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"A Garçonete Que Enfrentou Chefe da Máfia" Capítulo 4 — O Homem Por Trás do Monstro

正文开头

Dante saiu de São Paulo antes do amanhecer.

Isabela soube por Teresa, durante o café.

"Ele foi para Santos?"

Teresa colocou uma xícara diante dela.

"Não posso responder."

"Então foi."

Teresa não confirmou.

Também não negou.

Isabela mexeu o café sem beber.

Desde a noite anterior, a imagem de Dante recebendo a notícia da morte dos três homens não saía de sua cabeça.

A mudança tinha sido instantânea.

O homem que estava a poucos centímetros dela desaparecera.

No lugar, surgiu alguém frio.

Fechado.

Perigoso.

"Ele vai demorar?"

Teresa levantou uma sobrancelha.

"Está preocupada?"

"Não."

"Perguntou duas vezes em menos de um minuto."

Isabela largou a colher.

"Eu só quero saber como funciona meu trabalho se meu chefe some sem avisar."

"Seu trabalho continua."

"Claro."

Teresa quase sorriu.

Dante não voltou naquele dia.

Nem no seguinte.

No terceiro, Isabela percebeu que já estava criando desculpas para olhar pela janela cada vez que um carro entrava pelo portão.

Aquilo a irritava.

Ela tinha passado anos sem depender de ninguém.

Agora estava esperando por um homem que mal conhecia e que carregava problemas suficientes para destruir a vida de qualquer pessoa ao redor.

No fim da tarde, encontrou Bruno perto da garagem.

Ele estava encostado em um dos carros pretos, mexendo no celular.

A cicatriz próxima à sobrancelha parecia ainda mais evidente sob a luz forte.

"Você sempre fica aí parado assustando as pessoas?"

Bruno guardou o aparelho.

"Funciona."

"Imagino."

Isabela apontou para o portão.

"Ele não voltou."

Bruno cruzou os braços.

"Também está contando os dias?"

"Não."

"Claro."

Isabela fez uma careta.

"Você e Teresa combinaram?"

"Não precisava."

Ela se encostou no carro ao lado.

"Você trabalha com Dante há quanto tempo?"

"Doze anos."

"Tudo isso?"

"Mais tempo do que deveria."

"Por quê?"

Bruno ficou em silêncio por alguns segundos.

"Porque ele me deu uma escolha quando eu não tinha nenhuma."

Isabela esperou.

Bruno não continuou.

"Você nunca responde completamente."

"É hábito."

"Todo mundo nesta casa tem esse hábito."

"É por isso que alguns ainda estão vivos."

A frase mudou o clima.

Isabela olhou para o jardim.

"Você sabia que havia um traidor?"

"Suspeitava."

"Quem?"

"Se eu soubesse, não seria mais suspeita."

"Pode ser alguém daqui?"

"Pode."

"Teresa?"

Bruno riu.

"Você realmente não conhece Teresa."

"Augusto?"

O sorriso desapareceu.

Bruno a observou.

"Não faça perguntas sobre Augusto Ferraz perto de qualquer pessoa."

"Isso significa que devo desconfiar dele."

"Significa exatamente o que eu disse."

Isabela respirou fundo.

"É cansativo conversar com vocês."

"É mais cansativo sobreviver no nosso meio."

Ela ficou quieta.

Depois perguntou:

"Por que Paulo fugiu naquela noite no restaurante?"

Bruno demorou a entender.

"O garçom?"

"Sim."

"Porque sabia quem Dante era."

"Todo mundo sabia."

"Alguns sabem mais do que os outros."

Isabela sentiu um desconforto.

"Você está dizendo que Paulo sabia alguma coisa?"

"Estou dizendo que, quando Dante entra num lugar, algumas pessoas preferem não descobrir por que ele está ali."

正文1

Bruno acendeu um cigarro.

"Você fez o contrário."

"Eu fui obrigada a atender a mesa."

"E depois escolheu enfrentá-lo."

Ela cruzou os braços.

"Ele estava sendo arrogante."

"Continua sendo."

Isabela soltou uma risada curta.

Bruno também.

Foi a primeira vez que a conversa entre os dois parececeu normal.

"Posso perguntar uma coisa?"

"Você já perguntou várias."

"Como as pessoas saem desse mundo?"

Bruno tragou o cigarro.

"Depende."

"De quê?"

"Do quanto viram."

A resposta fez Isabela ficar séria.

Bruno continuou:

"Quem trabalha perto de Dante costuma ter dois caminhos."

Ele levantou um dedo.

"Vai embora cedo, antes de entender demais."

Outro.

"Ou fica tempo suficiente para não conseguir mais sair."

Isabela sentiu um arrepio.

"E você?"

"Fiquei."

"Porque quis?"

Bruno olhou para ela.

"Depois de certo ponto, essa pergunta deixa de fazer diferença."

Naquela noite, Isabela demorou a dormir.

Quando finalmente conseguiu, acordou pouco depois das duas da manhã com o som de um carro entrando rápido na propriedade.

