标题上

"Meu Marido Me Abandonou na Estrada por Uma Pegadinha, Cinco Anos Depois, Voltou Para..." Capítulo 5

正文开头

O primeiro escritório da Medeiros Consultoria cabia numa sala sobre uma farmácia.

Tinha uma mesa usada, duas cadeiras diferentes e uma janela que não fechava durante as chuvas. Mara pintou a parede sozinha, montou uma prateleira com tábuas reaproveitadas e pendurou o registro da empresa onde pudesse vê-lo ao entrar.

Não publicou inauguração. Não gravou vídeo. Entregou cartões a comerciantes de Santa Aurora e aceitou os trabalhos que conseguia cumprir à noite.

Em seis meses, a agenda ficou cheia. Em um ano, ela deixou o emprego de Sônia.

— Vai fazer falta — disse a contadora, sem erguer os olhos do monitor. — Mas se tentar voltar cobrando barato, não abro a porta.

Mara abraçou-a antes que Sônia pudesse protestar.

Evelina apareceu na pequena comemoração com um bolo torto e vinte guardanapos para cinco pessoas. Passara a ser a primeira ligação de Mara para notícias boas e para encanamentos quebrados. Dava conselhos sem transformar cada favor numa conta.

— A chave reserva fica comigo ou com a vizinha? — perguntou quando Mara mudou para um apartamento maior.

— Com você.

Evelina guardou a chave no bolso e mudou de assunto.

No segundo ano, Mara comprou um carro compacto azul. Antes de assinar o financiamento, conferiu o contrato linha por linha e exigiu a retirada de duas tarifas. O vendedor perdeu o sorriso no meio da explicação.

Ela dirigiu até o fim da rua e estacionou para chorar.

Não era pelo carro. A chave em sua mão abria algo que ninguém podia levar para fazê-la correr atrás.

Ainda assim, caminhonetes pretas despertavam seu corpo antes da memória. Os ombros subiam, a respiração prendia e os olhos buscavam uma saída. Com o tempo, aprendeu a nomear placas, cores e marcas. Aquela era uma Hilux. Aquela outra, uma Amarok. Nenhuma era a de Caio.

Daniel Ribeiro entrou no escritório numa tarde de outubro carregando uma caixa de recibos escolares.

Tinha trinta e seis anos, cabelo preto curto e uma dobra permanente entre as sobrancelhas. Usava camisa de algodão azul-marinho, calça cáqui e sapatos marrons gastos nos calcanhares.

— Sou tesoureiro voluntário da associação de pais — explicou. — Acho que isso foi um erro de caráter.

Mara abriu a caixa. Havia notas de papelaria, rifas, comprovantes de pix e um guardanapo com a palavra "tinta".

— Foi um erro de organização.

— É mais fácil corrigir?

— Um pouco.

Daniel ensinava História no colégio estadual. Precisava prestar contas de uma feira cultural e não sabia separar doações de reembolsos. Ouviu as instruções, anotou tudo num caderno e não fingiu entender quando não entendeu.

— Posso voltar amanhã com as assinaturas?

— Pode.

— E talvez com um café como pedido de desculpa pela caixa?

Mara apontou a tabela de preços.

— O serviço já inclui o sofrimento.

Ele riu sem apontar um telefone para ela.

Daniel voltou no dia seguinte com as assinaturas e dois cafés. Um mês depois, convidou Mara para uma exposição dos alunos. Ela recusou. Ele agradeceu pela resposta e continuou tratando-a da mesma forma nos encontros seguintes.

正文1

Isso a desconcertou mais do que insistência.

Aceitou jantar com ele depois que o relatório da associação foi aprovado. No restaurante, Daniel perguntou sobre o trabalho, a cidade onde ela crescera e os livros que abandonara pela metade. Não pediu fotografia para publicar. Deixou o telefone no bolso durante toda a refeição.

No segundo encontro, caminhavam pela praça quando um grupo de adolescentes chamou Daniel. Ele conversou com os alunos, apresentou Mara apenas pelo nome e não tocou nela para marcar posse.

No terceiro, ela esqueceu um lenço no restaurante de uma cidade vizinha. Comentou dois dias depois, sem intenção de recuperá-lo.

