"Ela Me Humilhou na Festa sem Saber Quem Controlava a Empresa do Marido" Capítulo 5
Clara demorou até conseguir repetir a conversa inteira.
Dois dias antes da festa, André chegara ao apartamento durante uma prova de arranjos. Viu o nome de Natália na lista de convidados e perguntou se era "a Reis ligada aos Moreira".
Lívia ouviu. Quis saber quanto Natália conhecia da aquisição e se tinha participado das negociações.
— Eu disse que você quase nunca falava da sua família — contou Clara. — Ela perguntou se você estava incomodada com a compra.
— Quantas vezes?
— Umas três.
Natália abriu o bloco de notas.
— E na festa?
— Ela ficava me perguntando se você parecia irritada. Eu achei que era medo de você não gostar dela.
— A Marina já estava contratada pelo André?
— Acho que sim. A Lívia disse que ela cuidaria de qualquer problema de imagem durante a transição.
Clara parou. O ar saiu aos poucos.
— Ela queria que você perdesse a cabeça.
Natália não respondeu. Escreveu horários aproximados ao lado de cada pedido: o balde, as taças, o prato, a mancha no bar, os sapatos.
Marina mudara de posição antes de cada confronto. Lívia perguntara duas vezes se Natália estava com raiva.
— Você me convidou porque queria que eu estivesse lá? — perguntou Natália.
— Queria. Eu ainda quero que você acredite nisso.
— Acredito.
— Minha festa foi uma armadilha?
Natália ouviu um soluço preso do outro lado.
— Você estava feliz. Essa parte era sua.
Clara chorou em silêncio. Natália esperou sem preencher o espaço.
— O que eu faço agora?
— Procura uma advogada que nunca tenha trabalhado para sua irmã, para o André ou para a família do seu noivo. Leva seus documentos. Deixa ela fazer as perguntas.
Clara chegou ao escritório da Moreira Global naquela noite, acompanhada por Bianca Teles. A advogada usava uma pasta fina, sem logotipo, e começou pedindo que todos explicassem quem representavam.
— Eu represento só a Clara — disse. — Qualquer troca de informação precisa respeitar isso.
Marcela concordou. Caio abriu a apresentação financeira sem exibir os documentos protegidos da companhia. Mostrou apenas dados ligados à titularidade fiduciária já identificada.
— Você tem conhecimento de um fundo criado pelo seu avô? — perguntou Bianca.
Clara assentiu.
— Minha irmã administra até eu completar trinta.
— Você recebe extratos?
— Ela dizia que eram difíceis de interpretar.
Bianca não reagiu. Deslizou uma autorização pela mesa.
— Leia. Se concordar, assine e nós pedimos tudo diretamente às instituições.
Clara leu as quatro páginas. Perguntou sobre alcance, prazo e confidencialidade. Assinou cada campo com a mão firme, embora apertasse o anel entre uma página e outra.
Caio ampliou o diagrama da Ponte Alta. Quarenta por cento levavam a Conrado Azevedo.
Outros quarenta, a uma sociedade do marido de Marina. O bloco restante terminava num código de fundo privado.
— O banco confirmou o beneficiário econômico preliminar — disse ele.
Virou a tela.
Clara Azevedo.
Ela tirou o anel, colocou-o sobre a mesa e esfregou a marca clara deixada no dedo. Logo depois, tornou a colocá-lo.
— Minha irmã usou o meu dinheiro?
— Vamos rastrear cada transferência antes de responder o alcance — disse Bianca.
Na manhã seguinte, os primeiros extratos chegaram. O fundo recebera ativos do avô de Clara quando ela tinha vinte e dois anos. Lívia, como administradora fiduciária, autorizara aportes na Ponte Alta sem explicar que a empresa receberia contratos do próprio cunhado.
Os pagamentos da Sistemas Montenegro entravam nas consultorias. Parte cobria serviços reais.
O restante era distribuído como lucros, remuneração de sócios e empréstimos entre empresas. O dinheiro voltava para reformas, parcelas de imóveis e uma linha de joias de Lívia que acumulava prejuízos.
O apartamento da festa tinha duas hipotecas. A casa no litoral estava dada como garantia.
André havia antecipado ações pessoais para cobrir dívidas privadas. A decoração que parecia sólida dependia de dinheiro circulando entre contratos frágeis.
Helena leu a planilha e empurrou os óculos para o alto da cabeça.
— Gente rica também quebra — disse. — Só escolhe uma iluminação melhor.
Natália soltou uma risada. Clara não conseguiu.
— Ela me dizia que cuidava de tudo para eu não me preocupar.
Bianca separou os extratos em três grupos.
— Confiança dispensa conferência até o dia em que alguém usa sua assinatura. A partir de hoje, você decide cada passo.
Clara pediu a remoção cautelar de Lívia da administração e autorizou medidas para impedir novas movimentações. Depois telefonou ao noivo no corredor. Voltou com os olhos vermelhos e uma lista escrita no verso de um envelope.
— Quero saber quanto saiu, para onde foi e quem aprovou. Quero as mensagens. Quero tudo que tiver meu nome.
Caio assentiu.
O acesso aos computadores da consultoria de Marina trouxe outra peça. Três meses antes do fechamento, ela preparara um plano de "contenção reputacional".
Um dos cenários previa acusações de interferência pessoal da família compradora. Outro recomendava registrar qualquer manifestação pública de Natália que parecesse agressiva, elitista ou vingativa.
— Ela me conhecia de foto — disse Natália.
— Tinha suas entrevistas sobre compras hospitalares — respondeu Marcela. — Também tinha o endereço do seu site profissional e imagens públicas.
— Por isso a Marina pediu uma foto assim que cheguei.
Helena folheou as capturas.
— Queriam uma identificação limpa antes de gravar o resto.
O plano precisava de um gatilho. Lívia forneceu vários até encontrar o que funcionasse.
Natália devia parecer uma herdeira mimada que usaria a compra para punir desafetos. O memorando falso entregaria motivo. O vídeo entregaria comportamento.
A câmera do condomínio entregou outra coisa.
As imagens mostravam Natália virando em direção ao elevador. Mostravam Lívia alcançando seu braço, puxando-a e empurrando-a com as duas mãos.
O vaso caía antes de Natália voltar para o centro do hall. A bofetada vinha depois, única e visível.
Marina também gravara o lançamento dos sapatos. O vídeo bruto fora copiado durante a perícia no aparelho corporativo que ela usava para o contrato.
— Ela guardou até a parte que estragava o plano — disse Clara.
— Pretendia cortar — respondeu Marcela.
Clara levantou-se e caminhou até a janela. O trânsito da Marginal parecia uma faixa vermelha lá embaixo.
— Minha irmã usou meu dinheiro, meu noivado e minha melhor amiga para salvar o cargo do marido.
Bianca pôs diante dela o pedido de substituição da administradora do fundo.
Clara voltou à cadeira, leu o primeiro parágrafo e assinou.
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