"A Empregada no Sofá" Capítulo 6
Isabela demorou alguns segundos para entender.
O dinheiro.
As horas extras.
O salário que desaparecia.
Parte de tudo aquilo tinha sido usada para pagar os homens que tentaram matar Dante.
Ela olhou para o colar da mãe ainda apertado entre os dedos.
"Não."
Dante permaneceu parado perto da porta.
"Camila confirmou."
"Confirmou como?"
"As transferências passaram por três empresas."
"Empresas de quem?"
"De ninguém que exista de verdade."
Isabela franziu a testa.
Dante se aproximou.
"São empresas de fachada."
Ela ficou em silêncio.
"Alguém pegava o dinheiro das contas falsas, dividia os valores e transferia para essas empresas."
"E depois?"
"Depois o dinheiro sumia."
Isabela levantou os olhos.
"Até ontem."
Dante assentiu.
"Até ontem."
Ele explicou que Camila cruzara os pagamentos com movimentações feitas antes da emboscada.
Dois homens envolvidos no ataque haviam recebido dinheiro de uma dessas empresas.
Um deles estava morto.
O outro desaparecido.
Isabela sentiu o estômago revirar.
"Então eu trabalhei para pagar quem atirou no senhor."
Dante não respondeu imediatamente.
"Não foi você."
"Meu dinheiro foi."
"Você não sabia."
"Mas foi."
Ela se levantou da cama.
"Enquanto eu lavava chão, limpava banheiro, servia jantar..."
A voz ficou mais baixa.
"Alguém pegava esse dinheiro e usava para matar você."
Dante observou seu rosto.
"Isabela."
"Isso é doentio."
"Sim."
Ela andou até a janela.
O jardim da mansão estava escuro.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Então Isabela perguntou:
"Por que alguém faria isso?"
Dante respondeu sem hesitar.
"Porque não queria só dinheiro."
Ela virou.
"Então o que queria?"
"Meu lugar."
O silêncio voltou.
Isabela já tinha ouvido histórias sobre Dante Montenegro.
No mercado.
Na rua.
Entre funcionários.
Homens que desapareciam depois de traí-lo.
Empresários que mudavam de ideia quando ele entrava numa sala.
Policiais que fingiam não reconhecê-lo.
Durante meses, ela acreditara que ele era exatamente como diziam.
Talvez pior.
Mas o homem diante dela não parecia um monstro.
Parecia cansado.
Ferido.
E, pela primeira vez, cercado por inimigos que não conseguia identificar.
"Você acha que foi Ricardo?"
Dante não respondeu.
"Você acha."
"Eu acho que ele sabe mais do que diz."
"Isso significa sim."
"Significa que ainda não tenho prova suficiente."
Isabela soltou uma risada curta.
"Você precisa de prova?"
"Para matar alguém, não."
Ela ficou imóvel.
Dante continuou.
"Para entender quem está ao redor dele, sim."
Isabela engoliu em seco.
Era fácil esquecer quem ele era.
Até Dante dizer uma frase assim.
"Se Ricardo fez isso, ele não fez sozinho."
"Exatamente."
"Marcelo?"
"Talvez."
"O supervisor da noite?"
"Talvez."
"E meu irmão?"
Dante hesitou.
Isabela percebeu.
"Fala."
"Lucas fez parte da mentira."
"Eu sei."
"Mas ainda não sei até onde."
Ela fechou os olhos.
"Eu não aguento descobrir mais coisa sobre ele hoje."
Dante observou.
"Então não descubra hoje."
Isabela abriu os olhos.
A resposta a surpreendeu.
Ele não pressionou.
Não disse que ela precisava ser forte.
Apenas ficou ali.
"Você não vai perguntar se eu estou bem?"
"Não."
"Por quê?"
"Porque você não está."
Isabela quase sorriu.
Quase.
"Você sempre é assim?"
"Assim como?"
"Terrível para consolar alguém."
"Sim."
Ela olhou para ele.
"Percebi."
Dessa vez, Dante realmente sorriu.
Foi pequeno.
Rápido.
Mas Isabela viu.
E aquilo a incomodou mais do que deveria.
Porque por um segundo ele não pareceu o homem mais temido de São Paulo.
Pareceu apenas um homem cansado.
"Você devia dormir."
"Você também."
"Eu tenho trabalho."
"Você levou um tiro ontem."
"Continuo tendo trabalho."
Isabela balançou a cabeça.
"Você é impossível."
Dante abriu a porta.
"Já me disseram."
"Quem?"
Ele parou.
"Minha mãe."
Foi a primeira vez que Isabela ouviu qualquer coisa pessoal sobre ele.
"Ela está viva?"
Dante ficou em silêncio.
"Não."
Isabela se arrependeu imediatamente.
"Desculpa."
"Não precisa."
Ele saiu.
Mas antes de fechar a porta, olhou para o colar nas mãos dela.
"Guarde isso."
Isabela assentiu.
Dante passou o restante da manhã no escritório.
Camila estava diante de três telas.
Bruno permanecia perto da janela.
Sobre a mesa havia extratos bancários, registros de empresas e fotografias da emboscada.
"Começa do início."
Camila abriu o primeiro documento.
"Alvorada Gestão Patrimonial recebeu dinheiro da conta paralela."
"Quanto?"
"Nos últimos quatro meses, quase dois milhões."
Bruno assobiou baixo.
Camila continuou.
"De lá, parte foi para a Horizonte Participações."
"Outra empresa falsa?"
"Sim."
"Depois?"
"Uma terceira."
"Nome."
