"Meu Marido Disse que o Bebê Não Era Dele" Capítulo 1
A primeira mala já estava ao lado da porta quando Laura entrou no apartamento.
A segunda permanecia aberta sobre o mármore, com uma manga do casaco bege presa no zíper. Aos oito meses de gravidez, ela precisou apoiar a mão na parede para se abaixar, mas Renato não saiu do lugar.
— O que é isso?
Ele tocou a coroa do relógio. Atrás dele, Elisa Monteiro ergueu a taça de champanhe até os lábios e não bebeu.
Laura ainda usava o vestido azul-névoa do jantar da fundação. A chuva de setembro deixara seus cachos escuros úmidos, e Sofia empurrava o lado direito de sua barriga com um pé insistente.
— Suas coisas — disse Renato.
— Eu estou vendo. Por que estão aqui?
— Você tem dez minutos.
Laura olhou para Elisa. O cetim cor de champanhe da mulher brilhava sob as luminárias da sala; os saltos dourados estavam ao lado do bar, como se ela já tivesse decidido passar a noite.
— Dez minutos para quê?
Renato ajeitou o punho da camisa branca sob o paletó preto.
— Para sair.
Sofia se mexeu de novo. Laura pousou as duas mãos sobre o ventre e esperou o marido explicar que aquilo era uma encenação ruim, uma raiva passageira, qualquer coisa que coubesse nos onze anos que haviam dividido.
Ele apontou para a mala fechada.
— O carro pode levar você a um hotel.
Elisa sabia do hotel. Laura viu isso no modo como a mulher baixou os olhos antes do fim da frase.
— Você arrumou minhas roupas?
— Pedi que arrumassem.
— Quem tocou nas minhas coisas?
— Isso importa agora?
Laura atravessou a sala devagar. Passou pelo sofá escolhido pelos dois, pela fotografia do ultrassom sobre o aparador e pela caixa de madeira que Renato montara para guardar as primeiras roupas da filha.
Na entrada do corredor, ele se colocou à frente dela.
— Não torne isso mais difícil.
— Saia da frente.
— Laura.
— O quarto da minha filha está ali.
O rosto de Renato endureceu.
— Não chame assim.
Ela demorou a entender.
— Como?
— Minha filha.
O ar-condicionado continuou soprando sobre as cortinas. Elisa pousou a taça no balcão com cuidado demais.
— Diga direito — pediu Laura.
Renato olhou para o ventre dela.
— Essa criança não é minha.
Uma fisgada atravessou a lombar de Laura. Ela segurou a borda do aparador até passar.
— Você sabe quando ela foi concebida.
— Sei o que você me contou.
— Nós passamos dezoito meses tentando.
— E, em fevereiro, você saiu para jantar com Adrian Cole.
Laura piscou.
— Meu antigo supervisor me ofereceu um trabalho de consultoria.
— À noite.
— Às sete. Num restaurante cheio. Eu contei quando cheguei.
Elisa cruzou os braços, e o polegar começou a roçar a haste da taça.
— Há fotografias — disse Renato.
— Fotografias de duas pessoas saindo de um restaurante provam o quê?
— Meu advogado tem mais do que fotografias.
— Então mostre.
Ele não mostrou.
Laura encarou a porta do escritório, entreaberta. A luz da impressora piscava, e uma folha recém-saída permanecia na bandeja com o cabeçalho do escritório Paes, Lobo & Mendonça.
— Você já chamou um advogado.
— Estou me protegendo.
— Antes de falar comigo.
— Eu tentei falar com você durante meses.
— Você tentou me fazer assinar papéis de recapitalização durante meses.
O maxilar dele travou.
Ali estava a primeira resposta verdadeira da noite.
Laura caminhou até o escritório. Renato segurou seu braço, sem força suficiente para machucar, mas com intimidade suficiente para fazê-la parar.
— Não entre.
Ela olhou para a mão dele.
— Solte.
Renato soltou.
Elisa se aproximou um passo.
— Talvez seja melhor você descansar em algum lugar tranquilo. Pelo bebê.
Laura virou o rosto.
— Não fale da minha filha.
— Eu só quis ajudar.
— Então vá embora da minha casa.
Renato respondeu antes de Elisa.
— O apartamento é meu.
Laura ficou imóvel.
Sua avó havia colocado nove milhões de reais na entrada. Laura lembrava da sala do banco, do advogado do espólio e da sociedade criada para registrar as participações.
Renato cuidava da administração. Isso nunca significara propriedade exclusiva.
— Tem certeza? — perguntou ela.
— Absoluta.
— E tem certeza de que Sofia não é sua?
Ele olhou o relógio.
— Oito minutos.
Laura tirou o celular da bolsa e abriu a câmera. Fotografou as malas, a folha na impressora e a taça de Elisa sobre o balcão.
— O que você está fazendo? — Renato avançou.
— Lembrando.
