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"Roubaram Minha Filha, Colocaram Outra em Seu Lugar e Acharam Que Eu Nunca Descobriria" Capítulo 4

正文开头

Serena voltou para casa no fim da tarde com uma única decisão na cabeça.

Ela não confrontaria Marta.

Ainda não.

A ligação anônima, a clínica, a gravação apagada, Augusto ao lado do carro de transporte.

Tudo aquilo confirmava que havia uma rede maior.

Se atacasse cedo demais, faria todos desaparecerem.

Então Serena faria o contrário.

Deixaria que acreditassem que ela tinha desistido.

Quando entrou na mansão, Marta estava na sala com a menina.

As duas montavam um quebra-cabeça.

Serena parou na porta.

Por um instante, a cena parecia normal demais.

Doméstica.

Quase feliz.

Aquilo lhe deu náusea.

"Serena?"

Marta foi a primeira a notar.

"Você demorou."

"Eu precisava pensar."

A babá se levantou devagar.

"Sobre o exame?"

Serena assentiu.

A menina olhou para ela.

Serena respirou fundo.

Precisava fazer aquilo bem.

Precisava parecer derrotada.

Caminhou até o sofá.

"Eu fui injusta."

Marta franziu a testa.

"Com quem?"

"Com todo mundo."

Serena olhou para a menina.

"Principalmente com ela."

A criança ficou imóvel.

Serena se ajoelhou.

"Desculpa."

A menina apertou uma peça do quebra-cabeça entre os dedos.

"Por quê?"

"Porque eu fiquei com medo."

Marta observava em silêncio.

Serena continuou.

"Depois de tudo o que aconteceu, eu comecei a achar que qualquer coisa diferente significava perigo."

A menina abaixou os olhos.

"Mas você é minha filha."

A frase queimou na boca.

Serena quase não conseguiu terminá-la.

Mesmo assim, sorriu.

"Eu devia ter acreditado no exame."

Marta relaxou.

Pouco.

Mas Serena percebeu.

Era aquilo que queria.

"Eu falei que o trauma muda as crianças", disse Marta.

Serena virou para ela.

"Você tinha razão."

A frase pareceu dar a Marta exatamente o que ela precisava.

Validação.

Controle.

Serena se levantou.

"Quero pedir desculpas a você também."

Marta abriu um sorriso surpreso.

"Não precisa."

"Precisa, sim."

Serena se aproximou.

"Você cuidou da minha filha por anos. E eu comecei a olhar para você como se fosse uma inimiga."

Marta baixou os olhos.

"Você estava sofrendo."

Serena a abraçou.

O corpo da outra mulher ficou rígido por um segundo.

Depois relaxou.

"Mãe às vezes erra", murmurou Marta.

Serena fechou os olhos.

"Você tem razão."

Mas, por cima do ombro dela, o rosto de Serena mudou.

Frio.

Atento.

Caçador.

Naquela noite, ela ligou para Dante do banheiro.

Falava baixo.

"Ela acreditou."

Do outro lado, houve uma pausa curta.

"Tem certeza?"

"Ela quase sorriu quando eu disse que o exame estava certo."

"Isso não prova nada."

"Eu sei."

Dante ficou em silêncio.

"Qual é o próximo passo?"

Serena olhou para o espelho.

"Fazer ela se mexer."

"Como?"

"Vou assustá-la."

Dante entendeu rápido.

"Com a menina?"

"Com uma viagem."

Na manhã seguinte, Serena anunciou durante o café:

"Decidi sair do Brasil por um tempo."

Marta quase derrubou a xícara.

"Como assim?"

Serena passou manteiga no pão.

"Estou pensando em levar Sofia para Portugal."

"Portugal?"

"Lisboa. Talvez três meses. Talvez seis."

A menina olhou para ela.

"Eu vou também?"

正文1

Serena sorriu.

"Claro."

Marta ficou branca.

"Mas... isso é muito de repente."

"É o que eu preciso."

"E a escola?"

"Resolvo."

"E os médicos?"

"Também."

Marta forçou um sorriso.

"Você acha seguro?"

"Mais seguro do que aqui."

A frase ficou no ar.

Marta entendeu mais do que deveria.

Serena percebeu.

"Por quê?"

"Nada."

"Você parece preocupada."

"É só... uma viagem tão longa."

Serena tomou café.

"Saímos em dois dias."

Marta não terminou o próprio café.

Às onze, ela saiu da mansão.

Disse que precisava ir à farmácia.

Serena esperou o carro desaparecer.

Depois ligou para Dante.

"Ela saiu."

"Thiago já está seguindo."

"Me avise."

"Você vem?"

Serena olhou para a menina na sala.

"Não posso sair agora."

"Então fique."

Havia algo diferente na forma como Dante disse aquilo.

Menos ordem.

Mais cuidado.

Serena percebeu.

Mas não comentou.

Quarenta minutos depois, Thiago mandou uma localização.

Marta não estava em farmácia alguma.

Estava no Itaim Bibi.

Dentro de um banco privado.

Serena leu a mensagem três vezes.

Depois subiu para o quarto.

Quando chegou, ligou por vídeo.

Dante atendeu.

"Ela entrou em uma área de cofres particulares."

Serena franziu a testa.

"Dinheiro?"

"Talvez."

"Ela não ganha o suficiente para ter um cofre privado."

