标题上

"Todos Pensavam Que Eu Era Apenas a Empregada — Até o Dono da Mansão Me Chamar de “Filha”" Capítulo 1

正文开头

Parte 1 — A Empregada que Não Baixou os Olhos

A mansão dos Valença brilhava naquela noite como se cada janela tivesse sido feita para lembrar aos convidados quanto dinheiro existia por trás daqueles portões.

Carros importados paravam diante da entrada principal, enquanto empresários, políticos e sobrenomes conhecidos da elite de São Paulo atravessavam o salão sob enormes lustres de cristal.

Lavínia Alencar observava tudo de longe.

Aos trinta e seis anos, ela já tinha aprendido que existiam lugares onde uma mulher era julgada antes mesmo de abrir a boca.

Naquela casa, bastava o uniforme.

Camisa branca impecável, saia preta até os joelhos, sapatos baixos e os cabelos castanho-escuros presos em um coque discreto.

Era assim que todos a viam.

Uma funcionária.

Nada mais.

"Champanhe para a mesa central, Lavínia."

A voz de Dona Célia veio baixa e firme.

Lavínia assentiu.

"Pode deixar."

Pegou a bandeja e atravessou o salão com a postura ereta.

Ela trabalhava havia apenas alguns meses na mansão Valença, mas já conhecia bem a regra silenciosa daquela casa: funcionários deveriam estar presentes sem jamais serem percebidos.

Lavínia quase conseguia fazer isso.

Quase.

Porque, naquela noite, Bruno Azevedo estava entre os convidados.

Ela o reconheceu antes que ele a visse.

O mesmo cabelo castanho perfeitamente penteado. O mesmo terno azul-marinho. O mesmo relógio caro que ele comprara semanas antes de dizer que o casamento dos dois "não fazia mais sentido".

Seu ex-marido.

Lavínia sentiu o estômago apertar.

Não de saudade.

De memória.

"Então era verdade."

A voz dele a alcançou antes que ela pudesse se afastar.

Lavínia parou.

Bruno segurava uma taça e a examinava da cabeça aos pés, como se estivesse diante de alguma coisa que confirmasse uma antiga previsão.

"Você está trabalhando aqui?"

"Estou."

Ele soltou uma risada curta.

"Como empregada?"

Lavínia sustentou o olhar.

"Trabalho honesto ainda não virou motivo de vergonha."

O sorriso dele diminuiu.

Antes que respondesse, uma mulher se aproximou.

Camila Valença.

O vestido marfim moldava seu corpo com perfeição, e os diamantes nas orelhas capturavam a luz a cada movimento.

Linda.

Elegante.

E perfeitamente consciente disso.

"Bruno, você conhece a Lavínia?"

Camila perguntou como se Lavínia não estivesse ali.

Bruno tomou um gole de champanhe.

"Mais do que gostaria."

Camila ergueu uma sobrancelha.

"Ah."

A compreensão surgiu acompanhada de um sorriso.

"Então essa é a ex-mulher."

Lavínia apertou os dedos sob a bandeja.

Bruno deveria ter ido embora naquele instante.

Em vez disso, pareceu gostar da situação.

"Depois do divórcio, cada um seguiu o caminho que conseguiu."

A frase veio acompanhada de um olhar para o uniforme de Lavínia.

Camila riu.

"Alguns caminhos descem bastante, pelo visto."

Duas mulheres próximas ouviram.

Uma delas desviou os olhos, constrangida.

A outra sorriu.

Lavínia sentiu o rosto esquentar, mas não baixou a cabeça.

Durante anos, Bruno conseguira vencê-la daquele jeito.

Uma frase.

Um olhar.

Uma pequena humilhação disfarçada de comentário.

Ela não era mais aquela mulher.

正文1

"Com licença."

Lavínia virou-se.

Camila se moveu no mesmo instante.

Seu cotovelo atingiu a bandeja.

Uma taça tombou.

O champanhe escorreu pelo vestido claro de Camila.

O salão pareceu silenciar.

Camila olhou para a mancha.

Depois, para Lavínia.

"Você ficou louca?"

"Eu não encostei em você."

"Claro que encostou!"

Camila elevou a voz.

Alguns convidados se viraram.

Bruno permaneceu imóvel.

"Olha o meu vestido!"

"Eu estou olhando."

"Você sabe quanto isso custa?"

Lavínia respirou fundo.

"Não."

Camila soltou uma risada incrédula.

"É claro que não sabe."

A frase atingiu exatamente onde pretendia.

Classe.

Dinheiro.

Lugar.

Camila deu um passo à frente.

"Peça desculpas."

Lavínia não se moveu.

"Por algo que eu não fiz?"

"Você derrubou a taça."

"Não."

"Está me chamando de mentirosa?"

Agora todos estavam olhando.

Lavínia percebeu Dona Célia do outro lado do salão.

Também percebeu Bruno.

Ele poderia dizer o que tinha visto.

Não disse.

Em vez disso, inclinou-se discretamente em direção a ela.

"Lavínia, não complique as coisas. Peça desculpas."

Ela o encarou.

Por um segundo, voltou a ouvir frases de outros tempos.

Não discute.

Não cria problema.

Deixa pra lá.

Você sempre exagera.

A velha Lavínia teria engolido a injustiça para evitar uma cena.

Aquela mulher não existia mais.

"Você viu o que aconteceu, Bruno."

Ele apertou os lábios.

"Eu vi a taça cair."

"Não foi isso que eu perguntei."

Camila cruzou os braços.

"Chega. Dona Célia!"

A governanta se aproximou rapidamente.

"Senhorita Camila?"

"Quero essa mulher fora do salão."

Lavínia sentiu dezenas de olhos sobre ela.

