"Roubaram Minha Filha, Colocaram Outra em Seu Lugar e Acharam Que Eu Nunca Descobriria" Capítulo 3
Serena passou a noite sem dormir.
A imagem de Marta atravessando o jardim com o celular no ouvido voltava à sua cabeça de novo e de novo.
Não era apenas medo.
Era pressa.
E quem sente pressa, geralmente, está tentando avisar alguém antes que seja tarde demais.
Na manhã seguinte, Serena não perguntou nada.
Desceu para o café como se tivesse dormido oito horas.
Marta já estava na cozinha.
"Bom dia."
"Bom dia", respondeu Serena.
A babá evitou seus olhos.
A menina estava sentada à mesa com uma caneca de leite.
Serena beijou sua testa.
"Hoje vou sair por algumas horas."
"Vai aonde?", perguntou Marta depressa demais.
Serena ergueu o rosto.
"A uma reunião."
"Com quem?"
Silêncio.
Marta percebeu.
"Desculpa. Só perguntei por causa da menina."
Serena sorriu.
"Eu sei."
Mentira.
Ela não sabia mais nada sobre Marta.
Ou melhor: começava finalmente a saber.
Às dez da manhã, Serena saiu da mansão em um carro sem motorista.
Não queria ninguém da família acompanhando seus movimentos.
Também não ligou para advogado algum.
Precisava de alguém de fora.
Alguém que Augusto não controlasse.
Alguém com dinheiro suficiente para não se intimidar com o sobrenome Alencastro.
E havia um nome que preenchia todos esses requisitos.
Dante Montenegro.
O edifício da Montenegro Capital ficava na Faria Lima, cercado por vidro, concreto e gente apressada.
Serena entrou usando uma calça preta de cintura alta, camisa de seda clara e óculos escuros.
Não queria parecer frágil.
Muito menos desesperada.
Na recepção, a atendente sorriu.
"A senhora tem horário?"
"Não."
"Posso perguntar o assunto?"
"Particular."
"Senhor Montenegro está em reunião."
"Então eu espero."
A atendente hesitou.
Serena tirou os óculos.
"Diga a ele que Serena Alencastro está aqui."
Isso mudou tudo.
Dez minutos depois, um homem jovem se aproximou.
Tinha cabelo escuro, traços nipo-brasileiros e um sorriso que parecia sempre prestes a virar piada.
"Senhora Alencastro?"
"Sim."
"Thiago Ferraz. Trabalho com o senhor Montenegro."
"Ótimo. Onde ele está?"
Thiago riu.
"Direta."
"Estou sem tempo."
"Ele também."
"Então somos compatíveis."
Thiago arqueou as sobrancelhas.
"Agora entendi por que ele mandou subir."
Serena entrou no elevador sem responder.
No último andar, Thiago abriu uma porta de vidro.
Dante Montenegro estava em pé junto à janela.
Terno azul-marinho. Camisa branca. Sem gravata.
Alto.
Mais do que Serena imaginava.
Quando se virou, ela percebeu os olhos castanhos com reflexos de âmbar.
Bonitos.
Inconvenientemente bonitos.
"Senhora Alencastro."
"Senhor Montenegro."
Dante indicou a cadeira.
"Thiago disse que é urgente."
"É."
"Relacionado à empresa?"
"Não."
"Então por que veio até mim?"
Serena colocou a bolsa sobre a mesa.
"Porque você não trabalha para minha família."
Dante sentou-se.
"Isso não costuma ser motivo suficiente para alguém aparecer sem marcar horário."
"Hoje vai ter que ser."
Ele a observou por alguns segundos.
Não parecia ofendido.
Parecia avaliando.
"O que você precisa?"
Serena abriu a bolsa.
Tirou o celular.
Depois um envelope.
Depois um caderno com anotações.
Dante olhou para tudo.
"Minha filha desapareceu há três meses."
"Eu sei."
"A polícia encontrou uma menina."
"Também sei."
"Todos dizem que é Sofia."
Dante franziu levemente a testa.
"E você não acredita?"
Serena respirou fundo.
"Não."
Ele recostou na cadeira.
"Por quê?"
"Porque ela não lembra de coisas que Sofia lembraria."
"Trauma."
"Porque gosta de coisas que Sofia odiava."
"Trauma também pode alterar comportamento."
"Porque comeu amendoim."
Dante ficou em silêncio.
Serena continuou.
"Sofia teve reação alérgica séria quando tinha quatro anos."
"Isso é diferente."
"Eu sei."
"Fez exame?"
"Fiz."
"E?"
Serena abriu o envelope.
"Deu 99,99%."
Dante olhou para ela.
"Então?"
A irritação subiu rápido.
"Então eu não acredito no exame."
"Com base em quê?"
"Em tudo."
Dante cruzou as mãos sobre a mesa.
