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"A Empregada no Sofá" Capítulo 2

正文开头

A porta do escritório abriu apenas alguns centímetros.

Ricardo Montenegro entrou primeiro.

A expressão tranquila durou menos de um segundo.

Dante estava encostado na parede ao lado da porta, com a pistola apontada diretamente para o rosto do primo.

Atrás de Ricardo, Marcelo Tavares parou imediatamente.

Ninguém falou.

A chama da lareira desenhava sombras sobre o rosto de Dante, enquanto uma mancha de sangue crescia lentamente em sua camisa.

Ricardo olhou para a arma.

Depois para Dante.

"Você acordou."

Dante não respondeu.

Marcelo levou a mão discretamente para dentro do paletó.

"Não."

A voz de Dante saiu baixa.

Marcelo parou.

"Se sua mão entrar mais dois centímetros nesse paletó, você perde os dedos antes de conseguir tocar na arma."

Marcelo olhou para Ricardo.

Ricardo fez um pequeno gesto.

"Calma."

Dante inclinou a cabeça.

"Você veio abrir uma porta trancada às quatro da manhã acompanhado de um homem armado. Não me peça calma."

Ricardo soltou um suspiro.

"Você levou um tiro. Bruno disse que perdeu muito sangue. Vim ver se estava vivo."

"Por isso perguntou primeiro pela empregada?"

Ricardo finalmente olhou para Isabela.

Ela estava perto da lareira.

Seu rosto ainda estava pálido.

"Isabela deveria ter saído daqui horas atrás."

"Mas não saiu."

"Então alguém cometeu um erro."

Dante deu um passo à frente.

"Quem?"

Ricardo sustentou seu olhar.

"Eu vou descobrir."

Dante quase sorriu.

Não havia humor naquele sorriso.

"Vai mesmo."

Ricardo percebeu a mudança no tom.

"O que aconteceu?"

Dante apontou a arma para o chão, mas não a guardou.

"Marcelo, saia."

Marcelo hesitou.

"Agora."

Ricardo assentiu.

Marcelo saiu.

Dante esperou até ouvir os passos se afastando.

Então fechou a porta.

Ricardo olhou novamente para Isabela.

"O que ela disse?"

Isabela enrijeceu.

Dante percebeu.

"Faça essa pergunta para mim."

Ricardo ficou em silêncio.

Dante caminhou até a mesa.

"Quanto Lucas Oliveira Martins deve aos Montenegro?"

O rosto de Ricardo não mudou.

"Não tenho esse número de cabeça."

"Engraçado."

Dante apoiou a pistola sobre a mesa.

"Há poucos minutos você estava ameaçando a irmã dele no corredor."

"Eu não ameacei ninguém."

"Eu ouvi."

"Você está interpretando errado."

"Então interprete para mim."

Ricardo respirou fundo.

"Lucas voltou a atrasar pagamentos. Isabela está nervosa. Eu apenas lembrei que as atitudes dele têm consequências."

"Que pagamentos?"

Ricardo estreitou os olhos.

Dante continuou.

"A dívida foi encerrada há seis semanas."

Dessa vez houve uma pausa.

Pequena.

Mas Dante viu.

"Se foi encerrada, então existe algum erro no sistema."

"Um erro?"

"Provavelmente."

Dante olhou para Isabela.

"Quatro meses trabalhando até dezoito horas por dia."

Ricardo não respondeu.

"Salário retido."

Silêncio.

"Horas extras."

Dante se aproximou.

"O colar da mãe dela."

Isabela baixou os olhos.

Ricardo finalmente falou.

"Eu não sabia do colar."

"Mas sabia das horas extras?"

"Existe uma equipe administrativa para isso."

"Você faz parte dela?"

"Não diretamente."

"Então por que foi você quem mostrou a dívida para ela ontem?"

Ricardo percebeu a armadilha tarde demais.

正文1

Isabela também percebeu.

Os olhos dela foram direto para ele.

Ricardo ajustou o paletó.

"Porque ela me procurou."

"Mentira."

Isabela falou antes de conseguir se impedir.

Ricardo virou o rosto.

Ela engoliu em seco, mas continuou.

"Eu não procurei o senhor."

O silêncio mudou de peso.

"Foi o senhor que me chamou."

Ricardo encarou a empregada.

"Tenha cuidado com o que está dizendo."

Dante se colocou entre os dois.

"Não fale assim com ela."

Ricardo ergueu as sobrancelhas.

Dante não piscou.

"Nunca mais."

Por alguns segundos, os dois Montenegro ficaram frente a frente.

Ricardo foi o primeiro a recuar.

