"Fingi Ser a Noiva do Chefe da Máfia" Capítulo 4 — Tire Esse Anel
Isabela não dormiu.
Às duas da manhã, ainda estava sentada na beirada da cama, com o celular numa mão e o anel na outra.
A fotografia de Camila permanecia aberta na tela.
Mesma pedra.
Mesmo aro.
Mesmo desenho.
Ela sentiu alguma coisa dentro do peito se transformar em raiva.
Não por Camila.
Por Dante.
Às seis e vinte, ouviu passos no corredor.
Dante estava voltando.
Isabela abriu a porta antes que ele chegasse ao próprio quarto.
"Dante."
Ele parou.
Ainda usava o terno da noite anterior. A gravata estava frouxa, o rosto cansado.
"Você está acordada."
"Infelizmente."
Ele percebeu o tom.
"O que aconteceu?"
Isabela caminhou até ele.
Sem dizer nada, tirou o anel.
E jogou.
Dante segurou no ar.
Por pouco.
O diamante bateu na palma dele.
"Tire isso da minha frente."
Dante olhou para o anel.
Depois para ela.
"Por quê?"
Isabela levantou o celular.
"Porque eu não sou Camila."
O rosto dele endureceu imediatamente.
"Quem te mandou isso?"
"Essa é sua primeira pergunta?"
"Responda."
"Não sei."
"Qual número?"
"Não importa."
"Importa para mim."
"E para mim importa saber por que você colocou no meu dedo o mesmo anel que deu para outra mulher."
Dante fechou a mão sobre a joia.
"Eu não te devo explicações sobre tudo."
Isabela riu sem humor.
"Claro."
Ela cruzou os braços.
"Eu só durmo no quarto onde sua noiva deveria dormir. Uso as roupas que você escolhe. Apareço ao seu lado diante de todo mundo. Finjo que vou me casar com você."
"Foi um acordo."
"Exatamente."
Ela apontou para o anel.
"Então por que usar aquilo?"
Dante não respondeu.
Isabela sentiu a raiva aumentar.
"Você precisava de uma mulher qualquer?"
"Não."
"Então precisava de uma substituta."
"Pare."
"Foi isso?"
"Eu disse para parar."
"Camila desapareceu, você guardou o vestido dela, guardou as fotos dela, guardou o anel dela e, quando precisou inventar uma noiva nova, colocou tudo em outra mulher."
Dante deu um passo à frente.
"Você não sabe do que está falando."
"Então me faça saber."
"Não é tão simples."
"Para você nunca é."
Ele apertou o maxilar.
Isabela continuou.
"Você controla tudo. Decide onde eu durmo, o que eu visto, o que eu posso perguntar, qual porta eu posso abrir."
Ela apontou para o próprio peito.
"Mas eu não sou uma peça da sua casa."
"Eu nunca disse que era."
"Não precisou."
Dante ficou em silêncio.
Isabela sentiu os olhos queimarem.
Aquilo a irritou ainda mais.
"Eu fui idiota."
"Por quê?"
"Porque ontem, por alguns minutos, eu esqueci que isso era mentira."
Dante respirou fundo.
Ela percebeu.
Não queria ter dito aquilo.
Mas agora não havia volta.
"Na pista de dança."
Isabela desviou o olhar.
"Eu quase acreditei em você."
Dante deu mais um passo.
"Isabela."
"Não."
Ela ergueu a mão.
"Agora você vai me ouvir."
Dante parou.
"Eu não vou passar três meses tentando descobrir se você está olhando para mim ou para uma mulher que sumiu."
A expressão dele mudou.
"Não faça isso."
"Então me conte a verdade."
Silêncio.
"Camila fugiu?"
Nada.
"Ela te deixou?"
Nada.
"Ou você fez alguma coisa com ela?"
Dante ergueu os olhos.
A frieza desapareceu.
"Não diga isso de novo."
A voz saiu baixa.
Pesada.
Isabela sustentou o olhar.
"Então diga você."
Dante abriu a mão.
O anel brilhou no centro da palma.
"Camila me traiu."
Isabela ficou imóvel.
Ele continuou.
"Não foi uma briga. Não foi medo de casamento. Não foi outro homem."
Dante caminhou até a janela.
"Aconteceu pouco antes da morte do meu pai."
Isabela não falou.
Pela primeira vez, ele estava contando sem que ela precisasse arrancar cada palavra.
"Augusto Montenegro tinha uma rota que usava para transportar documentos e dinheiro entre São Paulo e o interior."
Isabela franziu a testa.
"Dinheiro legal?"
Dante olhou para ela.
Ela entendeu.
"Continue."
"Pouquíssimas pessoas sabiam os horários."
"Camila sabia?"
"Sabia."
"Por quê?"
"Porque eu confiei nela."
A frase pareceu doer mais do que ele queria demonstrar.
Dante colocou o anel sobre um aparador.
"Naquela semana, alguém enviou as informações para um grupo rival."
Isabela ficou séria.
"E atacaram seu pai."
"Sim."
"Ele morreu ali?"
"Não."
Dante olhou para o chão por um instante.
"Foi ferido. Morreu dias depois."
Isabela sentiu o corpo esfriar.
"E vocês descobriram que foi Camila?"
"Encontraram mensagens."
"Que mensagens?"
"Registros no telefone dela. Contato com um número ligado aos homens que atacaram meu pai."
"Você viu?"
"Vi."
"Ela admitiu?"
"Não teve oportunidade."
"Por quê?"
Dante ergueu os olhos.
"Porque desapareceu."
Isabela ficou em silêncio.
Tudo parecia se encaixar.
