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"A Câmera Comprada com Meu Remédio" Capítulo 2

正文开头

A etiqueta da câmera ainda balançava quando Bianca soltou a alça.

— Foi venda final — disse Roberto.

Caio se levantou devagar. A cadeira arrastou poucos centímetros, e o joelho esquerdo demorou a firmar.

— A etiqueta está presa.

— Promoção de lançamento. Não aceitam devolução.

O recibo aparecia sob uma das alças da bolsa. Caio chegou primeiro e puxou o papel.

Roberto abandonou o guardanapo molhado.

— Me dá isso.

Caio recuou um passo e aproximou o recibo da janela. A compra fora realizada na quinta-feira, às 14h18, numa loja do Shopping Iguatemi. A política de troca estava impressa no verso: sete dias para produto sem uso.

O valor na última linha chegava perto do dobro da transferência feita para o remédio.

— De onde saiu o restante?

Roberto estendeu a mão aberta.

— Você está dentro da minha casa.

— E este papel fala do meu dinheiro.

Bianca se aproximou por trás do irmão. Leu o total e franziu a testa.

— Você falou outro valor.

— Falei o que precisava.

— Disse que o Caio não ia mais usar aquele remédio.

Caio virou o rosto.

— Repete.

Bianca apertou o telefone contra o peito.

— O pai disse que o médico tinha mudado a receita. Que a transferência estava sobrando e ele completaria o preço da câmera como presente de aniversário.

O aniversário dela seria dali a seis semanas. Roberto comprara a câmera antes mesmo de Caio enviar o dinheiro.

— Quinta-feira — Caio mostrou a data. — Eu transferi na sexta.

Bianca olhou para o pai.

— Você já tinha comprado?

Roberto puxou a cadeira para o lado e avançou.

Caio segurou o recibo atrás do corpo. O calor já alcançava as orelhas, acompanhado por uma pressão funda sob as costelas.

— Minha conta recebe amanhã — disse. — Quero o valor de volta hoje.

— Hoje é domingo.

— Pix funciona domingo.

Lúcia levantou para buscar um pano. O chá escorria da mesa e pingava no chão perto dos sapatos dela.

— Vamos limpar isso e conversar com calma.

— O remédio foi suspenso? — Caio perguntou.

Ela torceu o pano sobre a pia sem responder.

— Mãe.

— Eu não cuido dessas coisas.

— Você fechou os olhos quando a Bianca falou da receita.

Roberto passou entre Caio e a bancada.

— Chega.

Caio abriu o contato do doutor André. Tocou no ícone verde antes que o pai alcançasse seu pulso.

O golpe veio com o dorso da mão.

O celular voou, bateu no piso e deslizou sob o armário. A chamada nem chegou a completar o primeiro toque.

Bianca gritou.

Caio ficou olhando para a mão vazia.

Roberto ocupou o espaço entre ele e o aparelho.

— Você não vai ligar para ninguém.

— Sai da frente.

— Senta.

— Sai.

O pai falava baixo. A mesma voz usada durante a infância, segundos antes de fechar a porta do quarto e aplicar algum castigo que Lúcia chamaria depois de correção.

正文1

Caio deu um passo para a direita. Roberto acompanhou.

Ele tentou passar pelo outro lado. O pai apoiou uma mão no balcão e fechou a abertura.

— Isso já passou de dinheiro — disse Caio.

— Você está alterado.

— Meu telefone está embaixo do armário porque você bateu nele.

— Está vendo como você fala comigo?

Bianca desbloqueou o próprio celular.

— Eu ligo.

Roberto apontou para ela.

— Você fica fora disso.

— A câmera é minha. Você me colocou dentro.

Lúcia largou o pano na pia.

— Roberto, devolve o dinheiro.

Ele olhou para a esposa. O breve silêncio abriu espaço para outra fisgada sob as costelas de Caio.

Sua respiração encurtou. A visão perdeu nitidez nas bordas.

Ele se apoiou no encosto da cadeira.

— Preciso do telefone.

— Pronto — Roberto disse. — Começou.

Caio respirou pela boca. Já conhecia o caminho daquela crise: calor, formigamento, pressão no peito, fraqueza nas pernas.

— Bianca, chama o Samu.

Ela deu a volta na mesa.

Roberto segurou o braço da filha.

— Não alimenta isso.

— Solta.

— Ele quer transformar o almoço num espetáculo.

Caio desceu até um joelho e estendeu a mão sob o armário. Os dedos roçaram a borda do celular, mas uma dor atravessou o lado direito do corpo.

Seu ombro bateu na porta do móvel.

Bianca puxou o braço.

— Ele está ficando vermelho!

— Ele sempre fica doente quando não consegue o que quer.

A frase saiu limpa, sem hesitação. Lúcia perdeu o pano pela segunda vez.

Caio ergueu os olhos. O pai já havia usado aquelas palavras antes: na recepção do hospital, ao telefone com um primo, diante do gerente do banco quando Caio precisou adiar uma parcela.

Uma versão ensaiada da doença circulava havia meses.

Lúcia se curvou sobre a mesa. Os primeiros soluços vieram enquanto ela segurava a borda molhada.

— Eu não consigo continuar com isso.

Roberto soltou Bianca.

— Linda... — Ele ainda usava o apelido antigo quando queria lembrá-la de alguma obrigação.

— Ele está piorando.

— Então manda sentar.

— Você mexeu no tratamento dele.

Caio firmou a palma no chão e tentou levantar.

— O que ele fez?

Lúcia cobriu a boca, mas as palavras escaparam entre os dedos.

— Seu pai entrou no portal do plano. Usou aquele acesso que você deixou com a gente depois da primeira internação.

Roberto fechou a mão.

— Para.

— Ele falou com a central e com a farmácia. Disse que você estava recusando o tratamento.

— O médico não cancelaria minha receita por telefone.

— A receita continua válida — ela disse. — Ele suspendeu a entrega. Falou que a família assumiria tudo porque você não conseguia decidir sozinho.

Caio lembrou do e-mail pedindo atualização cadastral. Lembrou da atendente que perguntara se Roberto ainda era seu representante. Respondera que ninguém representava um homem de trinta e dois anos capaz de trabalhar dois turnos.

O pai já construía outra resposta.

— Você mal consegue ficar de pé — disse Roberto. — Olha para si mesmo.

Bianca ergueu o celular. O polegar tremia sobre a tela.

— Estou gravando agora.

Roberto parou diante dela.

— Desliga.

— Por que você suspendeu o remédio dele?

— Não sabe do que está falando.

— Tem uma pasta azul no seu escritório com o nome do Caio.

O rosto de Roberto perdeu a cor.

Bianca viu.

Ela correu para o corredor antes que ele alcançasse a ponta da mesa.

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