"Meu Marido Me Abandonou na Estrada por Uma Pegadinha, Cinco Anos Depois, Voltou Para..." Capítulo 2
O Posto Horizonte encolheu no retrovisor até caber entre duas manchas de poeira.
Mara permaneceu virada para trás por vários quilômetros. A cada veículo escuro que aparecia na pista, seus dedos se fechavam na barra da camisa. Evelina não ligou o rádio nem tentou preencher o silêncio.
O ar-condicionado da minivan soprava fraco, mas a garrafa de água que ela tirou de uma bolsa térmica estava gelada.
— Devagar — disse. — Você está com o estômago vazio.
Mara bebeu mesmo assim, em goles grandes. A água escorreu pelo queixo. Ela limpou com as costas da mão e se encolheu, esperando uma observação. Evelina apenas abriu o porta-luvas e apontou um pacote de biscoitos.
— Pode pegar.
Quarenta minutos depois, Mara contou que o marido se chamava Caio Dantas.
As mãos de Evelina se apertaram no volante. A minivan saiu alguns centímetros da linha branca e voltou.
— Dantas? — repetiu.
— Você conhece?
— Já conheci gente com esse sobrenome.
Evelina aumentou a ventilação. Mara esperou mais, mas ela perguntou apenas se Caio costumava deixá-la sem acesso a dinheiro.
— Ele diz que eu gasto sem perceber.
— E você acredita?
Mara olhou os campos secos além da janela.
— Eu fazia as planilhas da empresa dele.
Foi a primeira frase que saiu com irritação, e não vergonha.
Caio voltou ao posto quase duas horas após partir. Mara só soube disso meses depois, ao ler o relatório policial anexado ao processo. Primeiro ele procurou atrás da conveniência. Depois entrou no banheiro feminino, gritando o nome dela. Quando percebeu que o frentista a vira entrar numa minivan, chamou a polícia.
O pedido de ajuda trouxe uma pergunta que Caio não esperava.
— O senhor disse que foi uma brincadeira. Onde está a gravação?
Na estrada, Mara ainda ignorava tudo. Dormiu por alguns minutos com a testa encostada no vidro. Acordou quando a minivan passou sob um portal azul:
SANTA AURORA — TERRA DAS ÁGUAS CLARAS
.
A casa de Evelina ficava numa rua de árvores baixas e calçadas irregulares. Era pequena, pintada de branco, com venezianas verdes e um alpendre que rangia ao menor vento. Havia manjericão em latas reaproveitadas e uma cadeira de balanço perto da porta.
Evelina entregou a Mara uma camiseta limpa, uma toalha e uma escova de dentes ainda embalada.
— O quarto é no fim do corredor. O banheiro emperra; levanta a maçaneta antes de puxar.
— Eu não tenho como pagar.
— Não cobrei.
— Posso limpar, cozinhar, fazer alguma coisa.
Evelina pousou dois copos de chá gelado na mesa.
— O jantar é às seis. Isso basta por hoje.
Mara tomou banho e esfregou a poeira dos braços até a pele ficar vermelha. Vestiu a camiseta, grande demais, e sentou na beirada da cama. Sobre a cômoda havia uma moldura virada para baixo. Quando tentou ajeitá-la, Evelina apareceu à porta com um lençol.
— Deixa essa aí.
A resposta veio rápida. Evelina respirou pelo nariz e alisou a dobra do lençol.
— Fotografia velha. A moldura está quebrada.
Naquela noite, Mara acordou com o som de uma voz na cozinha.
— Foi por acaso — sussurrava Evelina ao telefone. — Eu juro, Tomás. Ela estava sozinha no posto.
Mara se sentou na cama. O corredor escuro parecia comprido demais.
— Não vou mandar essa menina de volta para ele — continuou Evelina. — Você ouviu? Não vou.
Uma tábua rangeu sob o pé de Mara. A conversa cessou.
Evelina surgiu na porta da cozinha, o telefone ainda na mão.
— Quer água?
— Com quem você estava falando?
— Meu irmão.
— Sobre mim?
Evelina olhou para a tela apagada.
— Sobre uma decisão minha.
