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"Todos Pensavam Que Eu Era Apenas a Empregada — Até o Dono da Mansão Me Chamar de “Filha”" Capítulo 2

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Parte 2 — Os Olhos de Uma Morta

Durante trinta e seis anos, Augusto Valença aprendera a conviver com a ausência.

Não com a dor.

A dor nunca desaparecera.

Ela apenas aprendera a se esconder atrás de reuniões, contratos, viagens e de uma fortuna grande o bastante para fazer quase todos acreditarem que Augusto Valença podia comprar qualquer coisa.

Mas naquela noite, parado no alto da escadaria de sua própria mansão, ele descobriu que havia uma coisa que nunca conseguira comprar.

Certeza.

"Como ela se chama?"

Dona Célia demorou um segundo antes de responder.

"Lavínia."

Augusto não desviou os olhos da mulher que recolhia os últimos copos da recepção.

"Lavínia o quê?"

"Lavínia Alencar."

O sobrenome não significava nada para ele.

Os olhos, porém, significavam tudo.

Augusto apertou o corrimão.

Por um instante, não enxergou a funcionária de camisa branca e saia preta.

Enxergou Isadora.

Trinta e seis anos antes.

Rindo perto da janela da antiga casa de campo, com os mesmos olhos cor de âmbar iluminados pelo sol.

"Senhor Augusto?"

A voz de Célia o trouxe de volta.

Ele soltou o corrimão.

"Há quanto tempo ela trabalha aqui?"

"Pouco mais de dois meses."

"Quem a contratou?"

"Eu."

Augusto finalmente olhou para Célia.

"E você nunca percebeu?"

A governanta ficou imóvel.

"Percebi o quê?"

Augusto sustentou o olhar dela por alguns segundos.

Nada respondeu.

Na manhã seguinte, Lavínia sentiu que alguma coisa havia mudado.

Augusto estava na sala de café quando ela entrou para organizar a mesa.

Ele normalmente tomava café sozinho, lendo relatórios no tablet.

Naquela manhã, não estava lendo nada.

Estava olhando para ela.

Lavínia colocou uma xícara diante dele.

"Café, senhor Augusto?"

"Sim."

Ela serviu.

Quando terminou, pegou o guardanapo de linho ao lado do prato. Sem perceber, dobrou uma das pontas para dentro e passou o polegar sobre a dobra antes de colocá-lo novamente sobre a mesa.

A xícara de Augusto parou no ar.

Lavínia percebeu.

"Está tudo bem?"

Augusto olhava para o guardanapo.

Isadora fazia aquilo.

Sempre.

Era um hábito tão pequeno que ninguém teria guardado na memória.

Mas ele guardara.

"Quem ensinou você a fazer isso?"

Lavínia franziu a testa.

"Fazer o quê?"

"Isso com o guardanapo."

Ela olhou para a própria mão.

"Não sei. Acho que ninguém."

Augusto sentiu o coração bater mais forte.

"Você conhece a família Valença de algum lugar?"

"Não."

"Tem certeza?"

Lavínia ergueu os olhos.

"Por que está me perguntando isso?"

Augusto percebeu a desconfiança.

"Curiosidade."

"Homens como o senhor raramente fazem perguntas por curiosidade."

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.

Então Augusto sorriu.

Foi um sorriso pequeno.

"Você é bastante direta."

"Aprendi que perguntas estranhas merecem respostas honestas."

Antes que Augusto pudesse dizer qualquer coisa, passos ecoaram pelo corredor.

Beatriz apareceu à porta.

Ela usava uma blusa de seda preta e calça clara. O cabelo castanho estava impecável, como sempre.

"Augusto?"

Seu olhar passou do marido para Lavínia.

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Depois para o guardanapo.

"Estou interrompendo alguma coisa?"

"Não."

Augusto tomou um gole de café.

Beatriz sorriu para Lavínia.

"Espero que meu marido não esteja assustando você com esse interrogatório."

Lavínia respondeu educadamente.

"Eu sobrevivo."

O sorriso de Beatriz permaneceu.

Mas seus olhos ficaram mais atentos.

Mais tarde, Lavínia atravessava o salão principal carregando uma caixa com arranjos quando ouviu Camila.

"Ei."

Lavínia continuou andando.

"Você. Estou falando com você."

Ela parou.

Camila estava diante do espelho, segurando dois vestidos protegidos por capas.

"Leve isso para o meu quarto."

Lavínia olhou para as roupas.

"Posso levar quando terminar o que Dona Célia me pediu."

Camila soltou uma risada curta.

"Eu não perguntei quando você pode."

Lavínia respirou fundo.

"Então vai precisar esperar."

Camila avançou um passo.

"Você ficou muito corajosa depois de ontem."

"Não. Só continuo tendo o mesmo nome de ontem."

Camila abriu a boca.

"Ela tem nome."

A voz masculina veio de trás.

As duas se viraram.

Augusto estava no corredor.

Camila piscou.

"Pai?"

Augusto se aproximou.

"Ela se chama Lavínia."

O rosto de Camila endureceu.

"Eu sei como ela se chama."

"Então use o nome dela."

"Ela trabalha para nós."

"Isso não transforma ninguém em objeto."

O silêncio caiu pesado.

Camila olhou para Lavínia como se a culpa fosse dela.

Lavínia não sorriu.

Não precisava.

Augusto já havia dito o suficiente.

Camila jogou os vestidos sobre uma poltrona.

"Desde quando você se preocupa tanto com uma empregada?"

Augusto ficou imóvel.

"Desde quando eu preciso justificar educação dentro da minha própria casa?"

Camila empalideceu.

Pegou os vestidos e saiu sem responder.

