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"Ela Me Humilhou na Festa sem Saber Quem Controlava a Empresa do Marido" Capítulo 1

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Os sapatos de couro creme bateram no piso de mármore e deslizaram até encostar na sandália de Natália.

Uma das taças parou no ar. O quarteto continuou tocando junto à varanda, ainda alheio ao que acontecia no hall. Marina Queiroz ergueu o celular alguns centímetros, enquadrando os sapatos, Natália e o sorriso da anfitriã.

— Já que você gosta tanto de ajudar, pode dar um trato neles — disse Lívia Montenegro. — Tem flanela no lavabo.

Natália baixou os olhos. Depois olhou para Clara, parada perto da parede de orquídeas com uma das mãos sobre o anel de noivado.

Clara moveu a cabeça, quase imperceptível.

— Lívia, chega.

A irmã nem se virou.

Natália chegou ao apartamento duas horas antes carregando um vinho tinto de vinte e oito reais. Clara havia descoberto a garrafa durante uma viagem de trabalho a Bento Gonçalves e mandara uma foto na véspera: "Se achar, traz. Quero beber com você antes do discurso."

O elevador privativo se abriu para uma sala de três níveis com vista para o Parque Ibirapuera. Garçons de camisa branca circulavam entre um paredão de espumantes e arranjos de orquídeas que ocupavam aparadores inteiros. Um quarteto afinava instrumentos perto dos janelões.

Lívia recebeu a garrafa com dois dedos.

— Você trouxe isso?

— Foi o que a Clara pediu.

— Eu imaginei que vocês duas brincavam quando falaram dessa marca.

Natália abriu um sorriso curto.

— Custou vinte e oito. Ainda sobrou para o estacionamento.

Lívia entregou a garrafa a um garçom sem olhar para ele. O homem levou o vinho para a cozinha.

— A Clara disse que você trabalha com hospitais.

— Desenvolvimento de produto. Também faço avaliação para compras técnicas.

— Como autônoma?

— Consultora.

— Deve ser instável.

Marina apareceu ao lado da anfitriã, vestida de prata e segurando o celular na vertical. Perguntou se Natália faria uma foto com as duas. Quando Natália recusou, Marina deixou a câmera ligada enquanto fingia responder uma mensagem.

Lívia passou a apresentar a convidada como "a amiga freelancer da Clara". Em cada roda acrescentava um detalhe novo: morava de aluguel, trabalhava sozinha, havia escolhido um vestido verde simples para uma festa de cobertura. Natália corrigiu duas informações e desistiu na terceira.

Queria ver Clara feliz. As duas se conheceram num projeto de modernização de equipamentos do Hospital São Jerônimo. Clara coordenava a implantação; Natália discutia com fornecedores que prometiam interfaces intuitivas e entregavam telas que confundiam enfermeiros durante plantões.

Numa madrugada de testes, dividiram café de máquina e uma coxinha fria. A amizade cresceu em ambientes onde sobrenome e decoração valiam pouco diante de um monitor travado.

Às oito e vinte, Lívia colocou um balde vazio nas mãos de Natália.

— Pega mais uma garrafa na cozinha?

Natália apontou com o queixo para dois garçons ao lado do bar.

— Sua equipe está aqui.

— Eles estão ocupados.

Clara conversava com os sogros do outro lado da sala. Natália levou o balde até a cozinha. Encontrou o vinho que trouxera escondido atrás de caixas de espumante francês, ainda fechado.

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Dez minutos depois, Lívia tocou no cotovelo dela e indicou três taças abandonadas no parapeito. Em seguida, pediu que recolhesse um prato. Depois apontou para uma mancha de espumante perto do bar.

— Tem um pano ali embaixo.

Natália se agachou, abriu o armário e viu o reflexo de Marina no espelho atrás das bebidas. A câmera acompanhava cada movimento.

Ela fechou a porta sem pegar o pano.

— Chama alguém da equipe.

— Você já está aí.

Duas convidadas riram. Um homem desviou os olhos e tomou um gole longo demais. A conversa ao redor perdeu volume, embora ninguém se afastasse.

Clara atravessou a sala.