"Está bem."

Ele abriu as mãos.

"Se houve fraude, vamos investigar."

Dante o observou.

"Vamos."

"Posso falar com o financeiro pela manhã."

"Não precisa."

Dante pegou o celular interno sobre a mesa.

Diferente de seu aparelho pessoal, aquele funcionava pela rede privada da mansão.

Discou um número.

Ricardo ficou tenso.

"Quem você está chamando?"

Dante não respondeu.

A ligação foi atendida.

Uma voz sonolenta surgiu do outro lado.

"Dante?"

"Camila."

A mulher despertou imediatamente ao reconhecer o tom dele.

"O que aconteceu?"

"Preciso de você na mansão."

"Agora?"

"Agora."

"Estou no Itaim."

"Então você chega rápido."

Camila fez uma pausa.

"Que documentos eu levo?"

"Nenhum."

Dante olhou para Ricardo.

"Quero que você acesse tudo daqui."

Ricardo cruzou os braços.

"Dante, são quatro da manhã."

"Eu sei ver as horas."

"Você está ferido."

"Também sei disso."

"Isso pode esperar até amanhã."

Dante encerrou a ligação.

"Não."

Seus olhos encontraram os de Ricardo.

"Não pode."

Quarenta minutos depois, Camila Azevedo atravessou o hall da Mansão Montenegro carregando um notebook e uma pasta de couro.

A advogada de trinta e um anos ainda vestia a roupa com que dormira por baixo de um sobretudo.

Quando entrou no escritório, viu o sangue na camisa de Dante.

"Você deveria estar no hospital."

"Depois."

Camila olhou para Isabela.

Depois para Ricardo.

Percebeu imediatamente que havia algo errado.

"O que você quer que eu procure?"

"Lucas Oliveira Martins."

Camila abriu o notebook.

"CPF?"

Isabela informou.

Os dedos de Camila começaram a correr pelo teclado.

Ricardo permaneceu próximo à janela.

Dante não tirava os olhos dele.

Alguns minutos depois, Camila franziu a testa.

"Encontrei."

"Saldo."

"Zero."

Isabela fechou os olhos.

Mesmo depois de Dante ter dito, ouvir aquilo de outra pessoa parecia tornar tudo real.

Camila continuou.

"Dívida original de cento e oitenta mil reais. Houve pagamentos parcelados, descontos autorizados e abatimentos."

Ela rolou a tela.

"Último pagamento registrado há seis semanas."

Isabela se apoiou na lateral do sofá.

"Então acabou mesmo."

"Oficialmente, sim."

Camila olhou para Dante.

"Você assinou a baixa."

Ricardo abriu as mãos.

"Pronto. Então foi um erro."

Dante virou-se para ele.

"Um erro não pega o salário de uma mulher durante seis semanas depois de uma dívida encerrada."

Camila parou de digitar.

"Pegaram o salário dela?"

Dante apontou para Isabela.

"Procure."

Camila abriu outro sistema.

正文2

Isabela se aproximou.

"Meu salário sempre aparecia no holerite."

"Entrava na sua conta?"

"Não."

Camila ergueu os olhos.

"Nunca?"

"Nos primeiros dias, sim. Depois Ricardo disse que seria mais rápido transferir diretamente para a dívida."

Camila olhou para Ricardo.

Ele permaneceu calado.

"Você assinou alguma autorização?"

"Assinei."

"Tem cópia?"

"Não."

Camila voltou ao computador.

Demorou quase dez minutos.

Então parou.

"Isso é estranho."

Dante se aproximou.

"O quê?"

"Os salários foram processados normalmente."

"Destino?"

"Uma conta de compensação interna."

"Qual?"

Camila clicou.

A tela mudou.

Ela ficou imóvel.

"Essa conta não deveria existir."

Ricardo descruzou os braços.

"Como assim?"

Camila ignorou a pergunta.

Digitou outra sequência.

Depois outra.

"Camila."

Dante percebeu sua expressão.

"Fale."

"Existem dois registros para Lucas."

Isabela se aproximou mais.

"Dois?"

"Um é o oficial."

Camila virou parcialmente o notebook.

Na tela aparecia o saldo encerrado.

R$ 0,00.

"E o outro?"

Camila abriu uma nova janela.

Isabela levou a mão à boca.

R$ 520.000,00.

"Quinhentos e vinte mil?"

Sua voz quase desapareceu.

"Isso é impossível."

Camila examinou as movimentações.

"Não é uma dívida real."

Dante se inclinou sobre a mesa.

"Então o que é?"

"Uma conta paralela."

O escritório ficou em silêncio.

