"Meu Marido Disse que o Bebê Não Era Dele" Capítulo 2
Vinte e cinco minutos depois, Laura estava deitada na triagem obstétrica do Hospital Santa Helena, com duas faixas presas ao ventre.
Um monitor registrava o coração de Sofia. O outro desenhava cada contração numa folha que avançava devagar, indiferente à vida que desmoronara antes da meia-noite.
— Trinta e quatro semanas e cinco dias? — perguntou a enfermeira.
— Isso.
— Dor de cabeça? Visão turva? Sangramento?
— Não.
A pressão estava alta. A médica falou em estresse, desidratação e risco de trabalho de parto prematuro, depois pediu o contato da pessoa que acompanharia Laura.
Ela olhou para o nome de Renato na tela e ligou para Camila.
— Onde? — a amiga perguntou, antes de qualquer outra coisa.
Quarenta minutos depois, Camila entrou usando uma jaqueta verde molhada, tênis sem cadarço e o cabelo preso às pressas. Trazia um carregador, meias, uma garrafa de água e raiva suficiente para iluminar o corredor.
— Ele pôs suas malas na porta?
— Do lado de dentro.
— Ah. Um cavalheiro.
Laura riu e apertou o abdômen.
— Não me faça rir.
Camila sentou e ouviu tudo. Não interrompeu quando Laura falou de Elisa, das fotos de Adrian, da acusação e dos dez minutos.
Interrompeu quando ouviu "o advogado tem prova".
— Que prova?
— Ele não mostrou.
— Renato estava com você quando Sofia foi concebida.
— Nós tínhamos planilha de ovulação.
— Vocês transformaram sexo em gestão de projeto.
Laura riu de novo, e outra contração apagou o sorriso.
O celular vibrou. Renato.
Ela atendeu antes que Camila pudesse impedi-la.
— Onde você está?
— No hospital.
— Por quê?
Laura fechou os olhos.
— Contrações.
Houve uma pausa curta.
— A criança está bem?
A criança. Ele conhecia o nome pintado sobre o berço.
— Ainda estão avaliando.
— Laura, era exatamente esse tipo de drama que eu queria evitar.
Camila se inclinou para ouvir.
— Isto não é teatro, Renato.
— Eu não disse isso.
— Disse do seu jeito.
Ele baixou a voz.
— Não me coloque como responsável financeiro por despesas além da cobertura do plano.
Camila apontou para o botão de encerrar. Laura continuou segurando o aparelho.
— Você vem?
— Não.
— E se ela nascer hoje?
Silêncio.
— O hospital pode falar com meu advogado.
A chamada terminou.
Camila tomou o celular da mão dela e fez capturas do registro. Salvou as mensagens na nuvem e enviou cópias para o próprio e-mail.
— A partir de agora, nada é apagado.
— Você virou perita?
— Minha irmã virou advogada para eu não precisar virar.
À uma e meia, Beatriz Torres apareceu numa videochamada. Usava óculos de leitura e uma camisa branca sob o paletó de pijama que não admitiria possuir.
— Primeiro: você não assina. Segundo: você não volta sozinha. Terceiro: qual é a situação do apartamento?
— A sociedade está no nome de RH Residencial.
— Quem são os sócios?
— Renato administra. Minha avó entrou com nove milhões na compra.
Beatriz aproximou o rosto da câmera.
— Entrou como empréstimo ou participação?
— Participação, eu acho.
— Amanhã vamos trocar "eu acho" por documento.
A médica voltou, examinou a fita do monitor e pediu que Laura deitasse de lado. O coração de Sofia desacelerara durante a última contração e demorara a recuperar.
Às 3h12, a bolsa rompeu.
Camila apertou a mão de Laura enquanto profissionais entravam e saíam. O vestido azul foi substituído por camisola hospitalar; a aliança permaneceu no dedo até inchar.
Às 6h03, Laura mandou a primeira mensagem.
Entrei em trabalho de parto. Se quiser estar aqui, venha agora.
Entregue.
Lida.
Às 7h14, enviou outra.
Vão fazer uma cesárea de emergência. O coração dela está caindo.
Lida.
Nenhuma resposta.
No centro cirúrgico, as luzes eram brancas demais. Laura tremia sob o lençol enquanto a anestesista dizia cada passo, e Camila permanecia perto de sua cabeça com uma touca que esmagava as tranças.
— Fala comigo — pediu Laura.
— Sua filha vai nascer brava. Já puxou a mãe.
O choro chegou às 7h42.
Pequeno, rouco e furioso.
Laura começou a chorar antes de ver a criança. Uma pediatra aproximou Sofia por menos de um minuto: quatro quilos não, apenas dois quilos e cento e trinta gramas; cabelos escuros grudados na cabeça e o queixo inconfundível de Renato.
