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"A Empregada no Sofá" Capítulo 1

正文开头

O homem mais temido de São Paulo acordou atrás de uma porta trancada com a mão já procurando a arma na cintura.

Durante um segundo confuso, Dante Vasconcelos Montenegro não se lembrou de onde estava.

Não se lembrou dos dois carros pretos fechando sua passagem na Avenida Europa. Nem do primeiro disparo quebrando o vidro lateral do SUV.

Muito menos do segundo.

A dor no ombro esquerdo trouxe tudo de volta.

O tiro.

O sangue.

Bruno Almeida gritando ordens enquanto dois homens o arrastavam para dentro da Mansão Montenegro, no Jardim Europa, pouco depois da meia-noite.

Depois disso, apenas fragmentos.

A voz de Ricardo.

"Todo mundo para fora. Eu cuido dele."

A porta do escritório se fechando.

Escuridão.

Dante abriu os olhos devagar.

O fogo baixo da lareira iluminava o teto de madeira escura. O relógio antigo marcava pouco depois das quatro da manhã.

A primeira coisa que percebeu foi a dor.

A segunda foi o peso sobre seu corpo.

Alguém estava deitado em cima dele.

O instinto veio antes do pensamento.

Dante puxou a pistola da cintura e ergueu o cano.

Uma mulher dormia atravessada sobre seu peito, com o rosto escondido perto do ombro que não estava ferido.

Ele encostou a arma nas costas dela.

Então as chamas da lareira oscilaram.

A luz alcançou o rosto da mulher.

Dante congelou.

Isabela Oliveira Martins.

A empregada.

Os cabelos castanhos tinham escapado do coque simples e caíam sobre o rosto. O uniforme cinza estava amarrotado, e o avental branco tinha uma mancha escura perto da barra.

Ela dormia profundamente.

Não estava fingindo.

Não estava esperando uma oportunidade para atacá-lo.

Estava simplesmente exausta.

Dante abaixou lentamente a arma.

Foi então que percebeu outra coisa.

Seu braço direito estava ao redor da cintura dela.

Dante ficou imóvel.

Aquilo não fazia sentido.

Ele não abraçava pessoas enquanto dormia.

Na verdade, Dante Montenegro mal confiava em alguém o suficiente para virar as costas enquanto estava acordado.

E, ainda assim, Isabela estava encolhida contra ele como se tivesse passado horas naquela posição.

Dante fechou os olhos por um instante.

Algumas lembranças voltaram.

Ele se debatendo.

O gosto de sangue na boca.

Uma imagem antiga atravessando seu pesadelo.

Seu pai caído.

Uma arma.

Uma voz mandando que ele acordasse.

Depois, mãos pequenas pressionando seu peito.

"Senhor Dante? Está me ouvindo?"

Ele tinha tentado se levantar.

A sala girara.

Seu corpo quase caíra do sofá.

Alguém o segurara.

Depois, calor.

Silêncio.

Dante tornou a olhar para Isabela.

"Isabela."

Os olhos dela se abriram de repente.

Ela levantou a cabeça, viu o rosto dele e arregalou os olhos.

"Meu Deus."

Isabela tentou se afastar tão rápido que quase caiu do sofá.

"Senhor Dante, me desculpe."

O pé dela bateu no tapete. O corpo perdeu o equilíbrio.

Dante segurou seu pulso antes que ela caísse sobre a mesa de centro.

Isabela olhou para a mão dele fechada ao redor da sua.

正文1

Dante a soltou.

Ela se levantou imediatamente.

"Eu estava limpando. O senhor começou a se mexer, tentou levantar e quase caiu. Eu só queria ajudar. Depois o senhor segurou meu braço e..."

Isabela ficou vermelha.

"Eu não sei como acabei dormindo."

"Eu lembro."

Ela parou.

A voz de Dante estava rouca.

Isabela abaixou os olhos.

"Desculpe."

Dante deveria mandá-la embora.

Em vez disso, alguma coisa chamou sua atenção.

As mãos dela.

Os dedos estavam vermelhos.

A pele parecia ressecada demais para uma mulher de vinte e quatro anos. Havia rachaduras nos nós dos dedos e pequenos cortes perto das unhas.

Dante franziu a testa.

"O que aconteceu com suas mãos?"

Isabela escondeu as duas dentro das mangas do uniforme.

"Nada."

"Eu não perguntei se era nada."