Sentou-se na cama.

Ouviu portas.

Vozes.

Passos firmes no corredor.

Dante tinha voltado.

Ela ficou parada por alguns segundos.

Devia continuar deitada.

Era o mais sensato.

Então ouviu um grito vindo do andar de baixo.

A voz de Dante.

Isabela levantou.

Vestiu um robe sobre a camisola e saiu.

A mansão estava quase escura.

Apenas algumas luzes do corredor permaneciam acesas.

Quanto mais se aproximava do escritório, mais claramente escutava Dante.

"Você tinha uma função!"

Silêncio.

Depois outra voz, provavelmente pelo telefone.

Dante respondeu:

"Três homens morreram porque alguém sabia a hora, a rota e o carro."

Isabela parou perto da porta.

"Não me interessa quanto ele pagou."

Mais silêncio.

"Descubra quem entregou a informação a Marcelo Vasconcelos."

Isabela prendeu a respiração.

O nome era novo.

Mas a forma como Dante pronunciou deixou claro que não era um homem qualquer.

"Não me ligue até ter alguma coisa útil."

A ligação terminou.

Isabela deveria ter voltado.

Em vez disso, bateu na porta.

"Entra."

Ela abriu.

Dante estava de costas.

A camisa branca estava amarrotada.

As mangas dobradas.

O paletó havia sido jogado sobre uma poltrona.

Um copo de uísque permanecia sobre a mesa.

Ele virou.

Por um segundo, pareceu surpreso.

"Por que está acordada?"

"Você estava gritando."

"Volte para o quarto."

Isabela fechou a porta atrás de si.

"Você voltou agora?"

"Isabela."

"Eu só perguntei."

Dante passou a mão pelo rosto.

Parecia exausto.

Não apenas cansado.

Exausto.

Havia sombras sob os olhos.

A barba começava a aparecer.

Ela nunca o tinha visto assim.

"Você dormiu nesses três dias?"

"Isso não importa."

"Então não dormiu."

Dante foi até a mesa.

Pegou o copo.

Bebeu de uma vez.

"Não faça isso."

Ele olhou para ela.

"O quê?"

"Fingir que está tudo bem."

Dante soltou uma risada amarga.

"Você acha que eu estou fingindo?"

"Acho que você está tentando parecer no controle."

"Eu estou no controle."

"Não parece."

O olhar dele endureceu.

Qualquer outra pessoa talvez tivesse recuado.

正文2

Isabela não.

"Quem é Marcelo Vasconcelos?"

Dante ficou imóvel.

"Você ouviu."

"Ouvi."

"Então deveria ter voltado para o quarto."

"Mas não voltei."

"Esse é um dos seus piores hábitos."

"Não fugir?"

"Se meter onde não foi chamada."

Isabela se aproximou devagar.

"Três homens morreram."

A expressão dele mudou.

Pouco.

Mas mudou.

"Sim."

"E Marcelo tem alguma coisa a ver com isso."

"Sim."

"Quem é ele?"

Dante virou para a janela.

"Um homem que gostaria de me ver morto."

"Isso não reduz muito a lista, imagino."

Um canto da boca dele quase se moveu.

Quase.

"Marcelo controla parte das rotas clandestinas entre Santos e o interior."

Isabela ficou em silêncio.

Dante continuou:

"Nossas famílias competem há anos."

"Empresas?"

"Também."

A palavra carregava mais coisa.

Isabela entendeu.

"Então alguém entregou seus homens para ele."

"Alguém entregou informação."

"De dentro?"

Dante apertou o copo.

"Só seis pessoas conheciam aquela rota."

"E todas trabalham para você?"

"Ou comigo."

"Você confia nelas?"

Dante olhou para o reflexo no vidro.

"Confiava."

A última palavra saiu diferente.

Mais pesada.

Isabela sentiu algo apertar no peito.

"Quem eram os homens que morreram?"

Dante demorou para responder.

"Leandro tinha dois filhos."

A voz ficou mais baixa.

"Renan ia se casar em dezembro."

Ele respirou.

"Jorge trabalhava com meu pai antes de trabalhar comigo."

Isabela não esperava aquilo.

Naquele momento, eles deixaram de ser apenas três homens sem rosto.

Tinham vida.

Família.

Planos.

"E você foi ver as famílias?"

"Fui."

"Por isso sumiu?"

"Entre outras coisas."

Ela se aproximou mais.

"Sinto muito."

Dante riu sem humor.

"Não sinta."

"Por quê?"

"Porque homens que trabalham comigo sabem os riscos."

"Isso não significa que você não possa sentir."

"Sentir não muda nada."

"Talvez mude você."

Ele virou de repente.

"Você não entende."

"Então explica."

"Não."

"Dante."

"Não faça isso."

"Isso o quê?"

"Ficar aqui como se eu fosse alguém que pode ser consertado."

Isabela ficou olhando.

"Eu não acho que você precisa ser consertado."

"Deveria."

Ele se afastou da janela.

"Você ainda não entendeu o que existe ao meu redor."

