"Fingi Ser a Noiva do Chefe da Máfia" Capítulo 3 — A Mulher Que Ia Se Casar Com Dante
Isabela passou a manhã inteira evitando Dante.
Não porque tivesse medo dele.
Porque ainda carregava na cabeça a frase escrita atrás da fotografia.
"Se alguma coisa acontecer comigo, não acredite em Dante."
Ela devolvera a foto à caixa antes de sair do quarto proibido, mas aquela frase parecera vir junto com ela.
No café da manhã, Dante estava sentado à cabeceira da mesa lendo mensagens no celular.
Isabela entrou usando um vestido simples azul-marinho.
Ele levantou os olhos.
"Você está atrasada."
"Não sabia que noivas falsas batiam ponto."
Dante colocou o celular sobre a mesa.
"Está com algum problema?"
Isabela puxou a cadeira.
"Estou ótima."
"Você ficou ótima muito rápido."
Ela pegou café.
Dante continuou olhando.
"Você entrou naquela sala?"
A mão de Isabela parou no ar.
Por um segundo, pensou em mentir.
"Entrei."
Dante ficou imóvel.
"Eu disse para não entrar."
"A porta estava aberta."
"Isso não é permissão."
"Também não é motivo para guardar um vestido de noiva como se fosse segredo de Estado."
O maxilar dele se contraiu.
"Não fale sobre isso."
"Camila Azevedo."
Dante não piscou.
Mas alguma coisa no rosto dele endureceu.
Isabela percebeu.
"Então esse é o nome que ninguém pode dizer."
"Valentina falou demais."
"Ela falou o suficiente."
Dante empurrou a cadeira para trás.
A refeição tinha acabado.
"Camila não tem nada a ver com você."
"Ela ia se casar com você."
"Isso foi há três anos."
"E desapareceu uma semana antes."
Dante ficou de pé.
"Pare."
"Por quê?"
Ele a encarou.
"Porque você não sabe o que aconteceu."
"Então me conte."
"Não."
Isabela se levantou também.
"Você quer que eu finja ser sua noiva diante de São Paulo inteiro, mas não pode me dizer por que sua última noiva desapareceu?"
"São assuntos diferentes."
"Não parecem."
Dante aproximou-se.
"Camila fez escolhas."
"Que escolhas?"
"Isabela."
"Ela fugiu?"
Silêncio.
"Te traiu?"
Silêncio.
"Você fez alguma coisa com ela?"
A expressão de Dante mudou.
Não foi raiva imediata.
Foi pior.
Uma espécie de dor que ele tentou esconder rápido demais.
"Saia da mesa."
Isabela sustentou o olhar.
"Essa é sua resposta?"
"Minha resposta é que você está ultrapassando um limite."
"E você ultrapassou vários quando colocou esse anel no meu dedo."
Dante olhou para a mão dela.
"Então tire."
Isabela não esperava.
Ele continuou.
"Se não consegue separar nosso acordo do meu passado, tire o anel e vá embora."
Ela sentiu o peito apertar.
"Você quer isso?"
Dante demorou um segundo a mais do que deveria.
"Quero que siga as regras."
Isabela empurrou a cadeira.
"Então talvez você devesse começar seguindo a sua."
"Qual?"
"Não se apaixonar."
Ela saiu antes que ele respondesse.
À tarde, o nome de Isabela Oliveira já circulava por toda a alta sociedade paulistana.
Portais de celebridades publicavam fotos dela entrando na Mansão Montenegro.
Colunas sociais tentavam descobrir de onde vinha.
Alguns diziam que era empresária.
Outros juravam que era herdeira de uma família do interior.
Até que alguém encontrou uma fotografia antiga dela usando uniforme de serviço.
A manchete se espalhou.
A nova noiva de Dante Montenegro trabalhava na própria casa dele.
Às seis da tarde, Teresa entrou no quarto de Isabela segurando um tablet.
"Não leia os comentários."
Isabela estava diante do espelho enquanto uma maquiadora terminava seu cabelo.
"Agora eu preciso ler."
"Não precisa."
"Isso significa que são horríveis."
Teresa suspirou.
"Alguns."
Isabela pegou o tablet.
Leu três.
Parou.
"Empregada com sorte."
"Golpista."
"Alguém devia verificar quanto ela cobrou."
Teresa tirou o aparelho de sua mão.
"Pronto."
Isabela respirou fundo.
"Eu sabia que iam falar."
"Saber não impede de doer."
"Não está doendo."
Teresa a olhou pelo espelho.
"Você e Dante têm esse defeito em comum."
"Qual?"
"Mentem mal quando estão machucados."
A porta se abriu.
Dante entrou.
Ele parou assim que viu Isabela.
O vestido verde-esmeralda tinha caimento elegante, sem exagero.
O cabelo escuro caía sobre um dos ombros.
Por alguns segundos, Dante não disse nada.
Teresa percebeu.
Sorriu.
"Vou deixar vocês."
Isabela esperou até a porta fechar.
"Se veio falar sobre Camila, pode economizar."
"Vim falar sobre esta noite."
"Ótimo."
"Vai haver fotógrafos."
"Eu sei."
"Ricardo estará lá."
"Eu imaginei."
"Valentina também."
Isabela olhou para ele.
"Isso era para me deixar nervosa?"
"Era para te preparar."
Ela se aproximou.
"Então prepare-se também."
"Para quê?"
"Se alguém me perguntar como você me pediu em casamento, eu vou inventar."
Dante ergueu a sobrancelha.
"Não invente demais."
"Agora está com medo?"
"De você? Cada vez mais."
