"Minha Irmã Me Jogou na Piscina — e o Noivo Dela Cancelou a Lua de Mel" Capítulo 1
— Foi só uma brincadeira!
Vanessa ainda ria quando dois convidados arrancaram Elisa do fundo da piscina.
Um homem a segurou pela cintura; o outro puxou o tecido pesado do vestido azul. Os joelhos de Elisa bateram no deck de pedra, e ela cuspiu água até o peito arder. O braço direito ficou caído junto ao corpo.
A música da recepção continuou por mais três segundos. Alguém correu até a mesa de som, e o silêncio tomou o terraço.
— Elisa, olha pra mim — disse uma mulher ajoelhada à esquerda. — Consegue respirar?
Elisa assentiu entre duas tosses. Tentou apoiar a mão direita no chão.
Os dedos não se moveram.
Três meses antes, um caminhão avançara o sinal vermelho e atingira o lado do motorista de seu carro. O impacto lesionara os nervos do ombro direito. Uma cirurgia de seis horas reconstruíra parte do trajeto com enxertos delicados.
O neurocirurgião repetira as restrições em todas as consultas: nada de peso, impacto ou natação sem pleno uso dos dois braços. Elisa deixara a tipoia apenas duas semanas antes do casamento.
Vanessa conhecia cada regra.
Visitara a irmã uma vez depois da cirurgia e passara metade da visita reclamando que o imobilizador estragaria as fotografias do brunch das madrinhas.
Agora, parada à beira da piscina, ainda segurava a saia do vestido de noiva para não molhar a renda.
— Você estava do lado da água — disse. — Eu mal encostei.
— Você empurrou com as duas mãos.
Daniel Azevedo surgiu atrás dela. O paletó preto já não estava em seu corpo; a camisa branca permanecia seca, e o nó da gravata começava a ceder.
Vanessa girou para o homem com quem realizara uma cerimônia simbólica havia pouco mais de três horas.
— Eu achei que ela sabia nadar.
— Ontem, no jantar, ela disse que ainda não levanta o braço.
— Ela exagera.
Trinta convidados observavam. Taças abandonadas brilhavam sob as luzes do jardim. Um garçom segurava a bandeja inclinada, imóvel no caminho para o salão.
Vanessa olhou em volta e encontrou rostos que não sorriam.
— É o meu casamento. Dá pra parar de transformar tudo na Elisa por cinco minutos?
Elisa fechou a mão esquerda sobre o pulso direito. Uma fisgada atravessou o ombro e subiu pelo pescoço.
Vinte minutos antes, tia Cecília perguntara sobre a fisioterapia. Elisa respondera que havia voltado a encostar o polegar no indicador. Vanessa ouvira e erguera a voz para a mesa inteira.
— Minha irmã transformou uma batidinha de carro na personalidade dela.
Alguns parentes riram por reflexo. Elisa se levantou e saiu para o terraço.
Vanessa a seguiu.
— Para de drama.
— Eu saí da mesa. O que mais você quer?
— Você adora isso.
— Isso o quê?
— Todo mundo perguntando se você está bem.
Elisa se virou para a piscina. A água devolvia as luzes do hotel em linhas douradas.
— Eu passei por uma cirurgia, Vanessa.
— Tá vendo? Esse tom.
— Que tom?
A noiva olhou por cima do ombro, na direção do arco de flores. Carla e Bruna posavam perto da entrada. Lúcia, mãe das duas, tirava fotos com a família de Daniel.
Vanessa sorriu.
— Talvez água fria te acorde.
As mãos atingiram os ombros de Elisa antes que ela entendesse a frase. O salto esquerdo perdeu o deck. O vestido abriu sobre a água e afundou de uma vez.
Elisa tentou erguer o braço direito. Uma descarga queimou do pescoço até a palma, e o membro não respondeu. A mão esquerda rompeu a superfície uma vez.
Depois, só viu azul escuro e pontos de luz.
Dois convidados mergulharam. Vanessa permaneceu na borda.
Quando Elisa voltou ao deck, a irmã ria.
— Foi só uma brincadeira!
Daniel atravessou o grupo e parou a um metro da noiva.
— Você achou que ela conseguiria sair sozinha?
— Meu Deus, para de agir como se eu tivesse tentado matar alguém.
— Responde.
— Ela sabe nadar.
— Não com esse braço.
Vanessa cruzou os braços.
— Ela está viva, não está?
Daniel ficou imóvel. Durante dois anos, explicara as explosões de Vanessa aos garçons, aos pais e aos amigos. Chamava de intensidade o que deixava outras pessoas humilhadas.
O celular apareceu na mão dele.
— O que você está fazendo? — Vanessa perguntou.
— Resolvendo uma coisa.
Ele passou por ela, ajoelhou ao lado de Elisa e colocou o próprio paletó sobre os ombros molhados dela.
— Tenta mexer os dedos.
Elisa olhou para a mão direita e tentou.
— Não consigo.
— Onde dói?
— O ombro puxou quando eu caí.
O doutor Ricardo Azevedo abriu caminho entre os convidados. Médico ortopedista aposentado e pai de Daniel, ele tocou o cotovelo de Elisa sem elevar o braço.
— Não mexe mais.
— Eu não estou mexendo.
Ricardo levantou os olhos.
— É isso que me preocupa.
Uma funcionária trouxe toalhas. Ricardo enrolou uma delas sob o antebraço de Elisa, mantendo-o junto ao tronco.
— Chamem a ambulância.
Vanessa soltou o ar com força.
— A gente pode parar de transformar isso numa emergência?
Ricardo não desviou da paciente.
— Sua irmã perdeu o movimento de uma mão ligada a um enxerto nervoso recente.
— Ela já mexia pouco.
Daniel se levantou.
— Vamos levá-la ao hospital.
— O fotógrafo está esperando.
Ele ajudou o pai a colocar Elisa de pé. Ricardo ficou à direita, sustentando o braço lesionado; Daniel ocupou o lado esquerdo, mantendo o paletó sobre ela.
Vanessa os seguiu pelo corredor molhado.
— O jantar começa em vinte minutos. Meus pais gastaram duzentos e vinte mil nesse lugar!
Daniel parou diante da porta de vidro.
— Você jogou sua irmã em água funda sabendo que ela não podia usar um braço.
— Eu já pedi desculpa.
— Não pediu.
Vanessa abriu a boca. Nenhuma das frases anteriores continha a palavra desculpa.
O som da ambulância chegou pelo jardim.
— Se você sair por essa porta com ela — Vanessa gritou —, nem pense em voltar pra nossa suíte.
Daniel encarou a noiva. Três segundos passaram.
Então ele levou o telefone ao ouvido.
— Boa noite. Tenho uma reserva nas Maldivas para segunda-feira. Quero cancelar agora.
Vanessa soltou a saia do vestido.
— Daniel, não.
— Sim. Cancelamento total.
— Foram noventa e cinco mil reais!
Daniel ouviu a atendente e abriu a porta para Ricardo conduzir Elisa.
— Pode cobrar a multa — disse. — Cancele as Maldivas.
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