"Roubaram Minha Filha, Colocaram Outra em Seu Lugar e Acharam Que Eu Nunca Descobriria" Capítulo 2
A mensagem chegou às seis e quarenta e três da manhã.
Serena não sabia disso.
Naquele momento, estava dentro do carro, a caminho de um laboratório particular na zona sul de São Paulo, com um envelope pequeno dentro da bolsa e uma sensação pior do que medo.
Era vergonha.
Vergonha por ter arrancado fios de cabelo da escova de uma menina que todos diziam ser sua filha.
Vergonha por duvidar de uma criança que talvez tivesse passado por algo terrível.
Vergonha porque, se estivesse errada, teria transformado o retorno de Sofia em outra forma de sofrimento.
Mas também havia uma voz dentro dela que não parava.
O dedo mínimo.
O urso.
O amendoim.
O vestido rosa.
A frase de Daniel.
Serena apertou a bolsa contra o colo.
"Eu só preciso saber."
O motorista olhou pelo retrovisor, mas não perguntou nada.
No laboratório, ela usou um nome abreviado e pagou pelo exame particular.
Não queria o advogado da família.
Não queria Augusto.
Não queria Marta.
Não queria ninguém entre ela e a verdade.
A atendente recebeu os fios de cabelo e explicou os procedimentos.
"Se a senhora puder fornecer também uma amostra sua, conseguimos fazer a comparação direta."
Serena assentiu.
Alguns minutos depois, deixou o laboratório com a promessa de um resultado em até quarenta e oito horas.
Quarenta e oito horas pareceram maiores do que os noventa e dois dias sem Sofia.
Em casa, Marta continuava cuidando da menina como se nada tivesse acontecido.
"Ela dormiu bem", disse, enquanto cortava uma maçã em pedaços pequenos.
Serena observou suas mãos.
Firmes.
Tranquilas.
"Ela perguntou por mim?"
"Não. Mas isso não quer dizer nada."
A mesma resposta do médico.
Serena aproximou-se da mesa.
A menina desenhava com lápis de cor.
"Bom dia, meu amor."
A criança ergueu os olhos.
"Bom dia."
Nada de "mamãe".
Nada de sorriso.
Nada de dedo mínimo.
Serena se sentou ao lado dela.
"O que você está desenhando?"
"Uma casa."
Era uma casa amarela, com uma árvore grande e uma mulher de vestido vermelho perto da porta.
"Quem é essa mulher?"
A menina fechou o caderno.
"Ninguém."
Serena percebeu Marta parar de cortar a maçã.
Só por um instante.
"Posso ver de novo?"
"Não."
A menina segurou o papel contra o peito.
Serena sorriu.
"Tudo bem."
Marta colocou a tigela sobre a mesa.
"Não pressione."
Serena levantou os olhos.
"Eu só perguntei."
"Eu sei. Só estou tentando ajudar."
A resposta soou gentil demais.
Nos dois dias seguintes, Serena quase não dormiu.
Tentou brincar.
Tentou conversar.
Tentou repetir para si mesma que traumas mudavam pessoas.
Mas, toda vez que a menina ria, Serena percebia que o riso não era de Sofia.
Aquilo era absurdo.
Como um riso podia ser diferente?
Ainda assim, era.
Na sexta-feira, às onze e vinte da manhã, o e-mail chegou.
Serena estava sozinha no escritório de Daniel quando abriu o arquivo.
Leu a primeira linha.
Depois a segunda.
Depois voltou para o topo.
Teste de vínculo biológico.
Probabilidade de maternidade: 99,99%.
Serena não respirou.
Leu outra vez.
99,99%.
A menina era sua filha.
Segundo o DNA, não havia dúvida.
Serena soltou uma risada curta.
Sem humor.
"Então sou eu."
A frase saiu baixa.
"Eu enlouqueci."
Sentou-se na cadeira de Daniel e cobriu o rosto.
Talvez Augusto estivesse certo.
Talvez o médico estivesse certo.
Talvez Marta estivesse certa.
Talvez ela quisesse tanto recuperar a Sofia de antes que estivesse rejeitando a menina traumatizada que voltara.
Esse pensamento doeu mais do que qualquer outra coisa.
Serena chorou em silêncio.
Não pelo desaparecimento.
Pela culpa.
"Meu Deus... o que eu estou fazendo com ela?"
Bateram na porta.
Serena fechou o notebook depressa.
Augusto entrou.
Como sempre, impecável.
Terno escuro, cabelo perfeitamente penteado, expressão controlada.
"Você está chorando."
"Estou cansada."
Ele caminhou até a mesa.
"Marcelo me ligou."
Serena ergueu o rosto.
"Por quê?"