O jantar beneficente aconteceu no Hotel Imperial, no Itaim Bibi.
Quando o carro parou diante da entrada, dezenas de flashes explodiram do lado de fora.
Isabela travou.
Dante percebeu.
"Olhe para mim."
Ela obedeceu.
"Não para eles."
"Fácil falar."
"Você mentiu para vinte Montenegro sem piscar."
"Eu estava com raiva."
"Então fique com raiva."
A porta abriu.
Dante saiu primeiro.
Estendeu a mão.
Isabela hesitou apenas um instante.
Depois segurou.
Assim que apareceu, os fotógrafos começaram a gritar seu nome.
"Dante!"
"Isabela!"
"Mostra o anel!"
"Quando vai ser o casamento?"
Dante não respondeu.
Colocou a mão nas costas de Isabela e a conduziu para dentro.
No salão, as pessoas olharam.
Todas.
Isabela percebeu na mesma hora.
Não estavam olhando para o vestido.
Nem para Dante.
Estavam olhando para ela como se tentassem entender como uma mulher como ela havia entrado naquele mundo.
Perto do bar, duas mulheres conversavam em voz baixa.
Baixa demais para parecer acidental.
"Ontem empregada. Hoje Montenegro?"
A outra riu.
"São Paulo realmente está ficando democrático."
Isabela parou.
Dante não estava ao lado dela.
Tinha sido chamado por um empresário alguns metros atrás.
As duas mulheres perceberam que ela ouvira.
Uma delas sorriu.
"Não leve para o lado pessoal."
Isabela se aproximou.
"Não levo."
A mulher ergueu a taça.
"Deve ser estranho estar aqui."
"Um pouco."
"Principalmente sem conhecer ninguém."
"Conheço algumas pessoas."
"Quem?"
Isabela olhou ao redor.
"Os garçons."
A mulher franziu a testa.
Isabela continuou.
"E posso garantir que metade deles tem mais educação do que muita gente nesta sala."
O sorriso da socialite sumiu.
Foi nesse momento que Dante chegou.
Ele tinha ouvido.
Isabela percebeu pelo jeito como ele olhou para as duas.
Uma delas tentou se explicar.
"Dante, nós só estávamos conversando."
Ele nem respondeu.
Apenas estendeu a mão para Isabela.
"Minha noiva dança comigo."
O salão inteiro pareceu perceber.
Isabela olhou para a mão dele.
Depois para o rosto.
"Você dança?"
"Quando necessário."
"Isso é um sim?"
"É uma ordem."
Ela sorriu.
"Então é um não."
Mesmo assim, colocou a mão na dele.
A música era lenta.
Dante a levou para o centro da pista.
Isabela colocou uma mão no ombro dele.
A outra permaneceu presa à dele.
"Você faz isso para irritar as pessoas?"
"Às vezes."
"Então está funcionando."
Dante aproximou-se um pouco mais.
"Está nervosa?"
"Não."
"Mentira."
"Você está me segurando forte demais."
"Outra mentira."
Isabela olhou para ele.
"Você sempre precisa ter a última palavra?"
"Sim."
"Que vida triste."
Dante quase sorriu.
Quase.
Eles giraram lentamente.
Por alguns segundos, o salão parececeu desaparecer.
Isabela esqueceu Ricardo.
Esqueceu Camila.
Esqueceu que aquilo era um acordo.
Dante aproximou o rosto.
"Você está me olhando estranho."
"Estou tentando descobrir se você sabe mesmo dançar."
"E?"
"Infelizmente, sabe."
A mão dele deslizou um pouco pela cintura dela.
Isabela sentiu a respiração falhar.
Dante percebeu.
"Agora ficou nervosa."
"Não se empolgue."
"Regra quatro."
Ela estreitou os olhos.
"Não se apaixonar."
Dante falou baixo.
"Eu lembro."
A música terminou.
Mas nenhum dos dois se afastou imediatamente.
Foi Ricardo quem quebrou o momento.
"Que cena bonita."
Dante soltou Isabela.
Ricardo estava alguns passos atrás.
"Quase convence."
Isabela sentiu a tensão voltar.
Ricardo olhou para o anel.
"Curioso."
"Curioso o quê?"
"Ele ter escolhido justamente esse."
Dante ficou frio.
"Ricardo."
"Eu só achei interessante."
"Vá embora."
Ricardo sorriu para Isabela.
"Pergunte a ele sobre o anel."
Dante avançou um passo.
Ricardo levantou as mãos.
"Boa noite."
Ele saiu.
Isabela olhou para Dante.
"Todo mundo sabe alguma coisa menos eu."
"Não hoje."
"Quando?"
"Quando eu decidir."
"Isso está ficando cansativo."
Dante não respondeu.
A volta para a mansão foi silenciosa.
Isabela subiu para o quarto sozinha.
Tirou os brincos.
Depois os sapatos.
Ficou alguns segundos diante do espelho.
O anel brilhava em sua mão.
Ela pensou em tirá-lo.
O celular vibrou sobre a penteadeira.
Número desconhecido.
Isabela abriu a mensagem.
Havia apenas uma frase.
"Camila também usou esse anel."
O sangue de Isabela gelou.
Abaixo da frase havia uma fotografia.
Ela ampliou.
Camila estava sorrindo.
Dante aparecia ao fundo.
E na mão esquerda da mulher havia o mesmo diamante.
A mesma pedra.
O mesmo desenho.
O mesmo anel que agora estava no dedo de Isabela.
O celular vibrou outra vez.
Uma segunda mensagem apareceu.
"Pergunte a Dante onde Camila está de verdade."
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