"Senhora Alencastro, você quer que eu acredite em um instinto de mãe contra um teste de DNA?"
Serena sustentou o olhar dele.
"Não."
Puxou o celular.
"Quero que acredite nas provas."
Apertou o play.
A voz de Marta encheu a sala.
"Isso é impossível."
Pausa.
"Não pode estar certo."
Outra pausa.
"Eles receberam exatamente o que deveriam receber."
Dante não se mexeu.
Thiago, encostado perto da porta, deixou de sorrir.
A gravação terminou.
Serena colocou o telefone sobre a mesa.
"Ela não sabia que eu estava gravando."
Dante olhou para o aparelho.
"Você mentiu sobre um segundo exame?"
"Sim."
"Não existia?"
"Não."
"Por quê?"
"Porque eu precisava ver a reação dela."
Dante ergueu os olhos.
"Funcionou."
"Funcionou."
O silêncio mudou de natureza.
Antes, Serena sentia que estava tentando convencer um homem cético.
Agora, ele estava pensando.
Era diferente.
Muito diferente.
Dante puxou o envelope com o exame.
"Qual laboratório?"
Serena respondeu.
Thiago já digitava no tablet.
Dante folheou o laudo.
"Você usou uma amostra de cabelo?"
"Sim."
"Foi coletada em casa?"
"Por mim."
"Alguém sabia?"
"Não."
"Tem certeza?"
Serena hesitou.
"Agora não tenho certeza de nada."
Dante percebeu.
"Quem teve acesso à menina?"
"Marta. O médico. Funcionários da casa. Meu tio Augusto. Eu."
"E ao material?"
"Ninguém."
"Você levou pessoalmente?"
"Sim."
"Recebeu o resultado por e-mail?"
"Sim."
Dante entregou o laudo a Thiago.
"Confere tudo."
Thiago assentiu.
"Vou precisar de algum tempo."
Serena se levantou.
"Quanto?"
Dante também.
"Você não precisa ficar."
"Eu não vim até aqui para ir embora."
Por um segundo, ele quase sorriu.
"Você sempre fala assim?"
"Quando estou certa."
"E quando está errada?"
Serena pegou a bolsa.
"Descubro rápido."
Dante a encarou.
Havia algo novo ali.
Respeito, talvez.
Ou curiosidade.
"Então fique."
Foram para uma sala menor.
Thiago começou a cruzar horários, recibos e registros de transporte.
Serena observava tudo.
Dante permanecia ao lado, em silêncio.
Depois de alguns minutos, ele falou.
"Seu tio sabe que você está aqui?"
"Não."
"E Marta?"
"Não."
"Melhor assim."
Serena virou o rosto.
"Por que está me ajudando?"
"Você ainda não me convenceu."
"Mentira."
Dante ergueu uma sobrancelha.
"Desculpe?"
"Se achasse que eu era uma viúva histérica, já teria pedido para eu ir embora."
Thiago abafou uma risada do outro lado da mesa.
Dante lançou um olhar para ele.
"Continue trabalhando."
"Estou trabalhando."
Serena quase sorriu.
Quase.
Dante voltou a olhar para ela.
"Não acho que seja histérica."
"Mas achou."
"No começo."
"Obrigada pela sinceridade."
"Você apareceu aqui dizendo que um DNA estava errado."
"E agora?"
"Agora acho que alguém pode ter manipulado alguma coisa."
Serena sentiu um peso sair do peito.
Pequeno.
Mas real.
Era a primeira vez, desde o retorno da menina, que alguém não tentava convencê-la de que estava louca.
"Você acredita em mim?"
Dante apoiou uma mão na mesa.
"Acredito que você encontrou uma inconsistência."
Serena assentiu.
Era suficiente.
Por enquanto.
Thiago interrompeu.
"Tem uma coisa."
Os dois se viraram.
"Que coisa?", perguntou Dante.
Thiago girou a tela.
"Esse laboratório terceiriza o transporte de material biológico."
"Normal", disse Dante.
"Sim. Só que o horário não fecha."
Serena se aproximou.
Thiago apontou para a linha do tempo.
"A amostra saiu da unidade às quatorze e sete."
"Eu entreguei antes das duas", disse Serena.
"Confere. A previsão era chegar ao laboratório central em vinte minutos."
"Chegou quando?"
"Às quinze e quatorze."
Serena franziu a testa.
"Mais de uma hora depois."
"Exato."
Dante aproximou-se.
"Trânsito?"
Thiago balançou a cabeça.
"Não."
Abriu outro mapa.
"O veículo fez um desvio."
Serena sentiu o corpo inteiro ficar alerta.
"Para onde?"
Thiago ampliou a tela.
"Uma clínica particular."
O nome apareceu.
Clínica Santa Amália.
Serena congelou.
"Essa clínica pertence ao grupo Alencastro."
Dante olhou para ela.
"Tem certeza?"