Mara quase pegou os tênis. Não tinha dinheiro, telefone nem direção, mas a necessidade de fugir se levantou antes do pensamento. Evelina colocou o aparelho sobre a mesa e recuou, abrindo espaço até a porta.
— Se quiser ir, eu não impeço. Se quiser ligar para a polícia, o telefone está aí. Se quiser trancar o quarto, a chave fica por dentro.
Mara ficou onde estava.
— Por que está me ajudando?
— Porque alguém devia ter ajudado outras pessoas quando eu era mais nova.
Mara ouviu a frase sem compreendê-la. Bastou saber que a porta continuaria trancando por dentro.
Evelina não explicou. Mara voltou ao quarto e girou a chave. Pela manhã, encontrou café, pão com manteiga e um endereço escrito num papel.
Antes de sair, Evelina colocou sobre a mesa um caderno escolar e pediu que Mara anotasse tudo: horário da parada, placa da caminhonete, objetos deixados no veículo e nomes de quem filmava.
— Minha memória está boa — disse Mara.
— Hoje está. Quando repetirem outra versão, você vai querer ter a sua escrita antes.
Mara registrou até a cor da lata de energético. Escreveu que Bruno escondera sua bolsa sob o banco quando ela abriu a porta. Na hora, parecera uma tentativa de liberar espaço para a câmera. No papel, o gesto ganhou outra forma.
Evelina fotografou as páginas e ajudou Mara a criar um endereço eletrônico. A senha não tinha datas de casamento, nomes conhecidos ou números que Caio pudesse adivinhar.
Centro de Assistência Jurídica de Santa Aurora — Dra. Renata Lopes.
— Eu posso deixar você lá — disse Evelina. — Ou posso lhe dar dinheiro para um ônibus. Você escolhe.
Mara dobrou o papel.
— Me deixa lá.
Renata Lopes usava óculos de armação vermelha e falava tão baixo que as pessoas precisavam parar para ouvi-la. Seu escritório tinha duas cadeiras de plástico, um ventilador barulhento e pilhas de processos presas com elásticos.
Ela ouviu a história do posto sem interromper. Depois perguntou sobre contas, senhas, trabalho e documentos. Mara contou que ajudara Caio a abrir a Dantas Paisagismo no primeiro ano de casamento. Criara planilhas, negociara contratos e cobrara clientes. Nunca recebera salário fixo.
— Ele dizia que tudo entrava para a casa — explicou.
— Você tinha acesso às contas?
— Até alguns meses atrás. Depois ele mudou as senhas.
— Seu nome consta na empresa?
— Não sei.
Renata anotou algo.
Mara falou dos vídeos publicados contra sua vontade. Das compras monitoradas. Do cartão bloqueado depois de uma discussão. Da herança deixada pela mãe, que Caio chamava de capital parado.
— Três dias antes da viagem, transferi esse dinheiro para uma conta só minha.
A caneta de Renata parou.
— Ele sabia?
— Eu ia contar depois.
— Mantenha essa conta intocada. Guarde cada extrato.
Renata juntou as folhas e apoiou os braços na mesa.
— Você quer voltar para ele?
Mara esperou o medo escolher a resposta. Pensou na caminhonete retornando ao posto, nas câmeras prontas, em Caio pedindo outra tomada porque a primeira reação dela não ficara boa.
— Não.
Renata puxou um formulário.
— Então vamos cuidar do que acontece agora.
O pedido de divórcio ocupou onze páginas. Mara leu cada uma, embora algumas palavras jurídicas se embaralhassem. Na linha destinada ao nome, escreveu Mariana Dantas, parou e riscou o sobrenome com uma única linha.
— Posso usar Medeiros?
— Podemos pedir a retomada do nome — disse Renata.
Mara escreveu devagar:
Mariana Medeiros
.
Quando a petição foi protocolada, o telefone da recepção começou a tocar. A atendente atendeu, franziu a testa e cobriu o bocal.
— Doutora, é um homem chamado Caio Dantas. Diz que a esposa foi sequestrada.
Renata fechou a porta da sala.
— Sua cliente está segura — respondeu. — E o senhor deverá falar comigo daqui em diante.
Do outro lado da mesa, Mara viu o protocolo receber data e hora.
Pela primeira vez em quatro anos, Caio não pôde falar por cima dela.
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