— Não crie um espetáculo.
— Você trouxe uma plateia.
Elisa pegou os sapatos, mas não saiu. Laura entrou no quarto do casal e encontrou gavetas abertas, cabides tortos e seu porta-joias revirado.
As joias herdadas da avó continuavam ali. O passaporte também.
Sobre a cama havia um envelope grosso. Ela não tocou nele; fotografou o nome do escritório e o horário mostrado no relógio digital.
22h06.
— Seus dez minutos estão acabando — disse Renato da porta.
Laura colocou o carregador, os remédios da gestação e a pasta dos exames na bolsa. Pegou o elefante cinza que comprara para Sofia e o acomodou entre duas blusas.
No corredor, a contração voltou. Mais longa.
Ela parou com uma mão na barriga.
— O que foi? — Renato perguntou.
Por um segundo, sua voz recuperou o homem que chorara diante do teste positivo.
Laura ergueu os olhos.
— Nada que seja financeiramente sua responsabilidade.
O rosto dele fechou outra vez.
Ela puxou as duas malas até o elevador. Nenhum dos dois se ofereceu para ajudar.
Quando a porta começou a fechar, Renato segurou o sensor.
— Meu advogado vai mandar um acordo pela manhã.
— Eu não vou assinar nada.
— Leia primeiro.
— Você devia ter feito isso com a prova que diz ter.
Ele retirou a mão. Elisa apareceu atrás de seu ombro, dourada sob a luz quente do apartamento.
— Laura — chamou Renato.
Ela apertou o botão do térreo.
— Lembre desta noite quando disser que não teve escolha.
As portas se fecharam.
Três andares depois, a alça de uma mala escapou de sua mão. A dor fechou a lombar e apertou seu ventre até suas pernas cederem.
Laura agarrou a barra de latão do elevador. Respirou contando até quatro, com o rosto multiplicado nos espelhos.
Quando a contração soltou, ela encostou a testa no metal frio.
— A gente vai ficar bem, Sofia.
No térreo, Miguel levantou assim que a viu. Tinha cinquenta e seis anos, cabelo grisalho cortado rente e o uniforme azul-marinho impecável, apesar da madrugada.
O olhar dele passou pelas malas e parou no suor sobre o lábio de Laura.
— Dona Laura, a senhora precisa de ajuda?
A gentileza quase a derrubou.
— Só um táxi.
Outra contração começou antes que Miguel alcançasse o telefone da portaria.
Ele discou três números.
— Não é táxi — disse, já chamando a ambulância.
Os paramédicos chegaram enquanto Miguel afastava curiosos do saguão. Uma mulher tentou filmar as malas com o celular; ele se colocou diante da câmera e pediu que respeitasse a moradora.
Laura entregou a pasta de exames ao socorrista. Ao subir na maca, viu o elevador abrir outra vez.
Renato apareceu sozinho.
Por um instante, ela acreditou que ele correria até a ambulância. O marido parou junto à porta giratória e ergueu o telefone, preocupado apenas com a presença de vizinhos.
— Laura, precisamos manter isso discreto.
Miguel fechou uma das portas da ambulância.
— A senhora quer que ele acompanhe?
Laura olhou para Renato. O paletó continuava perfeito, e a luz do apartamento ainda brilhava no quadragésimo andar.
— Não.
— Ela está nervosa — disse Renato ao paramédico. — Tivemos uma discussão conjugal.
O homem checou o aparelho de pressão.
— Ela está com contrações e pressão elevada. Vou conversar com a paciente.
Renato deu um passo adiante.
— Sou o marido.
— E ela respondeu.
Miguel fechou a segunda porta. Pela pequena janela traseira, Laura viu Renato levar a mão ao relógio antes de voltar ao prédio.
No trajeto, o socorrista perguntou quando as dores haviam começado. Laura respondeu com horários exatos: 22h11 no corredor, 22h16 no elevador, 22h22 no saguão.
— A senhora costuma marcar tudo assim?
— Trabalho com contratos.
O homem anotou.
O telefone dela recebeu um e-mail automático do escritório Paes, Lobo & Mendonça. O assunto dizia
PROPOSTA CONFIDENCIAL — PRAZO PARA ACEITE
.
Laura não abriu o anexo. Encaminhou a mensagem para uma conta pessoal que Renato desconhecia e fez uma captura da tela.
O prazo terminava às nove da manhã.
Dentro da bolsa, o elefante cinza pressionava a pasta pré-natal. Ela tocou o tecido pela abertura do zíper e deixou o aparelho virado para baixo.
A sirene cortou a Avenida Paulista. Entre um semáforo e outro, outra mensagem apareceu.
RENATO: Não envolva outras pessoas. Podemos resolver isso com maturidade.
Laura digitou uma única resposta.
Estou a caminho do hospital.
Dois sinais azuis surgiram imediatamente. Ele leu e não telefonou.
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