"Meu Marido Disse que o Bebê Não Era Dele" Capítulo 3
Laura não havia esquecido os dezoito por cento. Renato apenas a treinara a tratá-los como uma fotografia antiga.
Cinco anos antes do casamento, a Valença Tecnologia era formada por seis pessoas num galpão adaptado na Vila Leopoldina. Renato entendia engenharia; Laura entendia o caos que cercava uma boa ideia quando ela precisava virar empresa.
Ela renegociou fornecedores, montou o primeiro modelo financeiro e apresentou dois investidores. Quando o caixa ameaçou acabar antes da rodada seguinte, colocou um milhão e duzentos mil reais de patrimônio próprio.
Recebeu ações de fundadora. Depois das diluições e reorganizações, restaram dezoito por cento.
— Quanto vale hoje? — perguntou a Camila.
Beatriz respondeu da ponta da cama.
— Se a aquisição fechar na avaliação anunciada, dezenas de milhões.
O Grupo Calder Saúde pretendia comprar setenta por cento dos ativos operacionais por cerca de dois bilhões e cem milhões de reais. Laura poderia vender parte de sua posição ou converter ações na empresa combinada.
Em qualquer cenário, sua assinatura importava.
— Ele trouxe duas recapitalizações durante a gravidez — lembrou Laura. — Disse que eram rotina.
— Você assinou?
— Pedi para meu advogado revisar.
— E depois disso o comportamento mudou?
Laura enumerou as noites fora, as acusações pequenas e os telefonemas com Elisa aos domingos. Cada lembrança agora tinha uma data.
Caio se afastou da janela.
— Renato disse ao nosso pai, duas semanas atrás, que tinha prova de que a criança não era dele.
— Como teria prova antes do nascimento? — perguntou Beatriz.
Laura tocou a barriga vazia por reflexo. A cicatriz da cesárea queimou sob o curativo.
— Fizemos um painel genético na vigésima semana.
Renato insistira num serviço particular indicado por um investidor. Ambos forneceram sangue para rastrear doenças hereditárias; o relatório dizia que não havia incompatibilidades relevantes.
Beatriz pediu o nome da empresa.
— GenVida Concierge.
Caio abriu o notebook. Laura indicou a pasta compartilhada da família, mas o arquivo não estava onde deveria.
— Ele apagou? — Camila perguntou.
— Pode ter movido — disse Beatriz. — Não cliquem em contas que não pertencem a vocês. Vamos preservar os dados pelo caminho certo.
O tablet doméstico, trazido por Caio junto com as coisas de Laura, acendeu sobre a mesa.
RENATO — RE: RESUMO REVISADO DE PATERNIDADE.
Ninguém tocou na notificação.
Beatriz fotografou a tela, anotou o horário e telefonou ao escritório. Em menos de uma hora, cartas de preservação seguiram para Renato, Elisa, GenVida, Valença Tecnologia e o escritório que protocolara a ação.
— Isso não é tão satisfatório quanto abrir o e-mail — disse Camila.
— Também não transforma nossa cliente em problema probatório — respondeu Beatriz.
Laura olhou pela janela do quarto. A UTI neonatal ficava dois andares abaixo, mas a distância parecia atravessar a cidade.
— Quero ver Sofia.
Beatriz fechou a pasta.
— É a única reunião que você precisa fazer hoje.
Na unidade, Laura lavou as mãos por três minutos e sentou diante da incubadora. Sofia respirava com ajuda de pequenos tubos; um gorro branco cobria metade da cabeça.
Laura passou o dedo pela abertura lateral. A mão minúscula fechou ao redor de sua unha.
— Desculpe pela primeira noite — sussurrou. — As próximas serão nossas.
Uma enfermeira trouxe leite extraído e explicou a sonda. Laura ouviu cada instrução, anotando horários no celular.
Do outro lado do vidro, um homem de terno preto apareceu.
Renato.
A enfermeira-chefe o deteve antes da porta. Ele gesticulou, mostrou documentos e ligou para Laura.
— Diga a eles que sou pai da Sofia.
Ela observou a boca dele se mover através do vidro.
— Você entrou com uma ação dizendo que talvez não seja.
— É uma precaução jurídica.
— Precaução para quem?
— Tenho direitos até o exame definitivo.
— Você não veio ao parto.
Ele fechou os olhos.
— Deixe eu vê-la.
Laura quis negar. Depois olhou para a filha.
— Se o hospital permitir conforme o protocolo, pode entrar. Eu não vou encontrar você.