Ela ficou em silêncio.

Dante esperou.

"Produtos de limpeza."

"Há quanto tempo estão assim?"

"Alguns dias."

"Quantas horas você trabalhou ontem?"

Isabela hesitou.

Dante percebeu.

"Quantas?"

"Dezoito horas."

O rosto dele perdeu qualquer traço de sono.

"Repita."

"Dezoito."

"Por quê?"

Isabela desviou os olhos.

Era uma reação pequena, mas Dante conhecia medo.

Conhecia muito bem.

Aquilo, porém, era diferente.

Era a expressão de alguém acostumado a descobrir que reclamar podia tornar tudo pior.

"Cada hora extra diminui a dívida do meu irmão."

Dante não se mexeu.

O silêncio ficou pesado.

"Que horas extras?"

Isabela ergueu os olhos, confusa.

"As do acordo."

"Que acordo?"

Agora ela parecia realmente assustada.

"O acordo que o senhor autorizou."

Dante se sentou devagar.

Uma pontada atravessou o ombro.

Ele ignorou.

"Quem disse que eu autorizei?"

Isabela abriu a boca, mas demorou alguns segundos para responder.

"Ricardo."

O olhar de Dante endureceu.

"Ricardo Montenegro?"

"Sim."

"Exatamente o que ele disse?"

Isabela apertou as mãos.

"Que os pagamentos do Lucas não estavam cobrindo os juros. Disse que o senhor estava perdendo a paciência."

Dante ficou completamente imóvel.

"Continue."

"Ele disse que eu poderia trabalhar horas extras aqui. O dinheiro iria direto para a dívida."

"Quantas horas?"

"Depende."

"De quê?"

"Do serviço."

"Quem determina esse serviço?"

Isabela hesitou novamente.

"Ricardo. Às vezes Marcelo. À noite, o supervisor."

Dante memorizou cada nome.

"Há quanto tempo?"

"Quase quatro meses."

Algo frio começou a substituir a dor no ombro de Dante.

Quatro meses.

Ele se lembrava perfeitamente do dia em que Isabela apareceu em seu escritório.

Lucas Oliveira Martins havia acumulado uma dívida de cento e oitenta mil reais depois de meses apostando dinheiro que não tinha.

Isabela apareceu sozinha.

Não chorou.

Não implorou pela própria vida.

Implorou pelo irmão.

Dante poderia ter recusado.

Em vez disso, ofereceu trabalho legal na mansão, com salário registrado. Por escolha dela, uma parte poderia ser direcionada para quitar o saldo de Lucas.

Nada além disso.

Nenhuma jornada absurda.

Nenhuma ameaça.

Nenhuma punição.

E havia um detalhe ainda mais importante.

Lucas fizera outros pagamentos depois.

Seis semanas antes, Dante recebera o relatório final.

Saldo zerado.

Ele próprio assinara a liberação.

正文2

Dante encarou Isabela.

"Quanto Ricardo disse que Lucas ainda deve?"

Ela respondeu.

O rosto de Dante ficou vazio.

O valor era quase três vezes maior que a dívida original.

"Quem lhe mostrou esse número?"

"Ricardo."

"Quando?"

"Ontem."

"Seu irmão não deve mais nada."

Isabela piscou.

"Como?"

"A dívida de Lucas foi quitada há seis semanas."

Ela soltou uma risada curta, nervosa.

"Não."

"Sim."

"Não pode ser."

"Pode."

"Ricardo me mostrou a conta."

"Ele mostrou alguma coisa."

Dante sustentou o olhar dela.

"Não era a minha conta."

Isabela parou de respirar por um instante.

Olhou para as próprias mãos.

As mesmas mãos que ela escondia dentro das mangas.

"Mas eu entreguei tudo."

Dante não respondeu.

"Meu salário."

Silêncio.

"Todas as horas extras."

A voz dela começou a falhar.

"Eu parei de mandar dinheiro para casa."

Dante apertou a mandíbula.

Isabela respirou fundo.

"Eu vendi o colar da minha mãe."

Dante virou o rosto imediatamente para ela.

"Que colar?"

"O único que ela deixou para mim."

Os olhos de Isabela ficaram úmidos.

"Ricardo disse que, se eu fizesse um pagamento grande, ninguém precisaria ir atrás do Lucas."

Dante se levantou.

A dor explodiu em seu ombro.