"Vale Norte Serviços."
Dante franziu a testa.
"Nunca ouvi falar."
"Esse é o objetivo."
Camila abriu outra tela.
"Da Vale Norte, cento e oitenta mil reais foram transferidos para uma conta pessoal."
Bruno se aproximou.
"De quem?"
"João César Farias."
Dante reconheceu o nome.
"Um dos homens da emboscada."
"Sim."
"E o outro?"
"Recebeu noventa mil por outra conta."
Bruno apoiou as mãos na mesa.
"Então está confirmado."
Camila assentiu.
"O dinheiro das dívidas falsas financiou o ataque."
Dante ficou em silêncio.
Bruno perguntou:
"Quer que eu pegue Ricardo?"
"Não."
Camila levantou os olhos.
"Não?"
"Se eu pegar agora, quem estiver com ele se esconde."
"Ele pode fugir."
"Não vai."
"Como sabe?"
Dante olhou para a tela.
"Porque ele acha que ainda está no controle."
Bruno soltou uma respiração lenta.
"Então o que fazemos?"
Dante fechou uma pasta.
"Deixamos ele acreditar."
Pouco depois do meio-dia, Isabela desceu até a cozinha.
Teresa Ferreira estava preparando café.
A governanta olhou para ela.
"Você dormiu?"
"Não."
"Comeu?"
"Também não."
Teresa empurrou um prato.
"Então começa por isso."
Isabela se sentou.
"Teresa..."
"Hum?"
"Como Dante era antes?"
A governanta parou.
"Antes de quê?"
"Antes de ser isso."
Teresa olhou para ela.
"Isso o quê?"
Isabela hesitou.
"Chefe."
Teresa voltou ao café.
"Mais leve."
"Ele?"
"Sim."
Isabela achou difícil imaginar.
"Quando mudou?"
Teresa ficou alguns segundos em silêncio.
"Quando o pai morreu."
Isabela lembrou do que Dante dissera.
"Otávio Montenegro."
Teresa assentiu.
"Foi acidente?"
A mão da governanta parou.
Pouco.
Mas parou.
Isabela percebeu.
"Foi o que disseram."
A resposta não convenceu.
Antes que pudesse perguntar mais, passos surgiram no corredor.
Bruno entrou.
"Isabela."
Ela se levantou.
"Que foi?"
"Dante quer você no escritório."
Ela subiu imediatamente.
Quando entrou, Camila estava recolhendo os documentos.
Dante olhava pela janela.
"Encontraram Ricardo?"
Bruno fechou a porta.
"Não precisou."
Isabela franziu a testa.
"Como assim?"
A campainha interna tocou.
Um segurança apareceu.
"Ricardo chegou."
Dante virou.
"Está sozinho?"
"Sim."
"Mandou dizer alguma coisa?"
O segurança assentiu.
"Disse que quer conversar sobre Otávio Montenegro."
O rosto de Dante mudou.
"Deixa entrar."
Camila se aproximou.
"Tem certeza?"
"Tenho."
Minutos depois, Ricardo entrou.
Não parecia acuado.
Não parecia preocupado.
Carregava uma pasta antiga de couro.
Dante permaneceu atrás da mesa.
"Corajoso."
Ricardo fechou a porta.
"Você sempre confundiu coragem com informação."
Bruno levou a mão à arma.
Ricardo percebeu.
"Se eu quisesse matar Dante, não viria pela porta da frente."
Isabela observava.
Dante apontou para a cadeira.
"Fala."
Ricardo não sentou.
"Camila encontrou as empresas."
Dante não demonstrou surpresa.
"Você sabe muito."
"Eu sei mais do que você imagina."
"Então começa a falar."
Ricardo colocou a pasta sobre a mesa.
"Você está procurando a origem errada."
"Da fraude?"
"De tudo."
Dante ficou imóvel.
Ricardo continuou.
"Você acha que isso começou com Isabela."
"Não."
"Com Lucas."
"Também não."
"Com as contas falsas."
Dante estreitou os olhos.
Ricardo sorriu.
"Você ainda pensa pequeno."
Bruno avançou um passo.
"Chega."
Ricardo ignorou.
Olhou direto para Dante.
"Pergunte ao seu pai quem começou isso."
O ar da sala pareceu mudar.
Dante não piscou.
"Meu pai morreu há oito anos."
Ricardo sorriu devagar.
"Exatamente."
Dante puxou a pasta.
Abriu.
Dentro havia fotografias antigas.
Relatórios.
Recibos.
Uma cópia de boletim de ocorrência.
E um documento amarelado.
Camila pegou.
"Isso é do dia da morte de Otávio."
Dante olhou para Ricardo.
"De onde tirou isso?"
"Eu guardei."
"Por quê?"
"Porque alguém precisava lembrar do que realmente aconteceu."
Dante folheou os papéis.
Então encontrou uma fotografia.
A imagem mostrava a estrada molhada.
Um carro destruído.
Luzes de emergência.
Ao fundo, três homens.
Um era Otávio Montenegro.
Outro era Augusto Montenegro.
E o terceiro...
Dante ergueu lentamente os olhos.
Ricardo.
"Você estava lá."
Ricardo não negou.
"Estava."
"Na noite em que meu pai morreu."
"Sim."
Dante fechou a pasta.
"Então você mentiu por oito anos."
Ricardo balançou a cabeça.
"Não."
Ele se aproximou.
"Eu escondi uma parte."
Dante ficou imóvel.
Ricardo olhou para Isabela.
Depois para ele.
"Seu pai não morreu onde disseram que morreu."
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