"Meu Marido Me Abandonou na Estrada por Uma Pegadinha, Cinco Anos Depois, Voltou Para..." Capítulo 4
O número de Caio transformou a suspeita em uma linha que qualquer juiz podia seguir.
Renata pediu a inclusão dos documentos no processo e enviou cópia ao Ministério Público. Sônia organizou os extratos por cor, mas Mara preferiu refazer a sequência numa planilha limpa. Era o único modo de confiar nos números.
Durante três noites, ela ocupou a mesa da cozinha de Evelina. Marcou pagamentos, notas e saques. Quando encontrava uma divergência, seu primeiro impulso era procurar Caio para perguntar o que havia entendido errado.
Na quarta vez, apagou o rascunho da mensagem antes de lembrar que o chip estava quebrado havia semanas.
— Você franze a testa igual ao seu pai quando soma — disse Evelina, deixando uma caneca ao lado do computador.
Mara levantou os olhos.
— Você conheceu meu pai?
Evelina se atrapalhou com o pano de prato.
— Eu quis dizer que muita gente faz essa cara.
— Não foi isso que você disse.
— Estou cansada. Boa noite, querida.
Ela saiu antes que Mara insistisse. A moldura continuava virada para baixo na cômoda do quarto. Mara pensou em olhar, mas não tocou nela.
O divórcio levou oito meses. Caio recusou o primeiro acordo, pediu mediação e depois alegou que Mara abandonara a sociedade de fato da empresa. Quando a perícia bancária apareceu, retirou a alegação e passou a pedir sigilo.
Nas audiências, ele alternava arrependimento e ameaça.
— A gente construiu tudo junto — disse uma vez, no corredor do fórum. — Você vai jogar quatro anos fora por causa de um vídeo?
Mara estava com Renata e um segurança entre os dois.
— Eu pedi para você voltar.
— Depois que eu fui embora.
— Porque você sumiu.
— Do lugar onde você me deixou.
Caio abriu as mãos para as pessoas ao redor, procurando testemunhas para o absurdo dela.
— Está vendo? Ela distorce tudo.
Mara não respondeu. Entrou na sala quando o segurança abriu a porta.
No dia anterior à sentença, Caio enviou rosas ao escritório de Renata. O cartão dizia:
Ainda dá tempo de voltar para quem conhece você de verdade.
Mara guardou o cartão como prova e doou as flores a uma casa de repouso. Na audiência, Caio apresentou o gesto como boa-fé. O juiz perguntou por que ele usara um endereço profissional depois de receber ordem para não procurar diretamente a ex-mulher.
— Ela sempre gostou de flores — respondeu Caio.
— Quais flores? — perguntou o juiz.
Caio não soube dizer. Mara cultivara jasmins durante dois anos. As rosas tinham sido escolhidas pela assistente da floricultura. O episódio não decidiu o processo, mas expôs o conhecimento que Caio reivindicava: uma ideia genérica, útil para a cena que queria encenar.
A sentença devolveu-lhe o sobrenome Medeiros, reconheceu a separação dos bens herdados e determinou que as irregularidades empresariais fossem apuradas em procedimento próprio. Caio ficou com a empresa, as dívidas declaradas e o canal praticamente sem receita. Mara saiu com a conta que protegera e uma caixa de objetos pessoais recuperados da antiga casa.
Dentro da caixa havia três blusas, livros de contabilidade, uma caneca rachada e a certidão de óbito da mãe. A bolsa abandonada na caminhonete nunca foi devolvida.
Mara conferiu cada objeto diante de Renata. Faltavam o notebook usado nas primeiras planilhas, dois cadernos de contratos e um pen drive. Caio declarou que eram bens da empresa.
— As planilhas têm meu trabalho — disse Mara.
— Então pediremos cópias — respondeu Renata.
O juiz determinou a preservação dos arquivos. Caio entregou pastas incompletas, mas os nomes dos documentos revelaram sequências ausentes. Sônia comparou os intervalos com extratos bancários e marcou pagamentos realizados justamente nos meses apagados.
Mara não recuperou o notebook. Recuperou algo mais útil: confirmação de que seus registros eram valiosos e de que a ausência de um arquivo também podia servir como prova.
