标题上

"Meu Marido Me Abandonou na Estrada por Uma Pegadinha, Cinco Anos Depois, Voltou Para..." Capítulo 1

正文开头

O pior som que Mariana Medeiros já ouvira veio como uma gargalhada.

Ela ainda a escutaria durante anos.

Mesmo durante o sono.

Três homens riam enquanto a caminhonete preta arrancava do Posto Horizonte, às margens da BR-153, levantando uma cortina de poeira vermelha. Mara correu atrás dela, os tênis escorregando no cascalho, uma das mãos estendida como se ainda pudesse alcançar a tampa da caçamba.

— Caio!

O motor respondeu com um ronco mais alto.

— Caio, volta aqui!

Ela viu o rosto do marido no retrovisor lateral. O reflexo durou um segundo: cabelo castanho curto, óculos escuros, a boca inclinada num sorriso. Caio a enxergou. Virou o volante para a pista e continuou.

Bruno e César, os irmãos dele, estavam meio pendurados nas janelas. Cada um segurava um celular apontado para Mara.

— Boa sorte! — César gritou. — Só faltam quatrocentos e oitenta quilômetros!

Bruno bateu na lataria da porta. Os três explodiram em outra gargalhada.

A poeira engoliu a caminhonete.

Mara parou no acostamento com a boca aberta, puxando um ar quente que raspava a garganta. O céu de agosto não tinha uma nuvem. O sol batia no asfalto, subia de volta e atravessava a camisa azul-clara grudada às costas dela.

— Eles voltam — disse o frentista atrás da bomba desativada.

Ele parecia ter dezessete anos e não tirava os olhos do próprio telefone. Mara olhou para a estrada. A caminhonete já era um ponto escuro, depois nada.

Sua bolsa estava no banco traseiro.

Carteira, documentos, carregador, remédio para enxaqueca, garrafa d’água. O cartão do banco que Caio permitia que ela usasse também estava lá. No bolso do jeans, havia apenas o telefone e um lenço de papel amassado.

Ela tinha descido porque Caio reclamara de cansaço. Pedira um energético, de preferência o de lata azul, não o de guaraná que ela comprara na parada anterior.

Mara havia entrado na loja pensando em cuidar dele.

Caio transformara o gesto em vídeo.

O frentista desapareceu para dentro da conveniência. Um caminhão passou sem reduzir, empurrando uma lufada de ar seco e cheiro de diesel. Mara voltou até a sombra estreita da cobertura e apertou o botão lateral do telefone.

Um por cento.

Ligou para Caio. A chamada caiu na caixa postal antes do primeiro toque. Tentou de novo. A tela apagou, acendeu e mostrou uma mensagem.

Para de drama. É uma pegadinha pro canal. A gente dá a volta e te busca.

Ela leu até as letras perderem a nitidez. O aparelho morreu na sua mão.

No começo do casamento, as brincadeiras vinham embrulhadas em carinho. Caio contava numa roda de amigos que Mara confundira dois fornecedores e aumentava a história até ela parecer incompetente. Depois passava o braço por seus ombros e beijava a testa dela.

— Aprende a rir de você mesma, amor.

Quando o canal cresceu, ele começou a filmar dentro de casa. Mara aparecia acordando, chorando depois de uma discussão, procurando chaves que Caio escondera. Ela pedia para apagar. Ele prometia cortar a parte ruim e publicava tudo com uma miniatura em que o rosto dela aparecia distorcido.

正文1

Os comentários chamavam Mara de chata, ingrata, sem senso de humor. Caio lia os mais cruéis durante o jantar.

— O público te conhece — dizia.

Bruno e César só ampliavam o espetáculo. Um segurava a câmera; o outro inventava títulos. Caio já fazia aquilo antes de eles entrarem no canal. Os irmãos não o haviam tornado cruel. Tinham lhe dado plateia.

Um carro reduziu diante do posto, mas seguiu. Mara deu dois passos e levantou o braço tarde demais. O asfalto ondulava no calor. Não havia casas, árvores altas ou qualquer placa de cidade próxima. Atrás da conveniência, o terreno se estendia seco até uma cerca de arame.

