"Fingi Ser a Noiva do Chefe da Máfia" Capítulo 2 — A Aliança
Isabela acordou antes das seis da manhã com a sensação de que tinha sonhado tudo.
Então levantou a mão.
O diamante ainda estava em seu dedo.
Por alguns segundos, ficou sentada na cama estreita do quarto de funcionários, encarando o anel como se ele pudesse desaparecer sozinho.
Não desapareceu.
Às seis e quinze, alguém bateu na porta.
Isabela abriu.
Teresa, a governanta da casa, estava acompanhada por dois funcionários carregando malas vazias.
"Bom dia, senhora Isabela."
Isabela piscou.
"Desculpe?"
A governanta manteve a expressão séria.
"Senhora Isabela."
"Não me chame assim."
"Ordem do senhor Dante."
Isabela fechou os olhos.
Aquilo só podia piorar.
"Para que são essas malas?"
"Vamos transferir suas coisas."
"Transferir para onde?"
A governanta apontou para o teto.
"Segundo andar."
Isabela soltou uma risada curta.
"Não."
"A senhora prefere que eu diga isso ao senhor Dante?"
Isabela olhou para as malas.
Depois para a própria cama.
"Ele fez isso de propósito."
"Provavelmente."
Em menos de vinte minutos, toda a área de serviço já sabia.
Isabela atravessou o corredor carregando uma caixa com roupas simples, enquanto cozinheiras, faxineiras e funcionários fingiam não olhar.
Fingiam mal.
No dia anterior, ela havia limpado a prataria.
Naquela manhã, um dos seguranças abriu a porta da escada principal para ela.
"Bom dia, senhora Isabela."
Ela parou.
"Se mais uma pessoa me chamar assim antes do café, eu vou embora."
O segurança quase sorriu.
Quando chegou ao segundo andar, encontrou Dante esperando no corredor.
Terno preto.
Café na mão.
Nenhum sinal de arrependimento.
Isabela colocou a caixa no chão.
"Isso é ridículo."
"Bom dia para você também."
"Eu tinha um quarto."
"Agora tem outro."
"Eu não pedi."
"Minha noiva não pode dormir ao lado da lavanderia."
"Eu não sou sua noiva."
Dante olhou para a mão dela.
"O anel discorda."
Isabela puxou a mão para trás.
"Eu ainda posso devolver."
"Pode."
Ela esperou.
Dante bebeu o café.
"Mas não vai."
"Você tem certeza demais de si mesmo."
"É um defeito antigo."
Ele abriu uma porta.
O quarto era maior que o apartamento inteiro de Isabela no Bixiga.
Havia janelas voltadas para o jardim, uma cama enorme, varanda, banheiro de mármore e um closet vazio.
Isabela entrou devagar.
"Isso tudo para três meses?"
"Para uma mentira convincente."
"Você costuma mentir com muito luxo."
"Ajuda."
Ela colocou a caixa sobre a cama.
Foi então que percebeu outra porta, no fim do corredor.
Escura.
Fechada.
Com uma fechadura antiga.
Dante notou o olhar dela.
"Não."
Isabela virou.
"Eu não perguntei nada."
"Mas ia perguntar."
"Você lê pensamentos?"
"Os seus são muito barulhentos."
Ela cruzou os braços.
Dante apoiou a xícara sobre uma mesa.
"Precisamos estabelecer regras."
"Claro."
"Primeira: você não pergunta sobre meus negócios."
"Que negócios?"
Ele a encarou.
Isabela sorriu.
"Já entendi."
"Segunda: você não entra no meu escritório sem autorização."
"Isso parece razoável."
"E não entra naquela sala."
Ele apontou para a porta trancada.
Isabela olhou de novo.
"Por quê?"
"Você acabou de quebrar a primeira regra."
"Não. A primeira era sobre negócios."
Dante respirou fundo.
"Então considere esta uma extensão."
"Está escondendo cadáveres lá dentro?"
"Isabela."
"Foi só uma pergunta."