— Deve ter sido perdida durante a confusão — escreveu o advogado de Caio.
Mara leu a frase e guardou a folha. Já não precisava discutir cada mentira.
Sônia ofereceu a ela uma vaga no escritório.
— O salário não é grande — avisou. — E eu não ensino duas vezes.
— Quando começo?
— Segunda, oito horas. Oito significa sete e cinquenta.
No primeiro dia, Mara chegou às sete e vinte. Usava uma camisa bege emprestada por Evelina, calça preta e sapatilhas compradas numa promoção. Pediu autorização para imprimir, atender o telefone e beber água.
Sônia suportou até o almoço.
— A impressora está aí para imprimir. O telefone toca para alguém atender. A água não é minha.
Mara corou.
— Desculpa.
— E pare de pedir desculpa por existir dentro do expediente.
O trabalho começou com lançamentos simples. Mara conferia cada número três vezes e deixava bilhetes para justificar correções. Em dois meses, Sônia colocou uma pasta mais grossa em sua mesa.
— Padaria Dois Irmãos. Fluxo de caixa um desastre. Vê o que encontra.
Mara encontrou compras duplicadas, taxas bancárias ignoradas e um fornecedor cobrando mercadoria nunca entregue. Preparou um relatório de quatro páginas.
— Quanto tempo? — perguntou Sônia.
— Seis horas.
— Cobre oito.
— Mas eu levei seis.
— Você levou seis porque passou anos fazendo isso de graça. O cliente está pagando pelo que você sabe.
Naquela noite, Mara se matriculou num curso técnico de contabilidade. As aulas aconteciam três vezes por semana numa escola municipal. Ela saía do escritório, comia um salgado no ponto de ônibus e estudava até as dez.
Evelina deixava uma panela pequena no fogão.
— Jantar era às seis — brincou Mara na primeira vez.
— Para quem chega às seis. Para estudante, a cozinha fecha às onze.
A convivência se formou assim: recados presos à geladeira, roupa recolhida antes da chuva, café separado numa garrafa menor. Evelina nunca perguntava quando Mara iria embora. Também não dizia que podia ficar para sempre.
Algumas noites, telefonava ao irmão no alpendre.
— Ainda não — dizia. — Ela está construindo uma vida. Não vou colocar a história de vocês em cima dela.
Mara ouvia fragmentos e supunha que falassem de outra pessoa. Tomás permanecia apenas um nome sem rosto.
Ao fim do primeiro ano, ela alugou um apartamento de um quarto a seis quadras do escritório. Evelina ajudou a carregar caixas na minivan e trouxe a cadeira de balanço do alpendre.
— Essa é sua — disse.
— Não posso aceitar.
— Pode. Estou cansada de ouvir aquele rangido.
Mara colocou a cadeira perto da janela. Na primeira noite sozinha, dormiu com uma luminária acesa e uma cadeira encostada na porta. Pela manhã, afastou a cadeira e foi trabalhar.
O primeiro cliente particular apareceu três meses depois. Dona Celeste, proprietária de uma pequena pousada, desconfiava que o sócio desviava pagamentos. Sônia permitiu que Mara aceitasse o serviço fora do horário, desde que não usasse recursos do escritório.
Mara analisou reservas, comprovantes e repasses. Encontrou o desvio em duas semanas.
— Quanto eu lhe devo? — perguntou Celeste.
Mara tinha preparado três respostas. Todas cobravam menos do que Sônia recomendara.
Olhou para as horas anotadas, para o dinheiro recuperado e para a assinatura no relatório.
— Dois mil e quatrocentos reais.
Celeste pegou o talão de cheques sem discutir.
Mara recebeu o pagamento e ficou alguns segundos olhando o próprio nome na linha do beneficiário.
Mariana Medeiros.
Na semana seguinte, registrou a Medeiros Consultoria Financeira.
Era dela.
Saiu da junta comercial com o protocolo dobrado no bolso. Na calçada, telefonou para Evelina antes de contar a qualquer outra pessoa.
Evelina atendeu no primeiro toque.
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