Caio esperava encontrá-la ali.

Mara procurou o frentista dentro da loja e pediu para usar o telefone fixo. O aparelho estava sem linha havia duas semanas. O rapaz ofereceu a senha do wi-fi, mas o sinal dependia de uma antena desligada durante a queda de energia daquela manhã.

— Tem água na torneira dos fundos — disse ele.

A água saiu morna e com gosto de metal. Mara molhou o rosto e encheu um copo de plástico. Quando perguntou pelo ônibus mais próximo, o rapaz apontou para uma placa quase apagada: a linha passava três vezes por semana. O próximo veículo viria dali a dois dias.

Um casal entrou para comprar refrigerante. O homem reconheceu Mara no teaser que começava a circular e levantou o próprio celular.

— Você é a moça da pegadinha?

Ela recuou antes que ele terminasse. Caio já tinha publicado sua corrida enquanto ela ainda estava presa no cenário.

Assustada. Furiosa. Ainda disponível para a cena da reconciliação, talvez com ele descendo da caminhonete e oferecendo água diante das câmeras. Depois viria a edição com música engraçada e um pedido para os inscritos comentarem se Mara tinha exagerado.

Ela levou a unha à lateral do telefone. A bandeja do chip cedeu depois de duas tentativas. Mara retirou o cartão minúsculo, segurou-o entre os polegares e o dobrou.

O plástico estalou.

Ela quebrou o chip de novo e deixou os pedaços caírem na lixeira ao lado da bomba.

O gesto não lhe deu coragem instantânea. Mara ainda tremia e desejava ouvir o motor voltando. Mesmo assim, não recolheu os pedaços. Escolheu suportar o medo sem entregar a Caio o próximo ato.

Uma minivan cinza entrou devagar no posto. Parou na bomba três, rangendo como se cada peça reclamasse da viagem. Uma mulher de quase sessenta anos desceu, apoiou uma mão na lombar e ajeitou o vestido verde-oliva antes de alcançar a mangueira.

Os cabelos grisalhos batiam na altura do queixo. Ela usava sandálias baixas e carregava no pulso uma bolsa de lona desbotada.

Mara observou a mulher conferir o preço, abrir o tanque e encaixar o bico. Gente comum fazendo uma parada comum. A simplicidade da cena apertou alguma coisa dentro dela.

Deu um passo.

Depois outro.

— Senhora?

A mulher se virou. O olhar passou pelo rosto suado de Mara, pela camisa coberta de poeira e pelo telefone apagado em sua mão. A expressão dela mudou.

— Minha filha, você está bem?

Mara abriu a boca para dizer que sim. A resposta automática chegou à língua e morreu ali.

— Não.

O vento empurrou um guardanapo pelo pátio.

— Precisa de polícia? — perguntou a mulher. — Ambulância? Quer usar meu telefone?

Mara olhou para a pista. Nenhuma caminhonete surgia no horizonte.

— Eu preciso sair daqui.

A mulher manteve a mangueira no tanque e não fez outra pergunta por alguns segundos.

— Meu nome é Evelina Hart — disse por fim. — Estou indo para Santa Aurora. Dá uns cento e quarenta quilômetros.

O sobrenome não chamou a atenção de Mara. O primeiro nome, porém, ficou associado para sempre ao som do combustível correndo dentro do tanque e a uma escolha oferecida sem condição.

— Mariana. Mara.

— Tem alguém que possa avisar, Mara?

Ela apertou o telefone morto.

— Não agora.

Evelina terminou de abastecer, devolveu a mangueira e fechou o tanque. Estudou a estrada, depois Mara. Não pediu prova, explicação ou promessa.

Acionou a chave. A porta do passageiro destravou com um clique.

— Entra.

Mara segurou a maçaneta. Pela última vez, procurou a caminhonete no horizonte.

Nada.

Abriu a porta e entrou antes que Caio voltasse.

下一张上
下一章下

você pode gostar

Compartilhar Link

Copie o link abaixo para compartilhar com seus amigos:

页面底部