"Não entre."
Ela percebeu que, pela primeira vez desde que começara aquela conversa, o tom dele tinha mudado.
Não era irritação.
Era algo mais pesado.
Ela deixou a curiosidade de lado.
"Qual é a terceira?"
Dante hesitou por um instante.
"Não se apaixone por mim."
Isabela ficou em silêncio.
Depois soltou uma risada.
Dante franziu a testa.
"Está rindo de quê?"
"De você."
"Eu estava falando sério."
"Isso torna pior."
Ele cruzou os braços.
"Vai facilitar quando o acordo terminar."
Isabela caminhou até ficar diante dele.
"E você?"
"O quê?"
"Também não pode se apaixonar por mim."
Dante abriu a boca.
Nenhuma palavra saiu.
Isabela arqueou uma sobrancelha.
"Algum problema?"
Ele recuperou a expressão fria.
"Não."
"Ótimo."
Ela pegou a caixa sobre a cama.
"Então agora temos quatro regras."
"Eu disse três."
"Eu acabei de acrescentar uma."
Dante virou para sair.
"Às nove, você terá roupas novas."
"Eu tenho roupas."
"Você tem três vestidos."
"Como sabe?"
Ele parou na porta.
"Porque Bruno verificou."
Isabela ficou indignada.
"Você mandou um segurança mexer nas minhas coisas?"
"Ele não mexeu."
"Então como sabe?"
Dante respondeu sem olhar para ela.
"Você fala dormindo."
A porta se fechou.
Isabela ficou parada.
Cinco segundos depois, abriu a porta.
"Dante!"
Ele já tinha desaparecido no corredor.
Ao meio-dia, a mansão parecia outra.
Uma equipe enviada por uma loja dos Jardins chegou com vestidos, sapatos, bolsas e caixas demais para caber no closet.
Isabela recusou metade.
A outra metade, Teresa obrigou que ela experimentasse.
"Você não precisa gostar."
Teresa estava sentada em uma poltrona, já muito melhor depois do susto da noite anterior.
"Precisa parecer que pertence a esta casa."
Isabela ajustou um vestido verde-escuro.
"Eu não quero parecer que pertenço."
Teresa sorriu.
"Esse é o seu problema."
"Qual?"
"Você já começou a pertencer."
Isabela ficou séria.
Antes que pudesse responder, o som de um carro entrando no pátio chamou atenção.
Teresa olhou pela janela.
O sorriso desapareceu.
"Ah."
"Quem chegou?"
"Problema."
Poucos minutos depois, saltos ecoaram no mármore do hall.
Valentina Ferraz entrou na mansão sem esperar ser anunciada.
Alta, elegante, cabelo preto perfeitamente liso, vestido bege de corte impecável.
Ela parecia pertencer àquela casa mais do que qualquer pessoa.
Isabela desceu a escada devagar.
Valentina levantou os olhos.
Olhou para o vestido.
Depois para o anel.
"Então é verdade."
Isabela parou no último degrau.
"Depende do que disseram."
"Que Dante Montenegro ficou noivo de uma mulher que trabalhava nesta casa."
"Isso é verdade."
Valentina se aproximou.
Isabela esperou um insulto.
Ele não veio.
Valentina apenas estendeu a mão.
"Valentina Ferraz."
"Isabela Oliveira."
"Eu sei."
As duas apertaram as mãos.
"Você veio me conhecer?"
Valentina olhou ao redor.
"Vim confirmar se Dante tinha perdido a cabeça."
"Conclusão?"
"Estou considerando."
Isabela quase riu.
Valentina se sentou.
"Posso tomar café?"
"Você sempre entra assim na casa dos outros?"
"Só nesta."
"Então vocês são próximos."
Valentina levantou os olhos.
"Já fomos."
A frase ficou no ar.
Teresa apareceu no corredor.
"Valentina."
"Tia Teresa."
As duas se abraçaram.
Isabela percebeu imediatamente.
Aquilo não era uma visitante qualquer.