Daniel dirigiu quarenta minutos após o trabalho e voltou com o lenço dobrado num saco de papel.

— Você foi até lá por isso?

— Você gostava dele.

— Podia ter ligado.

— Liguei. Guardaram no caixa.

— Eu quis dizer que não precisava buscar.

Daniel apoiou o saco na mesa.

— Eu sei.

Mara esperou uma brincadeira sobre gratidão, um pedido escondido, qualquer sinal de que o gesto seria usado mais tarde. Daniel perguntou se ela queria chá.

No quarto encontro, contou sobre o posto.

Escolheu uma mesa no canto de uma cafeteria com duas saídas visíveis. Falou da bolsa, do calor, dos celulares apontados. Contou sobre o chip quebrado, o divórcio e o vídeo. Não suavizou a parte em que planejara proteger a herança antes da viagem.

Daniel permaneceu com as duas mãos em torno da xícara.

Mara contou o que viera depois do posto: as ligações para clientes, o dinheiro cobrado no processo, as flores enviadas ao escritório. Daniel fez uma pergunta.

— Ele sabe onde você mora agora?

— Acho que não.

— Quer mudar de assunto ou pensar num plano caso descubra?

Mara escolheu o plano. Definiram que Daniel não confrontaria ninguém sem seu pedido, que ela guardaria cópias das ordens judiciais e que Evelina seria avisada. Daniel anotou os limites e entregou o papel a ela.

— Você não precisa confiar na minha memória para isso.

O gesto lembrava o caderno que Evelina lhe dera na primeira manhã: fatos registrados antes que outra pessoa os alterasse.

Mara dobrou o papel e guardou na carteira. Daniel não pediu resposta sobre o encontro seguinte. Esperou que ela escolhesse a data.

— Eu devia ter percebido antes — disse Mara. — Talvez, se eu tivesse falado da conta...

— Você não precisa me convencer de que foi grave o suficiente para ir embora.

O barista bateu um filtro na lixeira. Uma colher caiu atrás do balcão. Mara olhou para Daniel e as lágrimas chegaram sem aviso.

Ele não atravessou a mesa para abraçá-la.

— Quer que eu fique? — perguntou.

Mara assentiu.

Daniel ficou.

Mais tarde, quando ele a levou até o carro, não tentou beijá-la. Encostou a mão aberta no teto, mantendo distância.

— Posso ligar amanhã?

— Pode.

Na casa de Evelina, fotografias novas ocupavam a estante: Mara com o diploma, as duas diante do primeiro escritório, o carro azul. As fotografias antigas continuavam guardadas.

— Você nunca mostra sua família — comentou Mara durante um almoço.

Evelina mexeu o feijão com força demais.

— Sobrou pouca gente.

— E seu irmão, Tomás?

A colher bateu na panela.

— Mora longe.

— Você fala com ele.

— Às vezes.

Mara conhecia aquele jeito de encerrar assuntos. Durante anos, Caio o usara para fazê-la duvidar das próprias perguntas. Em Evelina, havia medo, não desprezo. Ela decidiu esperar, mas guardou o nome.

Daniel conheceu Evelina três meses depois. Levou flores do mercado e ouviu uma hora de recomendações sobre os buracos da estrada até a casa de Mara. Quando foi embora, Evelina ficou no alpendre observando o carro.

— Ele olha para você quando você fala — disse.

— Isso é o mínimo.

— Depois do que viveu, o mínimo pode parecer milagre. Não trate como milagre. Veja se continua sendo o mínimo.

Continuou.

Daniel perguntava antes de aparecer. Não lia mensagens sobre o ombro dela. Quando discordavam, não transformava a discussão em história para terceiros. Uma noite, Mara acordou após sonhar com cascalho e encontrou uma mensagem dele enviada horas antes:

Cheguei em casa. Durma bem.

Ela não precisou responder para impedir que ele se zangasse.

Um ano após o primeiro café, Daniel estendeu a mão sobre a mesa da cozinha. Não avançou quando Mara hesitou.

Ela observou os dedos dele, imóveis entre os dois.

Depois colocou a própria mão sobre a dele.

下一张上
下一章下

você pode gostar

Compartilhar Link

Copie o link abaixo para compartilhar com seus amigos:

页面底部