"A Câmera Comprada com Meu Remédio" Capítulo 4
Lúcia tentou negar com a cabeça, mas continuou olhando para a assinatura falsa.
— Eu sabia da apólice.
Bianca deixou o telefone baixar alguns centímetros.
— Vocês fizeram seguro da vida dele escondido?
— Seu pai disse que era uma garantia temporária.
— Garantia para quê? — Caio perguntou.
Lúcia enxugou o rosto com a manga.
— Para conseguir crédito. Ele disse que você autorizaria quando estivesse melhor.
Caio pediu que ela descrevesse o dia em que vira a proposta. Lúcia contou que Roberto abrira o documento na mesa da cozinha e cobrira o campo de assinatura com a mão. Disse que o seguro seria cancelado assim que o banco liberasse dinheiro para salvar a casa.
Uma semana depois, ela encontrou a cópia completa na impressora e viu o valor, o nome do beneficiário e a assinatura do filho. Confrontou o marido durante a madrugada. Roberto respondeu que Caio assinara pelo portal e esqueceria por causa da medicação.
— Eu sabia que você não esquecia as coisas — ela disse.
— Mesmo assim ficou.
Lúcia apertou os olhos e assentiu.
— Eu estava internado.
— Eu sei.
— E você viu minha assinatura falsa.
Ela abriu a boca. Caio dobrou a apólice ao meio e guardou junto ao peito.
— Não responde agora. A resposta já está aqui.
Roberto entrou no escritório e fechou a porta do corredor. O trinco tocou a madeira com suavidade.
— Vocês estão misturando documentos.
— Explica separados — Bianca disse. — Começa pelo seguro.
— Era uma proteção patrimonial.
— Com você recebendo três milhões e oitocentos mil se ele morresse?
Roberto passou a mão pelos cabelos.
— Caio paga um aluguel absurdo, trabalha em serviço pesado e dirige moto doente. Se acontecesse alguma coisa, as dívidas sobrariam.
— Minhas dívidas não iriam para você.
— Eu sei como funciona sucessão.
— Então sabe que essa desculpa é ruim.
Caio precisou apoiar o quadril na mesa. A pressão no peito aumentava a cada frase, e a ponta de sua língua começava a formigar.
Bianca percebeu.
— A ambulância está vindo.
Roberto olhou para o telefone dela.
— Cancela.
— Não.
— Ele não precisa criar ocorrência policial dentro de casa.
— Ele precisa respirar.
Lúcia deu um passo em direção ao filho. Caio levantou a mão.
Ela parou.
— Você soube quando ele suspendeu o remédio?
— Ontem.
— E ficou calada até agora.
— Roberto disse que resolveria na segunda.
— A janela terminava sexta.
— Eu tive medo.
Caio soltou uma tosse seca e puxou uma cadeira. Sentou perto da mesa do escritório, mantendo a pasta entre os joelhos.
— Do quê?
Lúcia olhou para o marido.
— De perder a casa.
A empresa de Roberto devia mais do que todos imaginavam. Ele hipotecara a casa uma segunda vez e usara o carro de Lúcia como garantia. Três credores cobravam parcelas atrasadas.
— Ele falou que, se conseguisse administrar suas contas por alguns meses, reorganizaria tudo — disse Lúcia.
— Com meu salário de armazém?
— Com seu histórico de crédito — Roberto interrompeu. — Você tem limite e movimentação. Nunca atrasou banco.
Caio folheou novamente a planilha. A expressão "aporte VL" aparecia ao lado de uma soma que correspondia aos limites pré-aprovados em dois bancos.
— Você queria empréstimos no meu nome.
— Eu pagaria.
Bianca se aproximou do pai.
— E o seguro?
Roberto encarou a filha.
— Uma operação desse tamanho exige garantia.
— Apólice de vida não vira garantia bancária desse jeito — disse Caio.
— Existem operações privadas.
A resposta confirmou mais do que explicou. Roberto procurara alguém disposto a aceitar uma estrutura duvidosa enquanto a curatela desse aparência de autoridade.
— Você precisava que um juiz acreditasse que eu não podia cuidar da própria vida.
— Precisava que alguém impedisse você de se destruir.
— Então interrompeu meu tratamento.
O pai desviou os olhos pela primeira vez.
Caio uniu a suspensão do remédio, o relatório psicológico sem autor, as frases repetidas em público e a câmera comprada antes da transferência.
— O almoço — disse ele. — Você sabia que eu viria cobrar.
Lúcia segurou o batente.
Bianca olhou para o próprio celular.
— Você queria uma briga gravada.
Roberto permaneceu quieto.
— A câmera não era presente — Caio continuou. — Era isca.
Bianca recuou como se o aparelho novo estivesse sobre a mesa entre eles.
— Você disse que eu podia filmar a reação dele.
— Porque ele sempre faz você parecer culpada.
— Você me falou para perguntar sobre dinheiro durante o almoço.
Bianca abriu a conversa com o pai. Às dez da manhã, Roberto pedira que ela deixasse a bolsa atrás da cadeira, onde Caio pudesse vê-la. Mandara também uma frase pronta para a gravação: "Meu irmão nunca apoia meu trabalho".
Ela não usara a frase porque Caio chegara com o rosto abatido. Roberto então começou a falar da câmera por conta própria, esperando que a discussão crescesse.
— Você montou até o enquadramento — Bianca disse.
— Eu só queria que as pessoas vissem como ele reage.
— As pessoas ou o juiz? — perguntou Caio.
Roberto não respondeu.
— E você perguntou.
— Achei que era conteúdo de família.
Caio fechou a pasta. O elástico bateu na capa azul.
— Quanto você precisava que eu gritasse?
Roberto soltou uma risada baixa.
— Olha para você. Transformando tudo numa teoria.
— A minuta diz que sou agressivo. O celular da Bianca estava ligado. Você gastou meu dinheiro sabendo que eu descobriria.
— Você veio preparado para atacar.
— Vim almoçar.
O pai se aproximou até restar um metro entre os dois.
— Você continua sobrevivendo tempo suficiente para virar problema de todo mundo.
Bianca levou a mão livre à boca.
Lúcia sussurrou o nome do marido.
Caio levantou da cadeira.
— Fala a verdade inteira.
Roberto examinou o filho, depois a pasta contra o peito dele.
— Você não deveria morrer.
— E se eu morresse durante a crise que você provocou?
Roberto umedeceu os lábios. A planilha previa o recebimento do seguro num campo marcado como "contingência", abaixo dos empréstimos e da casa hipotecada.
— Era um risco controlado — respondeu.
Bianca virou o celular para registrar a planilha aberta. Lúcia se afastou do marido até encostar na parede oposta.
O corredor pareceu encolher.
— Devia adoecer o suficiente para o pedido de urgência funcionar. Um laudo, uma internação, algumas gravações suas fora de controle. O juiz nomearia alguém por pouco tempo.
— Você — disse Bianca.
— Eu colocaria as coisas em ordem.
— Roubando os dois filhos? — Lúcia perguntou.
Roberto se virou tão rápido que ela se calou.
Bianca ergueu o celular outra vez.
O pequeno ponto vermelho brilhava no alto da tela.
— Desliga isso — ele disse.
Ela olhou o contador subir sem entender os números.
Roberto avançou.
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