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"A Câmera Comprada com Meu Remédio" Capítulo 1

正文开头

Roberto cortou mais um pedaço de frango e admitiu que gastara o dinheiro do remédio de Caio na câmera de Bianca.

O gelo estalou dentro do copo de Lúcia. Ninguém tocou nos talheres por alguns segundos.

— O futuro da sua irmã também importa — disse Roberto.

Bianca manteve o celular erguido, apontado para a travessa no centro da mesa. O sorriso que usava nas redes continuou no rosto, embora os olhos tivessem corrido até o irmão.

Caio ficou sentado na ponta direita da mesa, com o prato quase intacto. O calor começava a subir pelo pescoço, e as juntas dos dedos ardiam sob a pele.

— O doutor André disse que eu precisava começar hoje.

— Você aguenta mais um ou dois dias — respondeu Lúcia.

Ela levou o copo à boca. O cubo de gelo bateu no vidro outra vez.

O almoço de domingo sempre obedecia ao mesmo roteiro. Lúcia usava a louça florida guardada na cristaleira, e Roberto falava sobre futebol até ocupar todos os espaços. Bianca filmava a mesa como se o frango assado e as vagens fossem parte de uma campanha paga.

Caio escondia a dor debaixo da mesa.

Trabalhava à noite num centro de distribuição às margens da Rodovia Anhanguera. Durante o dia, fazia entregas por aplicativo quando o corpo permitia. Aos trinta e dois anos, já aprendera a calcular combustível, aluguel, consulta, alimentação e remédio antes de pensar em qualquer descanso.

O imunobiológico aguardava numa farmácia especializada em Campinas. O pagamento deveria ter sido confirmado na sexta-feira, antes da liberação da primeira dose. O salário de Caio entraria na segunda.

Ele transferira o valor exato para o pai e pedira que Roberto buscasse a caixa refrigerada. Trabalhava num turno duplo e não conseguiria chegar antes do fechamento.

Roberto respondera com um áudio de quatro segundos.

"Deixa comigo."

Na bancada atrás de Bianca, uma bolsa preta exibia a etiqueta branca da loja. Duas fivelas vermelhas refletiam a luz que entrava pela janela.

— Estava em promoção — disse Bianca. — Com uma lente dessas, eu consigo fechar trabalho de verdade. Marca não paga bem por vídeo gravado com celular.

Caio olhou para a bolsa.

— Quanto custou?

— O preço não interessa — Roberto respondeu.

— Interessa quando saiu da minha conta.

O pai apoiou a faca no prato.

— Você mora sozinho porque quer. Trabalha desse jeito porque não aceita conselho. Não venha transformar um empréstimo de família numa acusação.

— Eu não pedi empréstimo. Transferi meu dinheiro para você comprar um medicamento.

Lúcia dobrou o guardanapo sobre o colo.

— Caio, sua irmã também trabalha. Você fala como se ela tivesse ganhado um brinquedo.

Bianca girou a câmera do celular para mostrar a bolsa ao fundo.

— Ela se paga em dois meses.

— Meu corpo não tem dois meses.

O sorriso dela caiu por um instante. Roberto serviu mais arroz no próprio prato.

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Caio sentiu um tremor curto na mão esquerda. Enfiou os dedos sob a coxa e esperou passar.

Nos últimos doze meses, duas crises inflamatórias o tinham levado ao pronto-socorro. A primeira deixara seus joelhos inchados a ponto de ele não conseguir subir a escada do prédio. A segunda atingira o pulmão e terminara com três noites de observação.

O doutor André falara devagar durante a última consulta.

— Esta medicação não entra quando der. Existe uma janela. Se perdermos a janela, voltamos a discutir internação.

Caio repetira a frase para os pais. Mandara o pedido médico, o orçamento e os dados da farmácia no grupo da família.

Nenhum deles respondeu.

Agora, os três aguardavam alguma reação que pudessem condenar. Roberto mantinha o queixo elevado enquanto Lúcia apertava o guardanapo. Bianca havia aproximado o celular do próprio rosto.

Caio colocou o garfo ao lado do prato.

— Certo.

Os ombros de Lúcia baixaram.

— Viu? Amanhã a gente resolve — ela disse.

— Então imagino que ninguém leu o aviso da farmacêutica.

Roberto levantou os olhos.

— Que aviso?

Caio tirou o celular do bolso. Abriu o grupo "Família Vasconcelos" e virou a tela para o centro da mesa.

A mensagem de Marina Costa aparecia abaixo do arquivo com a prescrição digital.

"Sr. Caio, a dispensação precisa ser confirmada até as 18h de hoje. A interrupção pode causar resposta inflamatória grave, necessidade de internação e perda da vaga no programa ambulatorial; entre em contato imediatamente."

Caio encaminhara o texto na sexta-feira às 16h12.

Os dois sinais ao lado da mensagem permaneciam cinzentos.

— Foi enviado anteontem — disse ele. — Está escrito.

Lúcia inclinou o corpo, mas não chegou a ler tudo.

— Você está assustando sua irmã.

— Eu estou mostrando uma mensagem.

— Com esse jeito — ela insistiu.

— Não estou fazendo drama. Estou sendo específico.

Roberto deixou as costas encostarem na cadeira.

— Isso é o quê? Uma ameaça?

Caio guardou uma imagem da conversa e outra da bolsa com a etiqueta. O som da captura pareceu alto demais na cozinha.

— Vou ligar para o doutor André e para a farmácia. Também vou registrar que transferi dinheiro para um tratamento urgente e que o valor foi usado na câmera.

Bianca baixou o celular.

Roberto parou de mastigar.

Lúcia abriu os lábios e olhou para o marido antes de falar.

Caio acompanhou o movimento. A palavra registrar tinha mudado os três de lugar sem que ninguém se levantasse.

— Você denunciaria os próprios pais? — Roberto perguntou.

— Eu disse que vou registrar os fatos.

— Era dinheiro da família.

— Era meu.

— Nós sustentamos você durante anos.

Caio soltou o ar pelo nariz. Pagava aluguel desde os dezoito. Bancara metade do telhado depois de uma tempestade e cobrira duas parcelas do carro do pai quando o antigo emprego de Roberto acabara.

Ele não listou nada disso.

— Bianca, traz a câmera e o recibo.

— Não dá ordem pra sua irmã — disse Roberto.

Bianca empurrou a cadeira para trás. As pernas de madeira rasparam o piso.

— Eu vou devolver. Pronto. Se o remédio é urgente, eu devolvo hoje.

Ela alcançou a bolsa na bancada e segurou a alça com as duas mãos. A etiqueta ainda balançava no zíper.

Roberto bateu a palma aberta sobre a mesa.

Os pratos saltaram. O copo de Lúcia tombou contra a jarra, derramando chá sobre a toalha branca.

— Não — disse ele.

Bianca congelou diante da bancada.

Caio ergueu o rosto.

— Se devolver resolve, por que você está impedindo?

Roberto puxou o guardanapo e cobriu devagar a mancha que avançava entre os pratos.

— Porque essa câmera não sai desta casa.

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