— Ela precisa de suporte respiratório — explicou a médica. — Vamos para a UTI neonatal.
Laura beijou o ar perto da testa da filha antes que a levassem.
Quando acordou no quarto, Camila estava ao lado da cama. Beatriz ocupava uma poltrona com a pasta vermelha aberta, e Caio Valença permanecia junto à janela.
Renato e Caio compartilhavam o maxilar, mas o irmão mais velho usava um suéter azul e carregava o cansaço sem tentar transformá-lo em autoridade.
— Como soube? — perguntou Laura.
— Miguel me ligou.
O porteiro. Outra pessoa que chegara antes do pai.
— Renato vem?
Laura virou o rosto.
— Não.
Caio fechou a mão sobre o encosto da cadeira.
Beatriz esperou a enfermeira sair.
— Laura, você conhece Adrian Cole?
— Foi meu supervisor na Azevedo Capital.
— Teve um caso com ele?
— Claro que não.
— Encontrou-se com ele em fevereiro?
— Num jantar. Ele queria me contratar para uma consultoria.
Beatriz girou o tablet.
Renato havia protocolado uma tutela de urgência naquela manhã. Alegava infidelidade, anexava fotos do restaurante e pedia uso exclusivo do apartamento durante o divórcio.
Uma cláusula do pacto antenupcial estava destacada. Se um cônjuge cometesse adultério que resultasse na concepção de filho de terceiro, renunciaria a direitos sobre a valorização de determinados ativos empresariais.
— Que ativos? — Laura perguntou.
— Seus dezoito por cento na Valença Tecnologia.
Beatriz ampliou o protocolo eletrônico.
21h18.
Laura chegara em casa às 22h06.
As malas, a acusação e Elisa com champanhe já estavam esperando por ela antes mesmo de a discussão começar.
Beatriz ampliou a segunda página da petição. Havia um pedido para impedir Laura de contatar investidores da Valença Tecnologia e uma declaração assinada por Renato afirmando que a convivência se tornara "insustentável após indícios recentes".
— Indícios recentes protocolados quarenta e oito minutos antes de você entrar em casa — disse Camila.
Caio pediu para ver a assinatura do irmão. Reconheceu o traço comprido do V e ficou alguns segundos olhando o tablet.
— Ele me ligou ontem à tarde — contou. — Perguntou se eu apoiaria uma mudança de comando se um problema pessoal afetasse a aquisição.
— O que você respondeu? — perguntou Laura.
— Que não discutiria a empresa sem documentos.
Beatriz anotou a conversa e pediu que Caio preservasse o registro. Ele enviou uma captura ali mesmo.
Uma enfermeira entrou para ajudar Laura a ficar de pé. A primeira caminhada depois da cesárea levou quatro minutos entre a cama e a porta.
Camila segurava o suporte do soro. Laura recusou o braço oferecido por Caio, depois percebeu que estava punindo a pessoa errada.
— Pode levar a bolsa — pediu.
Ele a colocou no ombro.
Na UTI neonatal, uma médica explicou que Sofia respondera bem ao suporte de oxigênio. Ainda havia risco de infecção, dificuldade para mamar e instabilidade de temperatura.
Laura ouviu até o fim.
— Posso tocar nela?
— Pela abertura. Lave as mãos primeiro.
Ela esfregou cada dedo enquanto Camila lia o cartaz de instruções duas vezes. Caio ficou no corredor, respeitando uma distância que Renato nunca aprendera a oferecer.
Sofia parecia pequena demais dentro da incubadora. O peito subia rápido, e um adesivo em forma de coração segurava um dos sensores.
— O pai foi avisado? — perguntou a médica.
Laura mostrou as mensagens marcadas como lidas.
A médica não comentou. Registrou a informação no prontuário.
De volta ao quarto, Beatriz pediu autorização para responder à petição. Solicitariam preservação do imóvel, acesso aos documentos societários e proibição de qualquer transferência das ações até investigação.
— Isso vai ficar público? — Laura perguntou.
— Algumas partes podem ser protegidas por envolver uma criança. O conflito empresarial vai alcançar o conselho.
— Renato vai dizer que estou usando Sofia para travar o negócio.
— Ele já está dizendo. A diferença é que nós temos horários.
Beatriz alinhou o protocolo das 21h18, o ingresso de Laura no prédio às 22h06, o chamado da ambulância e as mensagens do centro cirúrgico.
— Pessoas mentem — disse. — Sistemas costumam guardar a ordem em que mentiram.
Laura retirou a aliança do dedo inchado e colocou no envelope de pertences do hospital.
Não anunciou separação. Apenas pediu que Camila escrevesse a data no lacre.
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