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"Ela Me Humilhou na Festa sem Saber Quem Controlava a Empresa do Marido" Capítulo 3

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André continuou segurando a notificação quando Natália apontou para a linha marcada no relatório.

— Dois vírgula oito acima de qual referência?

Ele apertou o papel até formar uma dobra no centro.

— Da taxa projetada para a vida útil.

— Quantas placas apresentaram falha?

— A equipe ainda está consolidando os lotes.

— Quantas já foram devolvidas?

— Eu não trouxe o sistema da empresa para a festa.

Natália virou o relatório para Marcela.

— Quero os números antes da reunião.

— A equipe de auditoria já está com acesso — respondeu a advogada.

Lívia soltou um som de impaciência.

— Você vai transformar minha casa numa sala de interrogatório por causa de uma placa?

Natália olhou para os cacos a poucos centímetros da sandália. Um garçom esperava com vassoura e pá, sem saber se podia entrar no espaço.

— Pode limpar — disse ela ao homem.

Lívia abriu a boca.

— E guarda os pedaços maiores numa caixa — acrescentou Marcela. — A administração do condomínio também deve preservar as imagens do hall.

O garçom assentiu e se agachou. Natália afastou-se para lhe dar passagem.

— Essa placa envia leituras para o monitor — continuou. — Uma falha pode apagar um dado, atrasar um alarme ou obrigar a equipe a trocar o equipamento. Qual cenário vocês registraram?

— Intermitência de comunicação — disse André. — Sem evento grave confirmado.

— Confirmado por quem?

— Pela área de qualidade.

— A mesma área que recebeu ordem para adiar a divulgação?

O rosto dele endureceu.

Helena pegou o relatório da mão da filha e o devolveu à pasta.

— O conselho pergunta amanhã. Natália vai ao pronto atendimento agora.

— Estou bem.

— Você manca quando tenta virar para a direita.

Natália apoiou os dois pés. A fisgada voltou da lateral do quadril até a lombar.

— Um pouco.

— Então vamos.

Na saída, Clara abraçou Natália com cuidado, evitando tocar suas costas. Lívia observou as duas junto ao bar. André havia desaparecido pelo corredor com a notificação dobrada no bolso.

— Eu te ligo — sussurrou Clara.

— Amanhã.

— Eu devia ter parado isso antes.

— Amanhã, Clara.

Helena segurou a porta do elevador. Roberto entrou por último, levando as duas pastas. Marcela permaneceu no apartamento para recolher nomes, garantir a preservação das câmeras e fotografar os cacos depois da limpeza inicial.

No carro, Helena apoiou uma bolsa de gelo improvisada contra o lado de Natália. O motorista seguiu para um pronto atendimento particular em Higienópolis.

— Você trouxe documentos de aquisição para um jantar? — perguntou Natália.

— O fechamento terminou tarde — respondeu Roberto. — Eu pretendia levar tudo para o escritório.

— Na limusine.

— O carro é blindado.

Helena manteve a bolsa de gelo no lugar.

— Fica quieta por cinco minutos.

— Ela quer saber se você planejou uma entrada dramática — disse Roberto.

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— Eu queria saber se vocês andam com o controle acionário no porta-malas.

— Tecnicamente, estava no banco.

Natália riu e a dor cortou a risada. Helena pressionou a bolsa com mais firmeza.

O exame mostrou uma contusão no quadril, outra na lombar e um corte superficial no tornozelo. Nenhuma fratura. A médica registrou as marcas no pulso, limpou o ferimento e orientou repouso.

Antes de sair, Natália pediu uma cópia do prontuário e guardou a pulseira de atendimento num envelope. Helena fotografou o tornozelo sob a luz branca do consultório e enviou as imagens para Marcela, sem publicar ou encaminhar a mais ninguém.

— Eu consigo cuidar disso — disse Natália.

— Eu sei. Agora temos horário, registro e identificação de quem examinou.

Às sete e doze da manhã, o telefone de Natália vibrou na mesa de cabeceira.

Lívia.

Ela deixou tocar duas vezes antes de atender.

— Natália.

— Lívia.

— Você precisa consertar isso.

— O vaso?

— A situação do André.

Natália sentou devagar. O lado direito das costas reclamou.

— A investigação começou antes da festa.

— Você espera que eu acredite?

— Espero que leia as datas.

— Você me bateu dentro da minha casa.

— Você me segurou e me empurrou. Suas câmeras gravaram.

O silêncio durou quatro segundos.

— Foi um acidente.

— A câmera decide como parece.

Lívia baixou o tom.

— Se tirarem a presidência dele, nós perdemos compromissos importantes.

— Que compromissos?

— Isso não é da sua conta.

— Se foram pagos com dinheiro da empresa, agora é.

A chamada terminou.

Natália ficou olhando a tela. Mandou a gravação automática da ligação para Marcela e vestiu uma calça larga que não apertava a contusão. Helena enviara um carro, um fisioterapeuta e três mensagens; Natália recusou os dois primeiros e respondeu à terceira com uma foto do café.

A reunião temporária do conselho começou às nove. A sede da Sistemas Médicos Montenegro ocupava seis andares de um prédio na Vila Olímpia. Funcionários atravessavam a recepção em grupos pequenos, todos atentos aos crachás Moreira que surgiram durante a madrugada.

Natália entrou usando o nome Reis. O segurança conferiu a lista duas vezes.

Na sala, Roberto ocupou uma ponta da mesa. Helena sentou ao lado dos advogados.

André chegou com o mesmo terno da noite anterior e outra camisa. Não olhou para Natália.

Caio Nunes, responsável pela equipe forense, projetou os primeiros números. Duas consultorias haviam recebido cerca de trinta e um milhões de reais em quatro anos. Faltavam contratos detalhados, entregas verificáveis e justificativas para reajustes sucessivos.

As duas empresas remetiam a uma holding chamada Ponte Alta Participações.

— Beneficiário final? — perguntou Helena.

— Ainda estamos abrindo as camadas — respondeu Caio. — Há veículos no exterior e procurações cruzadas.

André apoiou os antebraços na mesa.

— Serviços foram prestados. Estratégia de mercado, relações institucionais, expansão privada.

— Trinta e um milhões — disse Natália. — Mostra uma entrega.

Caio mudou o slide. Havia apresentações genéricas, relatórios copiados de bases públicas e notas fiscais com descrições repetidas.

Ana Meireles entrou carregando um arquivo cinza e uma pilha de e-mails. Pediu licença ao conselho e recusou a cadeira vazia. Preferiu ficar em pé.

— A área de conformidade tentou escalar os pagamentos no ano passado.

Roberto juntou as mãos.

— Para quem?

— Para a presidência.

André balançou a cabeça.

— Nunca recebi.

Ana colocou a primeira folha diante dele.

— Protocolo de entrega. Página um.

Na tela, Caio abriu os registros do servidor. A mensagem havia sido recebida, lida e encaminhada usando as credenciais de André.

— Meu gabinete gerencia essa caixa — disse ele.

Virou-se para o homem sentado duas cadeiras adiante.

— Foi o Eduardo que mexeu nessa caixa.

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