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"Ele Me Traiu com Minha Melhor Amiga — Então Descobri os R$ 18 Milhões" Capítulo 2 — A Primeira Mentira Estava na Minha Cozinha

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Capítulo 2 — A Primeira Mentira Estava na Minha Cozinha

Descobri o caso numa terça-feira.

Lembro disso porque terças-feiras eram comuns. Nada capaz de dividir uma vida ao meio deveria acontecer numa terça-feira.

Eu passaria duas noites no Rio de Janeiro, atendendo uma empresa da área hospitalar. Mas a segunda rodada de reuniões foi cancelada e consegui antecipar o voo.

Não avisei Gustavo.

Não queria fazer uma surpresa. Estava cansada e só pensava no meu chuveiro, na minha cama e em oito horas de sono sem interrupção.

O avião pousou pouco depois das sete. Às oito e meia, abri a porta de casa.

O carro de Aline não estava na garagem. Ela morava conosco havia quase três meses, mas dizia que estava tentando reconstruir a vida social depois do fim do relacionamento.

Gustavo mandara uma mensagem dizendo que trabalharia até tarde.

A casa estava escura, exceto pelo abajur da sala.

Deixei a mala perto da escada.

Então ouvi uma risada.

Uma risada feminina, baixa e familiar, vinda da cozinha.

Sorri por reflexo.

“Aline?”

A risada parou.

Aquele foi o primeiro aviso.

Não uma camisa no chão, uma marca de batom ou uma porta trancada.

Silêncio.

“Ali?”

Ninguém respondeu.

Ouvi Gustavo sussurrar alguma coisa. Não distingui as palavras.

Meu corpo entendeu antes da minha mente.

Parei no corredor.

Existem instantes em que a vida inteira muda, embora nada ao redor se mova. A geladeira continuava ligada. O relógio marcava os segundos. A chuva batia contra as janelas. A vela que Aline acendera naquela manhã ainda deixava no ar um cheiro de baunilha e madeira.

Tudo permanecia normal.

Menos eu.

Avancei até a cozinha.

Gustavo estava encostado na ilha. Aline estava diante dele, com a blusa aberta até a metade e o cabelo desfeito.

A mão dele repousava na cintura dela.

Durante alguns segundos, nenhum de nós falou.

O rosto de Aline ficou vazio. Gustavo afastou a mão.

Eu olhei para aqueles dedos.

Eram os mesmos que seguraram os meus no altar. Os mesmos que assinaram cartões de aniversário. Os mesmos que eu beijei numa sala de espera quando o pai dele sofreu um infarto.

Agora pendiam ao lado do corpo, inúteis.

“Cati”, Aline sussurrou.

Olhei para ela, depois para Gustavo e então para ela outra vez.

Não parecia uma cena grandiosa. Parecia algo pequeno, sujo e constrangedor. Como se eu tivesse surpreendido dois desconhecidos fazendo alguma coisa patética na minha cozinha.

Gustavo deu um passo.

“Não é...”

“Não.”

Foi a única palavra que consegui dizer.

Aline começou a chorar.

Claro que começou.

“Cati, por favor.”

Ela estava seminua ao lado do meu marido e, mesmo assim, era ela quem chorava.

“Há quanto tempo?”

Nenhum dos dois respondeu.

“Há quanto tempo?”

Gustavo esfregou a palma da mão.

Eu reparei no gesto até naquele momento.

“Nós precisamos conversar.”

“Isso não é uma resposta.”

Aline cobriu o rosto.

“Eu sinto muito.”

“Você está morando na minha casa.”

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Ela sacudiu a cabeça.

“Eu nunca quis...”

“Na minha casa, Aline.”

Ela abriu a boca, mas não encontrou nada que pudesse dizer.

Virei-me para Gustavo.

“Há quanto tempo?”

Ele desviou os olhos.

Foi resposta suficiente.

Subi as escadas. Gustavo veio atrás.

Abri o armário e tirei uma mala.

“O que você está fazendo?”