— Ela é minha convidada.

— Todo mundo ajuda — respondeu Lívia. — A Natália nem liga.

Natália pegou a garrafa que ainda segurava e pousou-a no bar.

— Eu ligo, sim.

Lívia franziu a testa.

— Liga?

— Seus funcionários fazem isso porque você paga. Eu vim brindar com a Clara.

O celular de Marina subiu mais um pouco. Natália acompanhou o movimento pelo espelho.

— Está esperando que eu faça o quê? — perguntou.

Marina sorriu para a tela.

— Nada. É uma festa.

— Então guarda o celular.

Lívia soltou uma risada e caminhou até o hall. Pegou os sapatos deixados perto do armário de casacos por uma convidada que trocara o salto por sapatilhas. Voltou balançando o par pela tira do calcanhar.

Foi aí que os jogou.

Agora, diante dos sapatos no chão, Natália alisou a lateral do vestido verde. A mão tremia pouco. Ela a fechou.

— Não.

— Como é?

— Eu disse não.

Lívia deu um passo. O salto fino marcou o mármore entre as duas.

— Você passou a noite inteira olhando para todo mundo como se fosse superior.

— Passei a noite como convidada.

— Agradeça por ter entrado aqui.

Clara segurou o braço da irmã.

— Para. Por favor.

Lívia se livrou da mão com um puxão. O noivo de Clara avançou meio passo e parou quando ela ergueu a palma, pedindo que ficasse fora.

Natália abriu a bolsa, encontrou o celular e viu uma chamada perdida de Helena Moreira. A mãe estava num jantar de fechamento a poucas quadras dali.

Na tela bloqueada, uma mensagem dizia: "Terminamos. Você ainda está na festa?"

André Montenegro lia por cima do ombro da esposa. Ao reconhecer o nome, deixou a taça na mesa lateral. O cristal bateu duas vezes no tampo.

Lívia acompanhou a reação do marido.

— Você está com raiva, Natália?

A pergunta veio limpa demais. Marina manteve a câmera apontada.

Natália guardou o telefone.

— Estou indo embora.

Ela contornou os sapatos e passou por Lívia. A anfitriã agarrou seu braço direito.

— Não vira as costas para mim.

— Solta.

Os dedos apertaram acima do pulso. Natália tentou puxar o braço sem acertar a mulher, mas Lívia plantou o pé à frente e empurrou com as duas mãos.

O quadril de Natália bateu no console de mármore. Uma dor quente subiu pelas costas. O vaso de vidro balançou, tombou pela borda e explodiu no piso junto aos seus pés.

O arco do violino morreu numa nota comprida. Alguém gritou perto da varanda.

Natália apoiou uma mão no console e se levantou. Um fio de sangue surgira no tornozelo, riscado por um caco pequeno. No pulso, as marcas dos dedos começavam a ficar vermelhas.

Lívia olhou para o vidro, para Marina e para os convidados. Abriu a boca com a pressa de quem escolhia uma versão.

Natália cruzou o espaço entre as duas e deu uma bofetada com a mão aberta.

O som atravessou a sala.

— Acabou.

Lívia tocou o próprio rosto. Os olhos ficaram úmidos, mas o canto da boca levantou.

— Acabou com que poder?

Natália tirou o celular da bolsa e ligou para a mãe.

— Mãe, vem me buscar?

Helena ouviu a respiração curta da filha.

— Onde você está?

Natália deu o endereço. Lívia murmurou "meu Deus" para Marina, garantindo que o microfone captasse.

— Estamos perto — disse Helena. — Não sai daí sozinha.

André já não olhava para Natália. Digitava uma mensagem com as duas mãos, errando a senha do aparelho na primeira tentativa.

Quinze minutos depois, o painel do elevador acendeu.

As portas se abriram. Helena Moreira saiu primeiro, de terno marfim, seguida por Roberto Moreira e dois advogados. Marcela Gouveia carregava uma pasta de couro escuro contra o peito.

André colocou a taça na mesa outra vez, embora ela já estivesse vazia.

— Senhor Moreira.

Marcela abriu a pasta de couro.

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