E ao mesmo tempo, alguma coisa não encaixava.
"Quando?"
"Dois dias depois da morte dele."
"E nunca mais apareceu?"
"Não."
"Nem uma ligação?"
"Não."
"Nem para você?"
"Não."
Isabela o observou.
Agora entendia uma parte dele.
Aquela necessidade de controlar tudo.
As regras.
A distância.
"Foi por isso que você nunca mais confiou em ninguém."
Dante deu um sorriso amargo.
"Você fala como se fosse um mistério complicado."
"Para você talvez seja."
"Para mim é simples."
Ele olhou para o anel.
"Amor torna as pessoas descuidadas."
Isabela não gostou da frase.
"Não."
Dante arqueou uma sobrancelha.
"Não?"
"Traição torna as pessoas amargas."
Ela se aproximou.
"Não é a mesma coisa."
Dante ficou imóvel.
"Você ainda acredita muito nas pessoas."
"E você acredita pouco."
"Isso me manteve vivo."
"Talvez."
Isabela pegou o celular.
"Mas alguma coisa nessa história está errada."
Dante perdeu a paciência.
"O quê?"
"Você disse que as mensagens foram enviadas naquela semana."
"Sim."
"Que dia?"
Ele pensou.
"Quarta-feira."
"Tem certeza?"
"Tenho."
Isabela olhou para a tela.
A fotografia que recebera tinha informações salvas no arquivo.
Ela abriu os detalhes.
"Essa foto de Camila foi tirada na mesma semana."
"E daí?"
"No Hospital Santa Helena."
Dante olhou.
"Como sabe?"
"No reflexo atrás dela."
Isabela ampliou a imagem.
Na parede de vidro, quase apagado, aparecia o nome do hospital.
"Ela estava internada?"
"Não que eu saiba."
"Então descubra."
Dante ficou irritado.
"Não vou reabrir tudo porque uma mensagem anônima apareceu no seu celular."
"Você não precisa."
"Isabela."
"Eu vou."
Ele se virou de imediato.
"Não."
"Isso não é uma ordem que você pode dar."
"Pode ser perigoso."
"Para quem?"
"Para você."
Ela se aproximou.
"Então você também acha que existe algo ali."
Dante não respondeu.
Naquela tarde, Isabela saiu sozinha.
Não avisou Dante.
Pediu um carro por aplicativo e foi até o Hospital Santa Helena, no Morumbi.
A recepção havia sido reformada desde três anos antes, mas os registros antigos ainda estavam no sistema.
Ela inventou uma história.
Disse que procurava informações de uma parente desaparecida.
A atendente recusou.
"Sem autorização, não posso mostrar prontuário."
"Eu não preciso do prontuário completo."
"Mesmo assim."
Isabela respirou fundo.
"Então só me diga se essa pessoa esteve aqui."
Mostrou uma foto.
A atendente hesitou.
Depois olhou em volta.
"Nome?"
"Camila Azevedo."
A mulher digitou.
Parou.
"Ela esteve."
Isabela sentiu o coração acelerar.
"Quando?"
"Não posso dizer."
"Por favor."
A atendente ficou desconfortável.
"Olha, eu já falei demais."
Isabela guardou o celular.
"Ela estava aqui numa quarta-feira?"
Silêncio.
Isso bastou.
Isabela voltou para a mansão quase correndo.
Dante estava no escritório.
Ela entrou sem bater.
Ele levantou os olhos.
"Você foi ao hospital."
"Como sabe?"
"Bruno."
"Então manda seu segurança parar de me seguir."
"Isso não vai acontecer."
"Ótimo. Depois discutimos."
Ela colocou uma folha impressa sobre a mesa.
Dante olhou.
"Consegui confirmar que Camila deu entrada no Hospital Santa Helena às sete e quarenta daquela manhã."
"E?"
"E ficou lá até a noite."
Dante ficou sério.
Isabela colocou outra folha.
"Agora olha isso."
Era uma cópia dos registros usados na investigação interna da família.
"Você disse que ela enviou as informações às dez e quinze."
"Sim."
"Então me explica como."
Dante leu.
"O telefone podia estar com ela."
"Podia."
"Então isso não prova nada."
"Eu também pensei."
Isabela puxou outra folha.
"Por isso pedi ajuda a Helena."
Dante ergueu os olhos.
"Sua irmã?"
"Ela trabalha com sistemas hospitalares."
"Você envolveu sua irmã nisso?"
"Ela só verificou uma coisa."
Isabela apontou para a linha.
"Camila passou por sedação naquele horário."
Dante ficou imóvel.
"Sedação?"
"Das nove e cinquenta até quase meio-dia."
O silêncio mudou de peso.
Dante olhou de novo para os registros.
"Então alguém poderia ter usado o telefone dela."
"Exatamente."
Ele se levantou.
"Quem confirmou originalmente que os registros eram autênticos?"
Isabela já sabia a resposta.
Tinha encontrado no rodapé do relatório.
Ela virou a última página.
Ali havia uma assinatura.
Dante leu.
Seu rosto perdeu qualquer expressão.
"Não."
Isabela permaneceu em silêncio.
Ele pegou o documento.
Leu de novo.
A assinatura continuava ali.
Responsável pela validação dos registros.
Ricardo Montenegro.
Dante levantou os olhos.
"Ele estava comigo naquele dia."
"Então alguém mentiu."
Dante apertou a folha.
Isabela respirou fundo.
"Talvez Camila não tenha traído sua família."
Ele ficou imóvel.
Isabela terminou:
"Talvez alguém tenha feito você acreditar que ela traiu."
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