"A Câmera Comprada com Meu Remédio" Capítulo 3
Bianca bateu a porta do escritório e girou a chave pelo lado de dentro.
Roberto chegou dois segundos depois. A maçaneta desceu e travou.
— Abre agora.
Caio se levantou usando o móvel como apoio. Lúcia ficou na cozinha, chorando perto da toalha ensopada.
— Bianca, liga para o Samu primeiro — ele disse.
— Já liguei.
A voz veio abafada pela madeira. Papéis se moveram do outro lado.
Roberto socou a porta.
— Você está mexendo em documentos particulares.
— Tem o nome dele!
Caio alcançou o corredor. A parede ajudou a manter o chão no lugar.
O escritório fora proibido desde que Roberto perdera o cargo numa empresa de transportes três anos antes. Dizia que prestava consultoria financeira. Caio nunca vira um cliente entrar naquela casa.
— O que tem na pasta? — perguntou.
Roberto virou.
— Volta para a mesa.
— Ela já chamou ajuda.
— Você está provocando sua irmã contra nós.
— Ela ouviu você mentir sobre meu médico.
A fechadura girou.
Bianca apareceu com a pasta azul apertada contra o corpo e o celular na outra mão. O rosto estava branco.
Roberto tentou pegar o volume. Ela recuou para dentro do escritório.
Caio se colocou entre os dois.
— Entrega pra mim.
Bianca passou a pasta por baixo do braço do irmão. Roberto agarrou a manga de Caio, e o tecido esticou sobre o ombro.
— Isso pertence à família.
— Meu nome está na capa.
Caio abriu o primeiro elástico.
Havia impressões do portal do plano de saúde, cópias de relatórios médicos e cartas que ele nunca recebera. Uma tela mostrava alterações no endereço de correspondência: o apartamento de Caio fora substituído pela casa dos pais.
Outra página registrava Roberto como "responsável financeiro autorizado".
Havia também três protocolos de atendimento impressos. No primeiro, alguém pedira a troca do telefone de segurança; no segundo, o endereço eletrônico de Caio fora substituído por uma conta com seu nome e uma sequência de números. O terceiro registrava a solicitação para que todas as comunicações sobre o tratamento fossem encaminhadas ao "núcleo familiar".
Caio reconheceu as datas. As alterações começavam na semana em que Lúcia dormira no apartamento para ajudá-lo depois da alta. Enquanto ele tomava analgésico e mal conseguia chegar ao banheiro, a mãe fotografara documentos e abrira a gaveta onde ficavam as senhas de emergência.
— Eu revoguei isso depois da internação.
Lúcia surgiu no fim do corredor.
— Ele disse que era só para ajudar com reembolso.
— Você deu minha senha?
Ela segurou os próprios cotovelos.
— Você deixou anotada.
— Dentro de uma gaveta no meu apartamento.
Lúcia baixou os olhos.
Caio virou outra folha. Um e-mail enviado à farmácia usava seu nome e seu CPF. O texto dizia que ele "recusava voluntariamente a terapia proposta" e autorizava a família a discutir alternativas.
A assinatura eletrônica no rodapé copiava o traço que Caio usava nos contratos de entrega.
— Eu não escrevi isso.
Bianca aproximou o celular.
— Continua falando.
— Guarda esse vídeo em outro lugar — disse Caio. — Manda para alguém.
Roberto avançou um passo.
— Ninguém vai mandar nada.
Bianca recuou até a janela e tocou na tela.
— Já foi.
Caio encontrou uma avaliação psicológica sem timbre. O documento o descrevia como impulsivo, agressivo, incapaz de administrar recursos e propenso a recusar cuidados essenciais.
As frases lembravam as palavras do pai no almoço.
"Ele adoece quando não consegue o que quer."
"Não aceita conselho."
"Não sabe cuidar de si."
— Quem escreveu isso?
Roberto puxou o ar.
— É uma minuta.
— De quê?
Caio encontrou a resposta presa por um clipe.
"Ação de curatela com pedido de tutela de urgência."
O nome de Roberto aparecia como requerente. O texto pedia controle provisório sobre contas bancárias, contratos, plano de saúde e decisões patrimoniais. A alegação central dizia que Caio colocava a própria vida em risco por "reiterada recusa irracional de tratamento".
— Você suspendeu meu remédio para dizer que eu recusei.
Roberto olhou para a porta da frente.
— Isso não foi protocolado.
— Ainda.
— Eu estava preparando uma proteção.
Bianca soltou uma risada curta, sem humor.
— Proteção de quem?
Roberto apontou para Caio.
— Ele deve para todo mundo. Trabalha até cair. Amanhã pode acordar sem conseguir sair da cama.
— Minha dívida é minha — disse Caio.
— Você não enxerga o que isso faz com sua mãe.
Lúcia encostou no batente. O choro diminuíra, deixando manchas escuras sob os olhos.
— Não coloca isso em mim.
— Você concordou.
— Com os reembolsos. Com organizar papel. Não com isso.
Caio retirou uma folha de cálculo. O pai havia listado o salário do centro de distribuição, a renda média das entregas, o saldo da conta, a motocicleta e até o valor estimado dos equipamentos eletrônicos do apartamento.
Uma coluna calculava quanto poderia ser movimentado nos primeiros noventa dias de curatela provisória.
Anexada à planilha, uma lista dividia os conhecidos de Caio em "favoráveis", "neutros" e "problemas". O supervisor do armazém aparecia como favorável porque já o vira passar mal; André era classificado como problema. Roberto anotara ao lado do nome do médico: "Não fala com família sem autorização escrita".
Bianca encontrou o próprio nome entre os favoráveis. A justificativa dizia: "Tem vídeos e confirma impulsividade". Ela soltou a folha como se tivesse queimado os dedos.
— Você já escolheu onde gastar.
Roberto ficou em silêncio.
Bianca apontou para uma linha.
— "Aporte V.L." O que é isso?
— Não importa.
— É a empresa de consultoria? — Lúcia perguntou.
Ele lançou um olhar para ela.
Caio passou às cópias de documentos bancários. Havia simulações de empréstimo, pedidos de aumento de limite e uma proposta de crédito recusada em nome de Roberto.
A empresa dele existia no papel e acumulava dívidas.
Nenhum daqueles documentos explicava a câmera. O valor era pequeno perto do controle solicitado na ação.
Caio procurou no fundo da pasta.
Os dedos encontraram um envelope grosso com o logotipo de uma seguradora.
Seu nome aparecia sob a expressão "vida segurada". Roberto estava indicado como beneficiário principal.
Valor de cobertura: R$ 3.800.000.
Caio leu a data de contratação.
Oito meses antes, onze dias depois da primeira internação.
— Eu nunca fiz esse seguro.
Bianca pegou as páginas seguintes. A proposta continha informações médicas incompletas e uma confirmação eletrônica enviada de um endereço que Caio não reconhecia.
No campo de assinatura, alguém reproduzira seu nome.
Quase perfeito.
O último "s" terminava inclinado para cima. Caio sempre encerrava o traço para baixo desde os dezessete anos.
Ele levantou a folha diante do pai.
— Você falsificou minha assinatura.
Roberto parou de olhar para a porta.
A raiva desapareceu de seu rosto.
Lúcia viu a apólice e produziu um som rouco.
— Eu mandei você destruir isso.
Caio virou devagar para ela.
— Você sabia?
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