Lavínia olhou para Augusto.

"Obrigada."

"Não precisa agradecer."

"Preciso, sim. Pessoas costumam ver o uniforme antes de ver quem está dentro dele."

A frase o atingiu.

Augusto baixou a voz.

"E quem está dentro dele?"

Lavínia ficou em silêncio.

Antes que pudesse responder, Valentim apareceu no corredor.

Ele havia voltado à mansão para uma reunião com Augusto.

Seus olhos verdes encontraram os dela.

"Espero que hoje ninguém tenha decidido atacar bandejas."

Lavínia quase sorriu.

"A manhã ainda não acabou."

"Então ainda há tempo."

Augusto observou os dois.

Valentim percebeu.

"Posso roubar sua funcionária por um minuto?"

Lavínia ergueu uma sobrancelha.

"Eu posso responder por mim."

Valentim inclinou levemente a cabeça.

"Tem razão."

Augusto viu alguma coisa naquela troca que lhe agradou.

Valentim não falava com Lavínia como quem falava com uma empregada.

Falava com ela como igual.

"Eu só queria saber se você ficou bem depois de ontem", disse Valentim.

"Fiquei."

"Bruno foi um idiota."

Lavínia soltou uma pequena risada sem humor.

"Isso não começou ontem."

Valentim percebeu a dor escondida na resposta.

Não insistiu.

"Então não vou perguntar."

Ela o encarou por um instante.

"Obrigada."

Dessa vez, a palavra significava outra coisa.

Ele respeitara a fronteira.

No começo da tarde, Beatriz encontrou Lavínia sozinha na sala de flores.

"Posso fazer uma pergunta?"

Lavínia levantou os olhos.

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"Hoje parece ser o dia das perguntas."

Beatriz sorriu.

"Augusto sempre foi curioso."

"Eu percebi."

"E eu também fiquei curiosa."

Lavínia colocou uma rosa no vaso.

"Sobre?"

"Sua família."

A mão dela parou.

"Minha família?"

"Augusto comentou que você é Alencar. Conheci alguns Alencar em Minas Gerais."

"Não acho que sejam meus parentes."

"Seus pais são de onde?"

Lavínia demorou a responder.

"Eu fui adotada."

O sorriso de Beatriz perdeu calor.

"Adotada?"

"Quando era bebê."

"Você sabe quem eram seus pais biológicos?"

"Não."

Beatriz se aproximou.

"E nunca procurou?"

"Minha mãe era Teresa Alencar."

"Quero dizer sua mãe biológica."

Lavínia levantou o rosto.

"Eu entendi."

A firmeza da resposta fez Beatriz recuar.

Lavínia respirou devagar.

"Teresa costurava para sustentar nós duas. Trabalhou até as mãos começarem a doer. Nunca me deixou faltar comida, escola ou carinho."

A voz dela enfraqueceu pela primeira vez.

"Ela morreu há três anos."

Beatriz permaneceu em silêncio.

"Antes de morrer", continuou Lavínia, "ela me disse uma coisa estranha."

"O quê?"

Lavínia olhou para a janela.

"Que algumas verdades encontram a gente sozinhas."

Um arrepio percorreu Beatriz.

"Ela explicou?"

"Não."

Lavínia tocou o pescoço.

Sob a gola branca havia uma corrente fina.

Beatriz viu o movimento.

"O que é isso?"

Lavínia puxou a corrente.

Um pequeno pingente antigo apareceu.

Era oval, de metal envelhecido, com detalhes quase apagados pelo tempo.

"Minha mãe disse que estava comigo quando fui adotada."

Beatriz perdeu a cor.

Lavínia percebeu.

"Está tudo bem?"

"Posso ver?"

A pergunta saiu rápido demais.

Lavínia hesitou.

Depois colocou o pingente sobre a palma.

Beatriz aproximou-se.

Virou a peça.

No verso havia uma gravação quase completamente desgastada.

Uma única letra ainda podia ser reconhecida.

V.

A respiração de Beatriz falhou.

Por menos de um segundo, toda a elegância desapareceu de seu rosto.

Lavínia viu medo.

Medo verdadeiro.

"Você conhece esse pingente?"

Beatriz soltou a peça imediatamente.

"Não."

"Tem certeza?"

"Claro."

Lavínia fechou os dedos sobre o metal.

"Seu rosto disse outra coisa."

Beatriz voltou a sorrir.

Dessa vez, o sorriso não chegou aos olhos.

"Você está imaginando coisas."

Ela saiu antes que Lavínia pudesse responder.

Do outro lado do salão, Augusto havia visto Beatriz deixar a sala.

E viu Lavínia segurando alguma coisa na mão.

Naquela noite, a mansão ficou em silêncio.

Pouco depois da meia-noite, Beatriz entrou no escritório particular e trancou a porta.

Ficou alguns segundos parada no escuro.

Suas mãos tremiam.

Ela abriu uma gaveta escondida atrás dos documentos e retirou um telefone antigo.

Digitou um número que não usava havia anos.

A ligação foi atendida no terceiro toque.

Beatriz fechou os olhos.

"Sou eu."

Silêncio.

"Não. Você precisa me ouvir."

Ela olhou para a porta trancada.

A imagem do pingente voltou à sua cabeça.

A letra V.

Os olhos de Lavínia.

E o modo como Augusto a observava.

Beatriz apertou o telefone com tanta força que os dedos ficaram brancos.

"Ela apareceu."

Do outro lado, alguém respondeu alguma coisa.

Beatriz respirou fundo.

Quando falou novamente, sua voz já não tinha nada de gentil.

"Precisamos resolver um problema de trinta e seis anos atrás."

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