— Laura...
Ela encerrou.
De um corredor lateral, viu Renato se aproximar da incubadora. A postura segura desapareceu quando Sofia fechou a mão ao redor do dedo dele.
Os ombros do homem sacudiram.
Laura saiu antes que as lágrimas dele tentassem pedir alguma coisa.
Amor por uma filha não corrigia a crueldade contra a mãe. As duas verdades ocupavam o mesmo corredor.
Na manhã seguinte, Beatriz recebeu a confirmação de que a GenVida guardava os dados brutos. Um perito independente poderia comparar as amostras com o material de Sofia assim que a equipe médica autorizasse.
— Faça — disse Laura.
— Ele também terá acesso ao resultado.
— Melhor. Quero essa mentira morta.
Enquanto assinava o consentimento, uma mensagem do escritório de Beatriz chegou.
O pacto antenupcial exigia comprovação de fraude conjugal, não simples alegação. A petição de Renato esticava a linguagem, mas poderia servir para assustar Laura antes do fechamento da aquisição.
Havia ainda um acordo pronto.
Seis milhões de reais, saída definitiva do apartamento, confidencialidade, renúncia a questionamentos da Valença Tecnologia e cessão do direito de aprovar a transação.
— Ele achou que eu aceitaria seis milhões por algo que vale dezenas de vezes mais.
Beatriz apontou para a data de criação do documento.
— Achou que você estaria cansada, grávida, isolada e com medo.
Laura tocou a cicatriz sob a camisola.
Se Miguel tivesse apenas chamado o táxi, ela poderia ter passado a noite num hotel, sozinha, com aquele acordo chegando por e-mail entre uma contração e outra.
Talvez tivesse assinado para parar a dor.
— Eu quase facilitei tudo para ele — disse.
— Você sobreviveu a uma cirurgia ontem. Não transforme a vulnerabilidade planejada por eles em culpa sua.
Uma assistente entrou e avisou que Renato continuava na recepção da UTI neonatal.
— Ele diz que não vai embora até falar com a senhora.
Laura entregou o celular a Beatriz.
— Então pode esperar o exame como todo mundo.
Renato esperou quarenta e sete minutos. Depois deixou um arranjo de lírios brancos na recepção, embora Laura tivesse repetido durante anos que o cheiro lhe dava dor de cabeça.
Camila levou as flores para a capela do hospital.
— Pelo menos alguém vai gostar — disse.
Caio retornou com uma caixa do apartamento. Trazia roupas confortáveis, o notebook de Laura e cadernos antigos do galpão.
Um deles continha atas informais das primeiras reuniões. Na capa, Renato escrevera:
Laura — finanças, contratos e qualquer milagre necessário.
Ela passou o polegar sobre a tinta desbotada.
— Ele lembrava naquela época.
— Eu também lembrava — disse Caio. — Fiquei calado quando começaram a contar a história como se você só levasse café.
Laura fechou o caderno.
— Por quê?
— Era mais fácil deixar Renato ocupar a sala.
— Facilidade parece ser uma doença de família.
Caio recebeu o golpe sem protestar.
O perito genético telefonou no fim da tarde. Explicou o método, a cadeia de custódia e a diferença entre rastreamento de doenças e teste formal de paternidade.
— O relatório original nunca poderia sustentar a afirmação feita na petição — disse ele.
— Mesmo que alguém lesse errado?
— Seria necessário retirar frases do contexto e ignorar a conclusão.
Laura pediu que repetisse para Beatriz gravar com consentimento.
Naquela noite, o leite demorou a descer. Uma consultora de amamentação mostrou posições que protegiam a incisão e explicou que estresse, dor e parto prematuro podiam atrasar o processo.
Laura tentou três vezes. Na quarta, conseguiu poucos mililitros.
— É pouco — disse.
— É o que sua filha precisa agora — respondeu a profissional.
Camila etiquetou o frasco com nome, data e horário. Laura observou aquela quantidade pequena atravessar o corredor nas mãos de uma enfermeira.
O acordo de seis milhões continuava fechado no e-mail. Às 8h57, faltando três minutos para o prazo inventado por Renato, o escritório enviou um lembrete.
Beatriz respondeu em nome da cliente.
Nenhum consentimento será fornecido. Preservem todos os documentos e comunicações.
Às nove, nada aconteceu. O teto não caiu, as ações continuaram existindo e Sofia respirou mais uma vez.
Laura apagou o alarme que Renato colocara na vida dela.
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