"Eu estou começando."

"Não."

Dante se aproximou.

"Você viu homens em uma mesa."

Mais um passo.

"Ouviu números."

Outro.

"Viu medo."

Ele parou diante dela.

"Mas não viu o que precisei fazer para chegar até aqui."

Isabela sentiu o coração acelerar.

Mesmo assim, perguntou:

"Então me conta."

A mandíbula dele travou.

"Não."

"Por que não?"

"Porque quanto mais você sabe, mais perigoso fica."

"Para mim?"

"Para você."

"E para você?"

Dante não respondeu.

Isabela olhou ao redor.

Para a sala enorme.

Os livros.

As obras caras.

O vidro separando aquele homem de uma cidade inteira.

Então fez a pergunta que vinha guardando desde que chegara à mansão.

"Você tem tanta gente ao seu redor."

Dante franziu a testa.

"Seguranças. Funcionários. Sócios. Homens que obedecem a qualquer ordem."

Ela olhou diretamente para ele.

"Por que você parece tão sozinho?"

A pergunta atingiu algo.

正文3

Isabela viu.

Dante virou o rosto.

"Não estou sozinho."

"Está."

"Você não sabe nada sobre mim."

"Sei quando alguém entra numa casa cheia de pessoas e não tem ninguém com quem conversar."

Ele ficou quieto.

Pela primeira vez, não respondeu com ironia.

Nem com ameaça.

Apenas andou até uma poltrona e sentou.

Parecia mais velho naquela posição.

Mais humano.

"Meu pai morreu quando eu tinha quinze anos."

Isabela não se mexeu.

Dante olhava para o chão.

"Foi morto na minha frente."

Ela prendeu a respiração.

"Eu não sabia."

"Quase ninguém sabe como aconteceu."

A voz dele não tremia.

Mas estava diferente.

"E minha mãe?"

Isabela esperou.

"Foi embora menos de um ano depois."

"Morreu?"

"Não."

Dante ergueu os olhos.

"Escolheu desaparecer."

Aquilo pareceu doer de um jeito diferente.

"Desde então, aprendi uma coisa."

"Qual?"

"Todo mundo que você ama vira uma arma na mão de alguém."

Isabela se aproximou.

Dante continuou:

"Meu pai amava a família."

Silêncio.

"Morreu por causa dela."

Ele respirou fundo.

"Minha mãe dizia que me amava."

Outro silêncio.

"E foi embora."

Isabela sentou na poltrona à frente.

"Nem todo mundo vai embora."

"Vai."

"Você tem certeza?"

"Tenho experiência."

"Isso não é a mesma coisa."

Dante a encarou.

"Eu parei de deixar pessoas chegarem perto há dez anos."

"Funcionou?"

"Funcionou."

"Até agora."

O olhar dele mudou.

Isabela sabia que tinha atravessado alguma barreira.

Dante levantou devagar.

Ela também.

"Até agora." ele repetiu.

Ficaram próximos.

Mais do que deveriam.

Dante levou a mão ao rosto dela.

Desta vez, não parou no meio.

Os dedos tocaram sua pele.

Isabela fechou os olhos por um instante.

"Você deveria ir embora."

"Você quer que eu vá?"

A resposta demorou.

"Não."

Foi a primeira vez que Dante Montenegro pareceu dizer alguma coisa contra a própria vontade.

Isabela abriu os olhos.

"Então não manda."

Dante se inclinou.

Parou a poucos centímetros.

"Se eu fizer isso, nada volta a ser simples."

"Nunca foi simples."

"Isabela."

"Eu sei."

Ele a beijou.

Sem pressa no começo.

Como se ainda tentasse decidir se devia parar.

Isabela segurou a camisa dele.

Foi o suficiente.

O controle desapareceu.

Dante a puxou pela cintura.

O beijo ficou mais intenso.

Toda a tensão dos últimos dias pareceu explodir naquele instante.

Quando se afastaram, os dois respiravam mais rápido.

Dante encostou a testa na dela.

"Isso é um erro."

"Pode ser."

"Um erro perigoso."

"Também pode ser."

Ele abriu os olhos.

"Você sempre precisa ter a última palavra?"

"Quase sempre."

Dante sorriu.

Dessa vez, não havia ameaça.

Só cansaço.

E alguma coisa que Isabela ainda não sabia nomear.

"Fica."

Ela ficou.

Quando acordou, o sol começava a entrar pelas cortinas.

Por alguns segundos, Isabela não reconheceu o quarto.

Então sentiu o cheiro de Dante no travesseiro ao lado.

Virou.

Estava vazio.

A mão encontrou apenas o lençol frio.

Isabela sentou.

Sobre o travesseiro havia uma folha dobrada.

Ela abriu.

A letra era firme.

"Você não está segura aqui."

Isabela sentiu o estômago apertar.

Abaixo da frase, havia apenas um nome.

Marcelo Vasconcelos.

E, ao lado dele, um endereço em São Paulo que Isabela conhecia muito bem.

Era o endereço da antiga casa de sua mãe.

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