"Meu tio comprou participação nela há dois anos."
Thiago digitou mais algumas coisas.
"O carro ficou lá quarenta e sete minutos."
Silêncio.
Quarenta e sete minutos.
Era tempo suficiente para muita coisa.
Serena apertou os dedos contra a mesa.
"Consegue câmeras?"
Thiago sorriu de lado.
"Legalmente?"
Dante olhou para ele.
"Thiago."
"Estou brincando."
"Não está."
"Um pouco."
Serena não tinha paciência.
"Consegue ou não?"
Thiago perdeu o sorriso.
"Vou tentar."
Dante pegou o celular.
"Eu também."
Serena se virou.
"Com quem vai falar?"
"Com alguém que não deve favores aos Alencastro."
Era exatamente por isso que ela tinha vindo.
Uma hora depois, as imagens chegaram.
Ruins.
Granuladas.
Mas suficientes.
Thiago passou o vídeo quadro a quadro.
Um veículo branco entrava na lateral da clínica.
Dois funcionários apareciam.
Depois sumiam.
Serena prendia a respiração.
"Volta."
Thiago voltou.
"Mais devagar."
Ele reduziu a velocidade.
Uma mulher atravessou o estacionamento ao fundo.
Cabelos presos.
Camisa clara.
Calça bege.
Serena se aproximou da tela.
Não.
Aquilo não podia ser.
"Para."
Thiago congelou a imagem.
O rosto estava parcialmente de lado.
Dante ampliou.
Serena sentiu o estômago revirar.
Era Marta.
Marta caminhava em direção ao carro que transportava a amostra.
Serena levou a mão à boca.
"Ela disse que ficou em casa o dia inteiro."
Dante olhou para ela.
"Você lembra da data?"
"Claro que lembro."
A voz saiu baixa.
"Foi o dia em que eu entreguei o material."
Thiago apontou para o canto da imagem.
"E tem mais."
Serena virou.
"Mais o quê?"
Ele ampliou outro ponto.
Ao lado do veículo, quase escondido atrás de uma coluna, havia um segundo homem.
Elegante.
Terno escuro.
Cabelo grisalho nas laterais.
Serena parou de respirar.
Dante olhou para a tela.
Depois para ela.
"Você conhece?"
Serena não respondeu de imediato.
Não queria.
Mas conhecia.
Conhecia aquele corpo.
Aquele jeito de ficar em pé.
Aquele relógio.
Aquele homem tinha estado na casa dela no dia anterior, dizendo que ela precisava parar de procurar problemas.
Serena sentiu a garganta fechar.
"É meu tio."
Dante franziu a testa.
"Augusto?"
Serena assentiu.
Thiago ficou em silêncio.
Ninguém fez piada.
Serena olhou de novo para a imagem.
Marta.
Augusto.
A amostra.
Quarenta e sete minutos.
De repente, tudo parecia muito maior.
Muito pior.
Se Marta estava envolvida, Serena podia suportar.
Mas Augusto?
O homem que conhecia Sofia desde o nascimento?
O homem que abraçara Serena no enterro de Daniel?
O homem que prometera protegê-las?
Serena afastou-se da tela.
"Se ele estava lá..."
Dante terminou por ela.
"Então isso não começou com uma babá assustada."
Serena fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, não havia mais dúvida.
Só raiva.
"Quero saber o que aconteceu nesses quarenta e sete minutos."
Dante encarou a imagem.
"Vamos descobrir."
Serena olhou para ele.
Pela primeira vez, a palavra soou verdadeira.
Nós.
Não você.
Não eu.
Nós.
Mas antes que pudesse responder, o celular de Thiago vibrou.
Ele leu a mensagem.
Seu rosto mudou.
Dante percebeu.
"O que foi?"
Thiago levantou os olhos.
"A clínica acabou de apagar as gravações originais daquele dia."
Serena ficou imóvel.
"Quando?"
Thiago mostrou a tela.
"Há sete minutos."
Dante endureceu o olhar.
"Alguém sabe que estamos olhando."
Serena sentiu um arrepio.
Então seu próprio celular tocou.
Número desconhecido.
Ela atendeu.
Ninguém falou.
Só havia respiração do outro lado.
Serena esperou.
"Quem é?"
Silêncio.
Depois, uma voz baixa.
Masculina.
"Pare de procurar, Serena."
A ligação caiu.
Ela continuou segurando o celular junto ao ouvido.
Dante se aproximou.
"O que disseram?"
Serena baixou o aparelho.
"Que eu pare."
Dante olhou para a tela.
"Vai parar?"
Serena ergueu os olhos.
"Agora?"
O medo ainda estava ali.
Mas a raiva era maior.
"Agora eu quero saber tudo."
E, naquele instante, em algum lugar de São Paulo, alguém percebeu que Serena Alencastro já não estava apenas desconfiando.
Ela estava chegando perto.
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