Camila levantou a mão.
"Chega."
Ela chamou dois funcionários da segurança.
"Levem ela para fora do salão."
Lavínia ficou paralisada por um segundo.
"Como?"
Camila cruzou os braços.
"Você está criando uma cena no meu evento."
"O evento é da fundação."
"Na minha casa."
"Eu trabalho aqui."
"Hoje não mais."
Lavínia olhou ao redor.
Alguns convidados já observavam.
Bruno não disse nada.
Aquilo doeu mais do que deveria.
Outra vez.
Sempre outra vez.
Um homem que um dia dividira a cama com ela agora assistia, em silêncio, enquanto alguém tentava expulsá-la como se fosse lixo.
Um dos seguranças se aproximou.
"Senhora..."
Lavínia recuou um passo.
"Não precisa tocar em mim."
Camila inclinou a cabeça.
"Finalmente entendeu."
A voz de Augusto cortou o salão.
"O que está acontecendo?"
Todos se viraram.
Ele vinha do corredor principal.
Beatriz estava logo atrás.
Camila sorriu imediatamente.
"Nada, pai."
Augusto olhou para os seguranças.
Depois para Lavínia.
"Por que eles estão aqui?"
"Ela foi desrespeitosa comigo."
Lavínia abriu a boca.
Camila continuou.
"De novo."
Augusto fixou os olhos na filha que criara.
"Você mandou expulsá-la?"
"Ela é funcionária."
"Eu perguntei se você mandou expulsá-la."
Camila respirou fundo.
"Sim."
Augusto parecia prestes a dizer alguma coisa quando a porta principal se abriu.
Tomás entrou.
Rápido demais para um homem que nunca corria.
"Augusto."
O tom chamou atenção.
Ele segurava um envelope pardo lacrado.
Augusto congelou.
Tomás atravessou o salão.
"Precisamos conversar."
Augusto não se mexeu.
"Chegou?"
Tomás olhou para os convidados.
"Sim."
Beatriz empalideceu.
Foi quase imperceptível.
Mas Lavínia viu.
Augusto pegou o envelope.
As mãos dele tremiam.
Camila franziu a testa.
"O que é isso?"
Ninguém respondeu.
Augusto rasgou o lacre.
Leu a primeira linha.
Depois a segunda.
Seu rosto perdeu a cor.
Tomás baixou os olhos.
Augusto continuou lendo.
Lavínia sentiu alguma coisa apertar seu peito.
"Senhor Augusto?"
Ele não respondeu.
Os dedos apertaram a folha.
Camila deu um passo.
"Pai?"
Augusto levantou os olhos.
E olhou diretamente para Lavínia.
Por um momento, o salão desapareceu.
Os convidados.
A música.
Os garçons.
Tudo.
Só existiam aqueles olhos.
Os mesmos olhos que o perseguiam havia trinta e seis anos.
Augusto começou a andar.
Uma pessoa abriu caminho.
Depois outra.
A conversa morreu aos poucos.
Ele parou diante de Lavínia.
Ela ainda segurava a bandeja.
"Augusto?", chamou Beatriz.
Ele ignorou.
Lavínia tentou falar.
"O que aconteceu?"
Augusto olhou para o uniforme dela.
Depois para o rosto.
A voz falhou na primeira tentativa.
"Eu..."
Ele respirou fundo.
Lavínia sentiu o coração disparar.
Augusto ergueu o documento.
"Este exame confirma compatibilidade de paternidade."
O salão inteiro ficou em silêncio.
Lavínia não entendeu.
"Que exame?"
Augusto engoliu em seco.
"O meu."
Ele olhou para ela.
"E o seu."
A bandeja escorregou das mãos de Lavínia.
Uma taça caiu.
O som do vidro quebrando ecoou pelo salão.
Ela não ouviu.
"Não."
A palavra saiu quase sem voz.
Augusto se aproximou mais.
Seus olhos estavam molhados.
"Eu passei trinta e seis anos acreditando que tinha perdido minha filha."
Lavínia recuou.
"Não."
"Eu procurei por anos."
"Pare."
"Lavínia..."
"Pare."
A voz dela saiu mais forte.
Bruno continuava com a taça suspensa no ar.
Imóvel.
Valentim, perto de uma das colunas, não tirava os olhos dela.
Camila parecia ter esquecido como respirar.
Augusto virou-se para os convidados.
E então disse, com a voz firme o bastante para atravessar o salão inteiro:
"Ela é minha filha."
Ninguém se moveu.
Uma mulher levou a mão à boca.
Um homem cochichou alguma coisa.
Bruno finalmente baixou a taça.
Camila deu um passo para trás.
"Não."
Augusto olhou para ela.
"Camila..."
"Não."
Ela riu.
Um som nervoso.
"Isso é absurdo."
Tomás falou.
"O resultado foi confirmado por laboratório independente."
"Eu não perguntei para você."
Camila apontou para Lavínia.
"Ela está mentindo."
Lavínia virou o rosto.
"Eu nem sabia que estavam fazendo exame."
"Claro."
Camila respirava rápido.
"Claro que vai dizer isso."
Augusto endureceu a voz.
"Chega."
"Pai..."
"Chega."
Camila ficou em silêncio.
Lavínia olhou para Augusto.
Depois para Tomás.
Depois para Beatriz.
A cabeça dela girava.
Teresa.
O pingente.
A letra V.
Os olhos de Augusto.
A frase antes da morte.
Algumas verdades encontram a gente sozinhas.
Lavínia fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, olhou para Augusto.
"Se eu sou sua filha..."
A voz dela saiu baixa.
Mas todos ouviram.
Ela virou lentamente a cabeça para Camila.
"Então quem é ela?"
O salão inteiro acompanhou seu olhar.
Camila ficou branca.
Beatriz, porém, não gritou.
Não negou.
Não perguntou nada.
Apenas levou a taça de champanhe à mesa.
E a colocou devagar.
Com cuidado demais.
Como alguém que já sabia que aquele momento chegaria.
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