Uma mancha vermelha começou a atravessar novamente a camisa perto do curativo improvisado.

Isabela deu um passo à frente.

"O senhor está sangrando."

"Sente-se."

"Eu estou bem."

"Você está tremendo."

"Não estou."

Estava.

Dante pegou o celular sobre a mesa.

Nenhum sinal.

Franziu a testa.

A mansão possuía repetidores internos e sistemas próprios de comunicação.

Aquele escritório nunca ficava sem sinal.

Dante olhou para a porta.

Foi até ela.

Girou a maçaneta.

Trancada.

Seu olhar mudou.

"Quem mandou você entrar aqui?"

"Ricardo."

"Quando?"

"Logo depois que trouxeram o senhor."

"O que ele disse?"

"Que o senhor tinha quebrado uma taça. Mandou limpar tudo e sair sem incomodar ninguém."

Dante olhou para o tapete persa.

Havia cristais quebrados perto da estante.

Muito longe do sofá.

Ele não tinha quebrado taça nenhuma.

"Ele disse que trancaria a porta?"

"Não."

Dante olhou para Isabela.

Alguém queria aquela mulher dentro do escritório.

Alguém queria a porta trancada.

E alguém esperava que Dante permanecesse inconsciente.

Passos surgiram no corredor.

Isabela virou o rosto.

Dante puxou a pistola.

"Fique atrás de mim."

"Senhor Dante..."

"Atrás de mim."

Ela obedeceu.

Os passos pararam diante da porta.

A maçaneta girou lentamente.

Uma vez.

Depois outra.

Silêncio.

Três batidas.

"Chefe?"

Ricardo.

Isabela olhou para Dante.

Ele levou um dedo aos lábios.

"Chefe?"

Nenhuma resposta.

Dante se aproximou da porta sem fazer barulho.

Ouviu uma segunda voz no corredor.

Baixa demais para reconhecer.

Mas duas palavras chegaram perfeitamente aos seus ouvidos.

"Ainda está lá."

Dante estreitou os olhos.

Ainda.

Não perguntaram se ele estava acordado.

Nem se estava vivo.

Apenas se ainda estava lá.

Ricardo bateu novamente.

"Isabela?"

Ela empalideceu.

"Como ele sabe que eu estou aqui?"

Dante não respondeu.

Já estava começando a entender.

"Isabela, abra a porta."

Ela sussurrou:

"Eu não tenho a chave."

Dante ergueu a arma.

Do outro lado, a voz de Ricardo perdeu a falsa preocupação.

"Dante está ferido. Precisamos entrar."

Dante olhou para Isabela.

"Não responda."

Ela assentiu.

Alguns segundos passaram.

Então Ricardo falou novamente.

"Isabela, se estiver acordada, lembre-se do seu irmão."

O corpo dela endureceu.

Dante virou lentamente a cabeça.

Isabela estava branca.

"Lembre-se do Lucas."

Ela levou uma mão à boca.

"Você não quer que ele pague por outro erro, quer?"

Toda dúvida desapareceu dos olhos de Dante.

Aquilo não era erro de contabilidade.

Não era mal-entendido.

Durante quatro meses, alguém dentro da organização Montenegro tinha usado o nome dele para ameaçar Isabela.

E Dante começava a suspeitar que a dívida era apenas uma parte do problema.

Ele se aproximou dela.

"Olhe para mim."

Isabela ergueu os olhos.

"Seu irmão não vai pagar por mais nada."

Ela tentou falar.

Dante não deixou.

"Nem você."

Um ruído metálico veio do outro lado da porta.

Isabela congelou.

Alguém estava colocando uma chave na fechadura.

Dante apagou o abajur ao lado do sofá.

O escritório mergulhou quase completamente na escuridão.

Apenas a lareira continuou queimando.

Ele se posicionou ao lado da porta e apontou a pistola.

Isabela recuou até a lareira.

A chave girou.

Uma vez.

O trinco começou a ceder.

Dante ouviu Ricardo murmurar alguma coisa para o homem ao seu lado.

Então veio a frase que fez seu dedo encostar no gatilho.

"Quando entrar, pegue a empregada primeiro."

A fechadura estalou.

A porta começou a se abrir.

E, naquele instante, Dante Montenegro entendeu que a emboscada que quase o matou naquela noite talvez não tivesse começado nas ruas de São Paulo.

Talvez tivesse começado dentro da própria família.

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