"A Câmera Comprada com Meu Remédio" Capítulo 5
Bianca recuou até a janela com o celular diante do rosto.
— Para — disse ela.
Roberto contornou a mesa do escritório. Caio atravessou o espaço entre os dois e abriu o braço esquerdo para bloquear a passagem.
— Encosta nela e eu chamo a polícia.
— Com qual telefone?
O aparelho de Caio continuava sob o armário da cozinha. O som distante de uma sirene surgiu na rua e desapareceu atrás das árvores.
Bianca olhou para a tela.
— Tem quarenta e duas mil pessoas aqui.
Roberto parou.
— O quê?
— Eu apertei ao vivo.
Comentários subiam depressa demais para leitura. Alguns seguidores perguntavam se aquilo era encenação. Outros escreviam o endereço aproximado da casa, reconhecido em vídeos antigos.
— Encerra — Roberto ordenou.
Bianca procurou o botão. O pai avançou de novo.
Caio segurou a pasta azul contra o peito e permaneceu no caminho. Roberto apoiou as duas mãos nele e empurrou.
As costas de Caio atingiram a quina da escrivaninha. O ar saiu de seus pulmões. A pasta caiu aberta, espalhando a minuta de curatela, a apólice e os registros médicos sobre o tapete.
Bianca gritou.
Lúcia entrou no escritório e se ajoelhou ao lado do filho.
— Caio, olha pra mim.
Ele tentou responder. A respiração veio em pequenos puxões, e o formigamento já tomava os dois antebraços.
Roberto estendeu a mão para o celular de Bianca.
Ela virou o corpo e protegeu o aparelho junto ao peito.
— Você queria gravar ele passando mal.
— Eu queria ajudar esta família.
— Você desligou o remédio dele.
— Devolve o telefone.
A campainha tocou. Três batidas fortes vieram logo depois.
Roberto ficou imóvel.
— Polícia Civil! Abra a porta.
Lúcia olhou para o corredor.
— Quem chamou?
Bianca mostrou a tela. Entre os comentários havia mensagens da farmacêutica Marina Costa pedindo que ela mantivesse distância e destrancasse a entrada.
Roberto alcançou a porta do escritório primeiro e fechou o corpo no batente.
— Ninguém abre.
Outra batida fez o quadro do corredor tremer.
— Temos notícia de pessoa passando mal e possível retenção de medicamento. Abra a porta.
Caio apoiou uma mão no tapete. A apólice amarrotou sob seu joelho.
— Bianca — disse, usando o pouco ar que tinha. — A janela.
Ela entendeu. Correu até a janela voltada para a entrada e destravou a folha.
— Aqui! Ele está aqui!
Roberto puxou a filha pelo ombro. O celular girou, mostrou o teto e quase caiu.
Caio agarrou a barra da calça do pai.
— Solta ela.
Roberto se livrou com um chute curto no tapete e voltou para a porta. O barulho da fechadura da entrada soou no corredor.
Lúcia havia usado a chave reserva.
Passos rápidos atravessaram a sala. Uma mulher deu a primeira ordem antes de aparecer.
— Senhor Roberto Vasconcelos, afaste-se dos seus filhos.
A delegada Patrícia Moura surgiu com dois investigadores. Atrás deles, Marina Costa usava o jaleco branco sob um casaco cinza e carregava uma pasta térmica.
Roberto levantou as mãos até a altura do peito.
— Isto é uma discussão familiar.
Patrícia viu Caio no chão e apontou para o policial à esquerda.
— Samu está chegando. Mantenha o corredor livre.
Marina se ajoelhou, abriu o medidor de pulso e o prendeu ao dedo de Caio.
— Caio, sou a Marina, da farmácia. Consegue me dizer quando começou a falta de ar?
— Depois do almoço.
— A última dose de suporte foi quando?
— Quarta.
Ela conferiu o relógio e pediu a Lúcia que se afastasse. A mãe levantou sem discutir.
Patrícia colocou luvas e observou os papéis espalhados.
— Quem é o dono desses documentos?
— Estavam no escritório do meu pai — Bianca respondeu. — Eu achei a pasta.
— Não toca em mais nada. Seu telefone está gravando?
Bianca assentiu.
— Ao vivo.
A delegada pediu que ela encerrasse a transmissão sem apagar o arquivo. Bianca tocou na tela e viu o contador final: 47.836 espectadores.
Roberto deu um passo em direção à porta.
O investigador bloqueou a passagem.
— O senhor fica.
— Preciso ligar para meu advogado.
— Vai poder ligar. Primeiro, mantenha as mãos visíveis.
Marina mostrou a tela do oxímetro ao colega. A saturação de Caio caía.
— Precisamos levá-lo agora.
— Você não pode administrar aquele remédio sem autorização — Roberto disse.
Marina levantou os olhos.
— A prescrição está válida. O senhor tentou suspender a dispensação usando credenciais do paciente e errou duas perguntas de confirmação. O sistema gerou alerta.
— Sou o pai dele.
— Ele é adulto.
Marina mostrou a mensagem recebida pelo sistema da farmácia. O texto fora enviado às 16h47 da sexta-feira, poucos minutos depois do aviso encaminhado ao grupo familiar. O remetente usara o nome de Caio, mas informara a data errada da última consulta e não soubera confirmar o lote da medicação anterior.
— Liguei para o número cadastrado e caiu no aparelho do senhor — disse ela. — Quando pedi para falar com Caio, o senhor desligou.
Roberto desviou o rosto. Bianca manteve o telefone abaixado, preservando o fim da transmissão sem encerrar o arquivo.
A equipe do Samu entrou com maca e oxigênio. Caio deixou que colocassem a máscara em seu rosto enquanto Patrícia recolhia a pasta no lugar onde caíra.
Um dos investigadores fotografou a posição dos papéis antes de recolher qualquer folha. A minuta permanecia aberta junto à perna da escrivaninha; a apólice estava amassada perto da mão de Caio; o recibo da câmera aparecia no corredor, levado no bolso do protagonista e solto durante o empurrão.
Patrícia pediu a Bianca que mostrasse onde a bolsa ficara durante o almoço. A jovem apontou para a bancada sem sair do escritório. Outro policial isolou a cozinha e anotou o número de série visível na etiqueta.
Roberto protestou quando viu o lacre.
— A câmera é da minha filha.
— Então ela poderá dizer isso no depoimento — respondeu Patrícia.
Bianca se aproximou do pai com o telefone já apagado na mão.
— Você queria conteúdo — disse ela. — Agora todo mundo sabe.
O primeiro aro da algema fechou no pulso de Roberto quando a maca cruzou a porta.
No jardim, vizinhos seguravam celulares acima do portão. Patrícia ordenou que um investigador fechasse a entrada e pediu a Bianca que não respondesse a perguntas.
A jovem acompanhou a ambulância com os olhos até a sirene desaparecer.
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