Camila abriu o histórico.

Pagamentos apareciam mês após mês.

Salário.

Horas extras.

Transferências.

Depósitos em dinheiro.

"Meu Deus."

Isabela reconheceu um dos valores.

"Esse aqui."

Apontou para a tela.

"Foi o dinheiro do colar."

Dante virou lentamente para Ricardo.

Ricardo permaneceu impassível.

"Eu já disse que não sabia disso."

Dante não respondeu.

Camila continuou investigando.

De repente, ela franziu a testa.

"Tem mais."

"Quanto?"

"Não estou falando de dinheiro."

Ela abriu a origem dos lançamentos.

"Isabela não é a única."

Dante se aproximou.

"Quantas pessoas?"

Camila começou a contar.

Três.

Cinco.

Nove.

Doze.

Seu rosto foi ficando mais sério.

"Dezessete."

Isabela olhou para ela.

"Dezessete além de mim?"

"Sim."

Dezoito pessoas.

Dezoito famílias.

Todas apareciam vinculadas a dívidas antigas com empresas ou intermediários ligados aos Montenegro.

Uma mãe de Guarulhos.

Um mecânico da Mooca.

Um motorista de Osasco.

Um comerciante da Zona Norte.

Uma auxiliar de cozinha de Santo André.

Pessoas comuns.

Algumas continuavam pagando havia mais de um ano.

Dante sentiu a raiva crescer de uma forma diferente.

Não explosiva.

Fria.

Controlada.

Alguém tinha construído um sistema inteiro dentro de sua própria organização.

E usava o nome Montenegro para fazê-lo funcionar.

"Para onde vai o dinheiro?"

Camila começou a rastrear as transferências.

"Passa por três contas."

"Depois?"

"Uma empresa."

"Nome."

"Alvorada Gestão Patrimonial."

Ricardo soltou uma risada curta.

"Nunca ouvi falar."

Dante olhou para ele.

"Eu não perguntei."

Ricardo ficou calado.

Camila abriu os dados cadastrais.

"Empresa criada há dois anos. Endereço comercial na Faria Lima."

"Proprietário?"

"Um laranja, provavelmente. Capital social baixo."

"Quem movimenta?"

"Estou tentando descobrir."

Dante voltou para perto da janela.

O céu sobre o Jardim Europa começava a clarear.

Isabela continuava olhando para os nomes na tela.

Dezessete pessoas.

Ela havia passado meses acreditando que era burra por não conseguir reduzir a dívida do irmão.

Quanto mais trabalhava, mais o número aumentava.

Agora entendia.

A dívida nunca deveria terminar.

"Senhor Dante."

Ele virou.

"Essas pessoas sabem?"

"Provavelmente não."

"E o senhor vai fazer o quê?"

Ricardo respondeu antes dele.

"Isso é assunto da família."

Isabela ficou imóvel.

Dante olhou para o primo.

"Não."

Ricardo franziu a testa.

Dante apontou para a tela.

"Quando alguém usou o nome da minha família para roubar essas pessoas, deixou de ser apenas assunto da família."

Ricardo se aproximou.

"Você está acusando quem?"

"Ainda ninguém."

Dante sustentou seu olhar.

"É por isso que você ainda está nesta sala."

Ricardo entendeu perfeitamente.

A frase não era tranquilizadora.

Era uma ameaça.

Camila levantou uma mão.

"Encontrei alguma coisa."

Todos olharam para ela.

"Cada transferência precisa de uma autorização interna para entrar nessa conta paralela."

Dante se aproximou.

"Quem autorizou?"

"Estou abrindo o certificado."

A tela pediu uma senha adicional.

Camila digitou.

Uma janela apareceu.

Ela ficou pálida.

"Isso não faz sentido."

Dante viu a mudança em seu rosto.

"Leia."

Camila não respondeu.

"Camila."

Ela virou o notebook para ele.

Isabela também olhou.

Ricardo permaneceu atrás deles.

Na tela havia o registro de autorização.

Data.

Horário.

Certificado eletrônico.

E o nome do responsável.

Isabela leu primeiro.

Seus olhos lentamente deixaram a tela e encontraram os de Dante.

Dessa vez, havia algo diferente em seu rosto.

Não era medo de Ricardo.

Era medo dele.

Camila respirou fundo.

"A autorização está vinculada à assinatura digital de Dante Vasconcelos Montenegro."

Ninguém se moveu.

Dante olhou para a própria assinatura na tela.

Perfeitamente válida.

Perfeitamente registrada.

E, segundo o sistema, havia sido ele quem autorizara cada centavo arrancado de Isabela.

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