"Porque está preocupado com você."
A raiva surgiu antes da cautela.
"Ele não é meu médico."
"Mas conhece o contexto."
Augusto sentou-se diante dela.
"Serena, você perdeu Daniel. Depois Sofia desapareceu. Agora ela voltou diferente. Ninguém esperava que você atravessasse tudo isso sem consequências."
"Que tipo de consequências?"
"Ansiedade. Paranoia. Trauma."
Serena ficou imóvel.
"Paranoia?"
"Não estou dizendo que você está doente."
"Acabou de dizer."
"Estou dizendo que precisa de ajuda."
Serena quase respondeu, mas o resultado de DNA na tela parecia queimar atrás do notebook fechado.
99,99%.
Augusto inclinou o corpo para a frente.
"Você está fazendo perguntas demais para uma criança que acabou de voltar."
"Ela é minha filha."
"Então trate como sua filha."
A frase acertou em cheio.
Serena se levantou.
"Saia."
Augusto suspirou.
"Não quero brigar com você."
"Então saia."
Ele também se levantou.
Antes de ir, parou junto à porta.
"E pense em uma coisa."
Serena não respondeu.
"Se você continuar interrogando Sofia, assustando-a, fazendo com que ela se sinta rejeitada... a família pode precisar intervir."
Serena virou lentamente.
"Intervir como?"
"Você sabe como."
O ar sumiu do ambiente.
"Está ameaçando tirar minha filha de mim?"
"Estou tentando evitar que chegue a esse ponto."
Serena caminhou até ele.
"Você não vai chegar perto da guarda da minha filha."
Augusto sustentou seu olhar.
"Então pare de agir como se ela não fosse sua."
Ele saiu.
Serena ficou parada no meio do escritório.
Humilhada.
Furiosa.
E, pela primeira vez, assustada de verdade.
Naquela tarde, ela decidiu que precisava parar.
Parar de procurar diferenças.
Parar de desconfiar.
Parar de machucar a si mesma.
Encontrou a menina no jardim, brincando com Marta.
Serena se aproximou.
"Sofia."
A criança olhou.
Serena se ajoelhou diante dela.
"Eu quero pedir desculpas."
Marta observava.
Serena continuou.
"Eu sei que você passou por coisas difíceis. Eu fiquei com medo. E, quando a gente fica com medo, às vezes faz perguntas demais."
A menina permaneceu em silêncio.
Serena abriu os braços.
"Não precisa me abraçar."
A criança hesitou.
Depois se aproximou.
Serena fechou os braços ao redor dela.
Não houve dedo mínimo.
Mas, dessa vez, Serena não reagiu.
"Vamos começar de novo", sussurrou.
Marta sorriu.
"É isso que ela precisa."
Serena ergueu os olhos por cima do ombro da menina.
"Você tem razão."
Naquela noite, porém, algo mudou.
Não na menina.
Em Marta.
Durante o jantar, Serena comentou casualmente:
"Amanhã vou sair cedo."
Marta serviu água.
"Consulta?"
"Outro laboratório."
A mão de Marta parou.
Serena percebeu.
Continuou com naturalidade.
"Resolvi repetir o DNA."
"Repetir?"
"Sim."
Marta voltou a mexer no copo.
"Mas por quê? O primeiro foi conclusivo, não foi?"
Serena olhou para ela.
"Foi."
Marta respirou aliviada.
Pequeno demais para outra pessoa notar.
Grande demais para Serena ignorar.
Na manhã seguinte, Serena não foi a laboratório nenhum.
Passou o dia esperando.
Esperando uma oportunidade.
Ela precisava saber se Marta apenas estava ansiosa ou se sabia mais.
No fim da tarde, encontrou a babá sozinha na cozinha.
A menina estava com uma terapeuta no andar de cima.
Serena entrou segurando o celular.
Marta percebeu seu rosto sério.
"O que aconteceu?"
Serena fechou a porta.
"Chegou o segundo resultado."
Marta ficou imóvel.
"Segundo resultado?"
"Sim."
Serena deixou três segundos de silêncio.
"Deu diferente."
A cor sumiu do rosto de Marta.
"Como assim?"
"A menina não é minha filha."
Marta arregalou os olhos.
"Isso é impossível."
Serena não disse nada.
Marta continuou rápido demais.
"Não pode estar certo."
Serena permaneceu em silêncio.
"Talvez tenham contaminado a amostra."
Ainda silêncio.
"Ou coletado errado."
Serena inclinou levemente a cabeça.
Marta começou a respirar mais depressa.
"Eles receberam exatamente o que deveriam receber."
A frase caiu no meio da cozinha.
Marta congelou.
Serena sentiu o coração bater uma vez, forte.