“Você pode dormir no mesmo lugar onde vem dormindo nos últimos meses.”

“Não faça isso.”

Parei com uma blusa nas mãos e me virei.

“Não faça o quê?”

Ele engoliu em seco.

“Não tome uma decisão enquanto está emocionalmente abalada.”

Alguma coisa mudou dentro de mim.

“Você me traiu com a minha melhor amiga, dentro da nossa cozinha, e está preocupado com uma decisão emocional minha?”

“Não era para acontecer.”

“Pelo visto, nenhuma das suas decisões era.”

“Catarina...”

“Saia.”

Ele me encarou.

“Esta casa também é minha.”

“Então eu saio.”

Coloquei roupas para alguns dias na mala. Não porque estivesse entregando a casa, mas porque, se permanecesse ali por mais uma hora, começaria a fazer perguntas cujas respostas ainda não conseguiria suportar.

Aline me mandou dezessete mensagens naquela noite.

Gustavo ligou vinte e três vezes.

Não respondi a nenhum dos dois.

Na manhã seguinte, liguei para Renata Azevedo.

Eu a conhecia profissionalmente havia anos. Renata era prática, afiada e quase impossível de surpreender.

Quase.

Depois que contei o que acontecera, ela ficou em silêncio por alguns segundos.

“Venha ao meu escritório.”

Cheguei antes do meio-dia.

Esperava que ela perguntasse se eu queria tentar terapia de casal. Em vez disso, perguntou o que eu queria.

“O divórcio.”

“Agora?”

“Agora.”

Ela me estudou por um instante.

“Tem certeza?”

“Tenho.”

Renata abriu um novo arquivo no computador.

“Então vamos começar.”

Falamos sobre o apartamento temporário que eu havia alugado, a casa, as contas, os investimentos e as empresas que cada um administrava. Enviei documentos da minha consultoria, declarações e contratos.

Depois de examinar os números, Renata ergueu os olhos.

“Você fatura mais de um milhão por ano.”

“No último, sim.”

“Gustavo realmente não sabe?”

Baixei os olhos para o café.

“Não.”

“Como?”

“Porque ele nunca perguntou.”

Era apenas metade da verdade.

Gustavo sabia que eu trabalhava. Sabia que eu mantinha uma consultoria voltada a riscos operacionais, contratos e conformidade no setor de saúde.

Só não achava que aquilo importava.

Quando nos casamos, minha renda era modesta e a Atlas já crescia. Com o tempo, um cliente virou três. Três viraram doze. Contratei dois analistas. Fechei projetos com redes hospitalares e empresas que não podiam se dar ao luxo de transformar falhas operacionais em processos milionários.

Nos jantares, porém, Gustavo dizia que eu “fazia umas consultorias”.

Quando contei sobre meu primeiro grande contrato, ele olhou para o celular. Quando anunciei as contratações, respondeu “que ótimo, amor” sem fazer uma única pergunta.

Mantínhamos as finanças das empresas separadas. Ele nunca pediu acesso às minhas. Eu nunca pedi acesso à contabilidade da Atlas.

Gustavo precisava ser a pessoa importante do casamento.

Durante muito tempo, eu deixei.

Depois, apenas parei de corrigir suas suposições.

Renata apoiou os cotovelos na mesa.

“Então ele acredita que você depende financeiramente dele.”

“Provavelmente.”

“Catarina.”

Sorri sem humor.

“Ele vai descobrir.”

“No processo?”

“Não.”

Olhei pela janela do escritório, para o trânsito de São Paulo se movendo muitos andares abaixo.

“Quero que ele descubra da forma mais dolorosa possível.”

Naquele momento, eu ainda pensava que a dor seria o divórcio.

Imaginava que o pior para Gustavo seria descobrir que eu não precisava do dinheiro dele, que não disputaria um homem que já escolhera me trair e que conseguiria reconstruir minha vida sem pedir permissão.

Eu ainda não sabia que a arrogância dele escondia algo muito maior.

E que a primeira mentira encontrada na minha cozinha estava prestes a me levar a milhões de outras.

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