"Exatamente."

Serena ficou em silêncio.

Dante continuou.

"Thiago conseguiu alguém lá dentro."

"Alguém de confiança?"

"Confiança é uma palavra forte."

"Então alguém útil."

Dante soltou uma risada breve.

"Você aprende rápido."

"Com gente errada."

A resposta fez o sorriso dele desaparecer.

"Serena."

"Sim?"

"Você não precisa fazer isso sozinha."

Ela quase riu.

"Eu não estou sozinha."

Dante olhou para ela através da tela.

Por um segundo, nenhum dos dois falou.

Serena foi a primeira a desviar.

"Me avise quando ela sair."

Duas horas depois, Marta voltou.

Serena estava no jardim.

A babá parecia cansada.

"Demorou."

"Fila."

"Na farmácia?"

Marta hesitou.

"Sim."

Serena sorriu.

"Espero que tenha encontrado o que precisava."

Marta sustentou o olhar.

"Encontrei."

Era quase um duelo.

Nenhuma das duas falou mais nada.

À noite, Serena encontrou Dante em um estacionamento discreto perto da Avenida Europa.

Thiago já estava dentro do carro.

"Temos imagens", disse ele.

Serena sentou no banco traseiro ao lado de Dante.

"Do cofre?"

"Não por dentro."

"Então?"

"Da sala privada."

Thiago entregou uma câmera pequena.

"Ela tirou três coisas."

Serena olhou para a tela.

Primeiro, um documento.

Papel antigo.

Dobra amarelada.

Depois, uma fotografia.

Depois, uma chave.

Serena aproximou a imagem.

"Consegue ampliar?"

Thiago fez.

O documento tinha um cabeçalho.

Registro de nascimento.

Serena sentiu o corpo endurecer.

"De quem?"

"Não dá para ler tudo."

Dante pegou o aparelho.

"Tem outro ângulo."

A segunda imagem mostrou parte do nome.

Sofia.

Serena parou de respirar.

"Isso é impossível."

Dante virou para ela.

"Por quê?"

"Porque o registro de nascimento de Sofia está comigo."

Thiago respondeu:

"Talvez não seja o original."

Serena sentiu um arrepio.

Na terceira foto, Marta segurava uma imagem pequena.

Era Sofia.

正文2

A verdadeira Sofia.

Serena reconheceu imediatamente.

Cabelos soltos.

Olhos claros.

Um vestido amarelo que Serena nunca tinha visto.

"Quando essa foto foi tirada?"

Ninguém respondeu.

Serena aproximou os dedos da tela sem tocar.

A menina parecia um pouco mais magra.

Mas era ela.

Era Sofia.

Viva.

"Meu Deus."

Dante ficou imóvel.

Serena olhou para ele.

"Ela está viva."

"Sim."

A palavra veio baixa.

Serena sentiu os olhos encherem.

Dessa vez, não de culpa.

De esperança.

"Ela está viva."

Dante colocou a mão sobre a dela.

Foi instintivo.

Serena olhou para os dedos dele sobre os seus.

Por um segundo, esqueceu tudo.

Depois puxou a mão devagar.

Não por rejeição.

Por medo de sentir qualquer coisa que não fosse raiva.

"A chave", disse ela.

Thiago mostrou a imagem.

Era antiga.

Sem identificação.

"Pode ser de uma casa."

"Ou apartamento."

"Ou depósito."

Serena olhou novamente para a foto de Sofia.

Havia algo escrito atrás.

"Vira."

Thiago aproximou outra imagem.

Marta tinha segurado a foto por poucos segundos, mas a câmera registrara o verso.

Dante ampliou.

Uma linha.

Um endereço.

Serena leu em voz alta.

Era em uma região afastada de São Paulo.

Abaixo, havia outra frase.

Curta.

Escrita à mão.

Serena aproximou o rosto.

Dante leu primeiro.

"Ela ainda se lembra."

O coração de Serena disparou.

"De quê?"

Ninguém respondeu.

Ela arrancou o aparelho da mão de Dante.

Leu outra vez.

"Ela ainda se lembra."

A frase não parecia aviso.

Parecia medo.

Serena fechou os olhos.

Sofia estava viva.

Em algum lugar.

E quem quer que estivesse por trás daquilo sabia que a menina ainda se lembrava.

De alguma coisa.

Talvez de alguém.

Talvez de tudo.

Serena abriu os olhos.

"Vamos para esse endereço."

Dante olhou para ela.

"Agora?"

"Agora."

Thiago virou no banco.

"Serena, pode ser uma armadilha."

Ela encarou a imagem da filha.

"Pode."

Dante segurou o braço dela antes que abrisse a porta.

"Então não vamos entrar às cegas."

Serena virou o rosto.

"Você está tentando me impedir?"

"Estou tentando garantir que chegue até ela viva."

Os dois se encararam.

Pela primeira vez, a tensão entre eles não era só desconfiança.

Havia outra coisa.

Mais perigosa.

Serena respirou fundo.

"Então vamos juntos."

Dante soltou o braço dela.

"Juntos."

Thiago ligou o carro.

Serena apertou a fotografia contra o peito.

Sofia estava viva.

Ela sabia disso agora.

Mas uma pergunta ainda queimava mais forte que todas as outras.

O que sua filha ainda se lembrava?

E por que isso assustava tanto Marta?

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