Camila apontou para a mancha.

"Ela estragou meu vestido e ainda tem coragem de me chamar de mentirosa."

Dona Célia olhou para Lavínia.

Havia algo estranho em sua expressão.

Não acusação.

Preocupação.

Lavínia colocou a bandeja sobre uma mesa.

"Tem uma câmera acima da porta da biblioteca."

Camila piscou.

"O quê?"

"Uma câmera."

Lavínia apontou discretamente para o canto do teto.

"Ela pega exatamente esta parte do salão."

O sorriso de Camila desapareceu.

Lavínia continuou.

"Se eu derrubei a taça, vai aparecer."

Bruno mudou de postura.

"Não precisa transformar isso numa coisa maior."

Lavínia olhou para ele.

"Engraçado."

"O quê?"

"Quando ela me acusou diante de todo mundo, você não achou que era uma coisa grande."

Bruno ficou em silêncio.

Lavínia voltou-se para Camila.

"Vamos ver a gravação."

"Eu não tenho que provar nada para uma funcionária."

"Não."

Lavínia respondeu com calma.

"Mas, se quer me demitir por uma mentira, vai ter que provar para Dona Célia."

Um murmúrio atravessou os convidados.

Camila ficou vermelha.

"Você está esquecendo o seu lugar."

Lavínia deu um passo à frente.

Não havia agressividade em sua voz.

Isso tornou a resposta ainda pior para Camila.

"Meu lugar não muda a verdade."

Silêncio.

Foi nesse momento que Valentim Ferraz se aproximou.

Alto, terno escuro perfeitamente cortado, cabelos negros levemente ondulados e olhos verdes que pareciam observar mais do que demonstravam.

Ele tinha acompanhado a cena de longe.

正文2

Camila imediatamente mudou de expressão.

"Valentim, isso é constrangedor."

"É."

Ele respondeu.

Camila esperou.

Valentim olhou para Lavínia.

Depois para a taça caída.

"Principalmente porque foi você quem bateu na bandeja."

Camila empalideceu.

Bruno franziu a testa.

"Você viu?"

"Vi."

Valentim não acrescentou nada.

Não precisava.

Camila soltou uma risada nervosa.

"Foi sem querer."

Lavínia inclinou levemente a cabeça.

"Então não fui eu."

"Eu disse que foi sem querer."

"Depois de dizer que fui eu."

A mandíbula de Camila endureceu.

"Não abuse da sorte."

Lavínia pegou novamente a bandeja.

"Não é sorte."

Seus olhos cor de mel encontraram os de Camila.

"É só a verdade."

Ela se afastou.

O coração batia tão forte que quase doía, mas seus passos permaneceram firmes.

Pela primeira vez em muito tempo, Bruno não teve a última palavra.

E aquilo lhe trouxe uma satisfação silenciosa.

"Interessante."

Valentim falou atrás dela.

Lavínia parou.

"Desculpe?"

Ele se aproximou apenas o suficiente para que a conversa não fosse ouvida pelos outros.

"A maioria das pessoas teria pedido desculpas."

"Eu teria pedido, se tivesse feito alguma coisa."

Um canto da boca dele se ergueu.

"Foi exatamente isso que achei interessante."

Lavínia o estudou por um instante.

Homens como Valentim Ferraz normalmente olhavam através de mulheres com uniforme.

Ele não.

Isso a deixou mais desconfortável do que deveria.

"Obrigada por dizer o que viu."

"Não fiz por você."

"Melhor ainda."

Valentim arqueou uma sobrancelha.

Lavínia continuou:

"Significa que fez porque era verdade."

Dessa vez, ele sorriu de verdade.

Lavínia virou-se antes que aquela conversa significasse mais do que deveria.

Não percebeu que, no alto da escadaria, outro homem a observava.

Augusto Valença havia chegado ao salão no momento exato em que ela levantara o rosto para enfrentar Camila.

Ele não ouvira toda a discussão.

Mas vira os olhos de Lavínia.

Olhos cor de mel.

Claros sob a luz do lustre.

Augusto perdeu a cor.

Por um instante, o salão desapareceu.

Os convidados desapareceram.

Trinta e seis anos desapareceram.

Restou apenas uma lembrança.

Uma mulher de cabelos escuros diante de uma janela.

Um sorriso.

E aqueles mesmos olhos.

"Isadora..."

O nome escapou de seus lábios.

Dona Célia, que subia os primeiros degraus, ouviu.

Parou imediatamente.

Augusto segurou o corrimão.

"Quem é aquela mulher?"

Dona Célia acompanhou seu olhar.

Quando viu Lavínia, seu rosto também mudou.

"Senhor Augusto..."

"Eu perguntei quem ela é."

Lavínia estava do outro lado do salão, servindo outra mesa como se nada tivesse acontecido.

Augusto não conseguia desviar os olhos.

"Como ela se chama?"

Dona Célia hesitou.

Apenas por um segundo.

Mas Augusto percebeu.

E aquela hesitação o assustou mais do que qualquer resposta.

"Como ela se chama, Célia?"

A governanta respirou fundo.

"Lavínia."

Augusto apertou o corrimão.

"Lavínia o quê?"

Dona Célia olhou novamente para a mulher de olhos cor de mel.

Então respondeu:

"Lavínia Alencar."

Augusto ficou imóvel.

O sobrenome não significava nada.

Mas aqueles olhos significavam.

E, pela primeira vez em trinta e seis anos, Augusto Valença sentiu medo de que sua filha morta talvez nunca tivesse morrido.

下一张上
下一章下

você pode gostar

Compartilhar Link

Copie o link abaixo para compartilhar com seus amigos:

页面底部