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"Sete Dias Antes do Altar, Ele Escolheu Outra" Parte 3 — Meu Nome Debaixo do Império

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Parte 3 — Meu Nome Debaixo do Império

Naquela noite, Helena abriu a porta de um depósito que não visitava havia cinco anos.

O lugar cheirava a papel, madeira e poeira. Caixas de antigas maquetes ocupavam as estantes. Em uma delas, escrito com sua própria letra, estava o nome que Caio transformara em marca sem jamais contar ao público quem o criara.

CASA VIVA — 2014 A 2019.

Camila colocou o notebook sobre uma mesa dobrável.

“Precisamos de uma linha contínua de criação. Não apenas do desenho final.”

Helena abriu a primeira caixa.

Encontrou cadernos da pós-graduação, cálculos de ventilação, fotografias de protótipos e plantas riscadas à mão. Em uma maquete, o encaixe lateral ainda tinha o defeito que ela levara seis meses para corrigir.

“Isso começou antes de você conhecer Caio”, Camila disse.

“Quatro anos antes.”

“E ele sabe.”

Helena recordou a primeira apresentação na incubadora. Caio usara a expressão “moradia que respira”. Era uma frase tirada de um artigo acadêmico dela.

Na época, ele pedira desculpas e confessara que estudava tudo o que Helena publicava.

Ela se sentira admirada.

Agora entendia que, em algum momento, a admiração se transformara em apropriação.

Trabalharam até o amanhecer. Helena recuperou arquivos de servidores antigos, e-mails enviados à universidade e vinte e sete versões do módulo principal. Camila organizou cópias para três locais distintos e preparou uma declaração de preservação.

Às sete da manhã, André ligou por vídeo.

“Você ainda está no depósito?”

“Como sabe onde estou?”

“Porque, na faculdade, você fazia essa mesma cara quando passava a noite salvando um projeto.”

Helena quase sorriu.

Mostrou a ele o relatório de segurança do Projeto Horizonte, sem enviar os arquivos protegidos.

André leu em silêncio.

“Quem retirou a viga de contraventamento desta versão?”

“A equipe da Vértice disse que era possível substituir por uma conexão mais barata.”

“Sem novo ensaio?”

“É o que preciso descobrir.”

“Posso colocar nossa equipe estrutural para fazer uma revisão independente.”

Helena hesitou.

“Não quero que pareça que você está comprando minha briga.”

“Não estou oferecendo uma guerra, Duarte. Estou oferecendo engenheiros. A decisão e a assinatura continuam sendo suas.”

Era uma diferença pequena nas palavras e imensa no que significava.

“Faça a revisão.”

Naquela tarde, Helena entrou na reunião executiva da Vértice sem avisar.

Caio estava diante de uma tela onde se lia: PROJETO HORIZONTE — O FUTURO DA HABITAÇÃO BRASILEIRA.

O nome dela não aparecia em nenhuma página.

“Helena?” Ele fechou a apresentação. “Achei que estivesse cuidando do casamento.”

“Vim falar da licença do Casa Viva.”

Mauro cruzou os braços. Júlia ficou imóvel junto à janela.

“Não é o momento”, Caio disse.

“O contrato vence em oito dias. Quando pretendiam discutir a renovação comigo?”

Um diretor financeiro folheou os papéis à sua frente.

“Recebemos a informação de que houve cessão definitiva.”

“Receberam de quem?”

Júlia interferiu.

“A documentação passou pelo jurídico.”

“Então não haverá problema em me enviarem a versão protocolada, com o histórico do arquivo e o nome de quem fez o envio.”

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Caio levantou-se.

“Podemos conversar em particular?”

No corredor, ele fechou a porta da sala com força.

“Você está tentando me constranger diante do investidor?”

“Estou perguntando por uma tecnologia que criei.”

“Criamos.”

Helena sentiu o golpe, mas não recuou.

“Mostre uma única versão anterior a 2019 feita por você.”

Caio passou a mão pelos cabelos.

“Por que isso importa agora? Vamos nos casar. O que é seu será meu, e o que é meu será seu.”

“Esse raciocínio também vale para Júlia?”

O rosto dele mudou.

“Não sei do que está falando.”

“Ótimo. Então fale apenas do contrato.”

“Eu preciso dessa cessão antes do lançamento. É uma formalidade para tranquilizar Mauro.”

“Envie o pedido por escrito.”

“Helena, depois de tudo o que construímos, você vai me tratar como um estranho?”

Ela pensou no beijo atrás da porta, na fotografia do hotel e na assinatura falsa.

“Negócios importantes devem ser claros até entre pessoas íntimas.”

Caio a encarou como se visse uma mulher desconhecida.

“Você está diferente.”

“Talvez eu só tenha parado de facilitar.”

Helena voltou para casa sem aceitar conversa sobre flores, convidados ou lua de mel.

Às seis da tarde, recebeu um e-mail de Júlia, copiado para Caio e Mauro.

“Conforme alinhado, solicitamos que a senhora Helena Duarte confirme até amanhã a cessão definitiva do sistema Casa Viva, já apresentada ao comitê de investimento, a fim de evitar prejuízos irreversíveis à operação.”

Helena encaminhou a mensagem a Camila.

Era a confirmação escrita de que os três sabiam que o documento já estava sendo usado antes de qualquer assinatura válida.

O relatório de André chegou vinte minutos depois.

Helena abriu o arquivo e sentiu um frio percorrer a nuca.

A equipe independente havia comparado a versão aprovada por ela com a planta enviada para execução. A viga lateral fora removida, dois pontos de ancoragem tinham sido reduzidos e nenhum novo ensaio constava no dossiê.

Na última página, havia uma conclusão curta:

“A plataforma de visitação não deve receber público até que seja refeita a verificação estrutural.”

Helena não se contentou com a conclusão. Comparou o código de cada prancha com o histórico do sistema de gestão usado pela Vértice.

A alteração de custo havia sido aberta por Júlia, embora ela não tivesse formação técnica. A aprovação interna viera do perfil executivo de Caio às duas e dezessete da manhã.

No campo de observações, ele escrevera apenas: “Sigam a versão negociada com Júlia. Não podemos perder a data do anúncio.”

Helena salvou o registro em formato original e enviou uma cópia a Camila. Caio não poderia dizer que desconhecia a mudança. Ele escolhera o calendário da campanha mesmo sem a validação técnica que o contrato exigia.

Helena ligou para o coordenador do Projeto Horizonte.

“A prévia para a imprensa precisa ser suspensa.”

“Impossível”, ele respondeu. “O evento é depois de amanhã. A Vértice garantiu que está tudo pronto.”

“Quem assinou a liberação?”

Houve uma pausa.

“Recebemos uma aprovação em seu nome.”

Helena apertou o celular.

“Eu não aprovei nada.”

Do outro lado, o homem começou a gaguejar.

“Senhora Duarte, a plataforma já está montada. Amanhã haverá um ensaio com convidados.”

Helena olhou para a assinatura falsa na tela.

Não estavam apenas roubando seu trabalho.

Estavam usando seu nome para colocar pessoas em risco.

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