"Exatamente o que deveriam receber?"
Marta abriu a boca.
"Eu quis dizer..."
"O quê?"
"Que... que laboratório nenhum deveria errar uma coisa dessas."
Serena se aproximou devagar.
"Eu não disse qual laboratório fez o segundo exame."
Marta desviou os olhos.
"Você está nervosa."
"Não."
Serena agora estava calma.
Pela primeira vez em dias, completamente calma.
"Você é que está."
Marta apoiou as duas mãos na bancada.
"Serena, você está fazendo isso de novo."
"O quê?"
"Vendo conspiração em tudo."
Serena deu um passo para trás.
"Talvez."
Marta assentiu depressa.
"Você precisa descansar."
"Talvez precise."
Serena abriu a porta.
"Pode ir."
Marta ficou alguns segundos parada.
Depois saiu.
Os passos desapareceram pelo corredor.
Serena esperou.
Cinco segundos.
Dez.
Vinte.
Então pegou o celular que havia deixado sobre a bancada, com a tela virada para baixo.
Abriu o aplicativo de gravação.
A conversa inteira estava ali.
Cada palavra.
Cada pausa.
Cada respiração.
"Eles receberam exatamente o que deveriam receber."
Serena ouviu novamente.
Depois outra vez.
Sentiu um sorriso surgir.
Pequeno.
Frio.
Não era felicidade.
Era certeza.
O primeiro DNA não provaria que ela estava louca.
Provaria que alguém havia manipulado alguma coisa.
E Marta sabia.
Serena salvou o arquivo em três lugares diferentes.
Depois pegou um bloco de notas e escreveu o nome da babá no topo da página.
Abaixo, acrescentou:
Laboratório.
Amostra.
Quem teve acesso?
Quem sabia?
Serena fechou o caderno.
"Agora eu sei por onde começar."
Do corredor, ouviu-se o som rápido de passos.
Ela abriu a porta.
Ninguém.
Só uma xícara quebrada no chão.
E, no fim do corredor, a porta dos fundos ainda balançava.
Serena correu até a janela.
Marta atravessava o jardim com o celular pressionado ao ouvido.
Ela falava baixo demais para Serena escutar.
Mas Serena viu claramente quando a babá olhou para trás.
Não havia mais carinho em seu rosto.
Havia medo.
E, naquele instante, Serena entendeu uma coisa.
Marta não estava apenas escondendo um segredo.
Estava avisando alguém.
A pergunta agora não era mais se haviam mentido para ela.
Era quantas pessoas estavam envolvidas.
E quem, dentro da própria família, receberia aquela ligação.
você pode gostar
-
TerminadoCapítulo 1
Paixão proibida: Um romance da máfia
Lucien, o Rei da Máfia, conhecido como o Diabo. Heloísa, conhecida como anjo. Os dois são arranjados para se casar, forçados pelos pais, juntando-se às duas máfias. Mas Heloísa acaba descobrindo que até o diabo já foi um anjo.Romance1.3 mil palavras8 2 -
TerminadoCapítulo 5
Papai bilionário do bebê
Uma noite de amor que jamais seria esquecida. Ela dormiu com um bilionário. Apenas Jessica não sabia disso na época, outra coisa que ela não sabia é que, ao sair daquele apartamento de luxo, ela carregaria o herdeiro de uma empresa multibilionária.Moderno08 9 -
TerminadoCapítulo 4
Paixão e Domínio: Ex-esposa do CEO
Tudo o que pode levar é um escândalo para despedaçar uma história de amor de 15 anos. Conheça os Barnes. Angelina (Angel) e James Buchanan Barnes IV (Bucky). Seu romance antes de conto de fadas foi destruído. Mas quando a verdade vier à tona, eles serão capazes de reparar o estrago ou estará tão danificado que não poderá ser consertado?Moderno08 11 -
TerminadoCapítulo 2
Depois do falecimento do meu marido, eu enfrentei a amante com astúcia
Meu marido Joaquim sofreu um acidente de carro, ficou gravemente ferido e à beira da morte. O médico disse que salvá-lo teria pouco significado, então me preparei psicologicamente. Eu estava bem preparada e fiz um gesto com a mão: "Não vou dar mais problemas ao hospital, desistindo do tratamento." Obtive o atestado de óbito, encerrei a conta, levei-o ao crematório e, após seis horas, ele se tornou um monte de cinzas. Eu bato na urna de cinzas e digo: "Joaquim, oh Joaquim, você realmente era uma boa pessoa!" Joaquim tinha uma fortuna, partiu jovem e não deixou testamento. Recebi dois terços de toda a herança. Existe alguém mais atencioso do que Joaquim?Moderno08 4