Teresa pediu café.
Valentina permaneceu até que todos os funcionários saíssem.
Então olhou novamente para o anel.
"Ele contou?"
Isabela sentiu o corpo endurecer.
"Contou o quê?"
Valentina soltou uma respiração curta.
"Claro que não."
Teresa mudou de expressão.
"Valentina."
"Ela precisa saber."
"Saber o quê?"
Valentina apoiou a xícara.
"Três anos atrás, Dante também estava noivo."
Isabela olhou para Teresa.
A mulher permaneceu em silêncio.
"Com você?"
Valentina soltou uma risada sem humor.
"Não."
"Então com quem?"
Valentina hesitou.
"Camila Azevedo."
O nome pareceu mudar o ar da sala.
"Quem era ela?"
"Alguém que Dante amava."
Isabela sentiu uma pontada estranha.
Rejeitou o sentimento imediatamente.
Aquilo não era ciúme.
Era curiosidade.
"Se ele a amava, por que não se casaram?"
Valentina encarou Teresa antes de responder.
"O casamento seria num sábado."
Fez uma pausa.
"Camila desapareceu sete dias antes."
Isabela franziu a testa.
"Desapareceu?"
"Sem mala. Sem despedida. Sem mensagem."
"Chamaram a polícia?"
Teresa respondeu.
"Chamamos."
"E encontraram alguma coisa?"
"Nada."
Valentina cruzou as pernas.
"Depois de algumas semanas, Dante proibiu todo mundo de mencionar o nome dela."
Isabela olhou para o próprio anel.
Sentiu o coração acelerar.
"Este anel era dela?"
Valentina não respondeu de imediato.
Teresa se levantou.
"Chega."
"Eu só quero saber."
"Pergunte a Dante."
"Ele não vai responder."
"Então talvez haja um motivo."
Isabela tirou o anel devagar.
Valentina acompanhou o movimento.
"Eu não vim aqui para te humilhar."
"Então por que veio?"
"Porque já vi uma mulher entrar nesta casa achando que conhecia Dante Montenegro."
Valentina se levantou.
"E vi como ela saiu."
"Ela não saiu. Você disse que desapareceu."
Valentina ficou imóvel.
Por um instante, alguma coisa atravessou o rosto dela.
Medo.
"Exatamente."
Ela pegou a bolsa.
Antes de sair, parou diante de Isabela.
"Se eu fosse você, faria uma pergunta."
"Qual?"
"Por que ele escolheu justamente aquele anel?"
Valentina foi embora.
Naquela noite, Dante não voltou para jantar.
Uma reunião na Faria Lima se estendeu até tarde.
Isabela tentou dormir.
Não conseguiu.
O anel estava sobre o criado-mudo.
À uma da manhã, levantou para buscar água.
O corredor estava escuro.
A casa completamente silenciosa.
Quando passou pela porta proibida, percebeu alguma coisa.
Ela não estava fechada.
Uma pequena fresta separava a madeira do batente.
Isabela parou.
Lembrou da regra.
Não entre.
Deu dois passos.
Parou novamente.
Uma corrente de ar fez a porta se abrir mais alguns centímetros.
Ela viu um pedaço do interior.
Um cabide.
Tecido branco.
Isabela empurrou a porta apenas o suficiente para olhar.
O quarto estava coberto por lençóis.
Móveis antigos.
Caixas.
E no centro, protegida por uma capa transparente, havia uma peça que não deveria estar ali.
Um vestido de noiva.
Longo.
Branco.
Intacto.
Isabela entrou um passo.
Depois outro.
No chão, ao lado do vestido, havia uma caixa aberta.
Dentro dela, uma fotografia.
Isabela pegou.
Era Dante.
Mais jovem.
Sorrindo.
Ao lado dele estava uma mulher usando aquele mesmo vestido.
No verso da fotografia havia uma data escrita à mão.
Sete dias antes do casamento.
E uma frase.
"Se alguma coisa acontecer comigo, não acredite em Dante."
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