"Roubaram Minha Filha, Colocaram Outra em Seu Lugar e Acharam Que Eu Nunca Descobriria" Capítulo 1
O telefone tocou às seis e dezessete da manhã.
Serena Alencastro ainda se lembraria daquele horário muitos anos depois, porque foi naquele minuto que voltou a respirar depois de três meses vivendo como se alguém tivesse arrancado seus pulmões.
"Senhora Alencastro? Aqui é o delegado responsável pelo caso da sua filha. Encontramos uma menina. Tudo indica que seja Sofia."
Por alguns segundos, Serena não respondeu.
O celular escorregou entre seus dedos, e ela precisou segurá-lo com as duas mãos.
"Ela está viva?"
"Está."
Uma única palavra.
Foi suficiente para fazê-la cair de joelhos no chão frio do quarto.
Sofia estava viva.
Sua menina estava viva.
Três meses antes, durante um fim de semana na casa de praia dos Alencastro, no litoral de São Paulo, Sofia desaparecera.
Seis anos de idade. Cabelos castanho-escuros, olhos verde-acinzentados e um vestido azul que Serena ainda via todas as noites quando fechava os olhos.
A polícia vasculhara estradas, hospitais, aeroportos. Fotos de Sofia apareceram na televisão, nas redes sociais e em cartazes espalhados pelo país.
Nada.
Até aquela manhã.
Menos de uma hora depois, Serena atravessava os corredores de um hospital particular em São Paulo quase correndo.
Marta Santos, a babá que cuidava de Sofia havia anos, vinha alguns passos atrás.
"Serena, por favor, vá devagar."
"Passei noventa e dois dias esperando por ela. Não vou andar devagar agora."
Na porta do quarto, o médico a interceptou.
"Senhora Alencastro, sou o doutor Marcelo Tavares."
Serena mal olhou para ele.
"Eu quero ver minha filha."
"Ela sofreu um trauma importante. Está assustada, fala pouco e pode apresentar alterações de comportamento e memória. É fundamental que a senhora não force nenhuma reação."
Serena sentiu o peito apertar.
"Ela perguntou por mim?"
Marcelo hesitou.
Foi menos de um segundo, mas Serena percebeu.
"Ainda não."
Aquilo doeu.
Mesmo assim, ela abriu a porta.
A menina estava sentada na cama, abraçada aos próprios joelhos.
Cabelos castanhos. Pele clara. Pequena demais dentro de um pijama rosa fornecido pelo hospital.
Serena levou a mão à boca.
"Sofia..."
A menina ergueu os olhos.
Serena correu.
Abraçou-a com tanta força que começou a chorar antes mesmo de perceber.
"Meu amor... meu Deus... minha filha... A mamãe veio buscar você."
A criança ficou imóvel.
Serena sentiu os braços pequenos presos entre os dois corpos.
Esperou.
Sofia sempre fazia a mesma coisa quando Serena a abraçava: passava a mão pela lateral de seu braço e prendia o dedo mínimo da mãe com o próprio dedo mínimo.
Era uma mania antiga.
"Assim você não pode fugir de mim", Sofia costumava dizer.
Mas aquela mão não procurou a dela.
A menina apenas permaneceu parada.
Serena afrouxou o abraço.
"Sofia?"
A criança desviou os olhos.
"Está tudo bem", disse Marcelo atrás dela. "Não significa que ela não reconheça a senhora."
Serena assentiu depressa.
Claro.
Trauma.
Sua filha havia desaparecido por três meses. Deus sabia o que tinha vivido.
Serena beijou sua testa.
"Você não precisa falar nada. Eu estou aqui."
Quando se afastou, Marta já chorava na porta.
"Minha menina..."
A criança olhou para Marta.
E, por um instante, Serena viu alguma coisa naquele olhar.
Não carinho.
Medo.
"Marta?"
A babá imediatamente sorriu.
"Ela deve estar confusa."
Serena voltou os olhos para Sofia.
Talvez todos estivessem confusos.
Inclusive ela.
Naquela tarde, Serena levou a menina para casa.
A mansão dos Alencastro parecia diferente com uma criança novamente dentro dela. Funcionários choraram. Flores chegaram. Augusto Alencastro, tio de Serena, telefonou três vezes dizendo que organizaria tudo para protegê-las da imprensa.
Serena recusou qualquer celebração.
Queria apenas ficar com a filha.
No quarto de Sofia, nada havia mudado.
Os livros continuavam na estante. Os desenhos permaneciam presos ao mural. O ursinho de pelúcia que Daniel dera à filha antes de morrer ainda estava sobre a cama.
Serena pegou o brinquedo.
"Olha quem esperou por você."
A menina observou o urso.
Não o pegou.
Serena sentiu um frio discreto subir pela nuca.
"Você lembra dele?"
Silêncio.
Ela sorriu, apesar da inquietação.
"Seu pai deu esse ursinho para você."
A criança baixou a cabeça.
Serena colocou o brinquedo de volta.
Não force nenhuma reação.
As palavras do médico voltaram à sua mente.
À noite, Marta preparou o jantar.
Serena sentou-se ao lado da menina, tentando tornar tudo normal.
"Fizemos seu arroz favorito."
Marta colocou os pratos sobre a mesa e, em seguida, trouxe uma pequena sobremesa.
"Ela precisa comer alguma coisa gostosa depois de tudo isso."
Era um pedaço de bolo de chocolate decorado com creme de amendoim.
Serena olhou para o prato.
Depois para Marta.
"Amendoim?"
Marta parou.
"É só um pouquinho."
Antes que Serena pudesse dizer qualquer coisa, a menina passou o dedo pelo creme e levou à boca.
Serena segurou seu pulso.
"Não!"
A criança se assustou.
Marta deixou cair uma colher.
"Serena!"
"O que você está fazendo?"
A menina começou a chorar.
Serena olhou para seu rosto, procurando vermelhidão. Inchaço. Falta de ar.
Nada.
"Sofia tem alergia a amendoim."
Marta empalideceu.
"Talvez eu tenha me confundido."
"Você cuidou dela durante quatro anos."
"Eu sei, mas..."
"Ela foi parar no hospital aos quatro anos por causa de uma paçoca."
O silêncio tomou a sala.
A menina continuava chorando.
Serena soltou seu pulso imediatamente e se ajoelhou.
"Desculpa, meu amor. A mamãe só ficou com medo."
A criança recuou.
Aquele movimento atravessou Serena como uma faca.
Marta se aproximou.
"Talvez o trauma esteja fazendo você enxergar coisas onde não existem."
Serena virou lentamente o rosto.
"O que isso quer dizer?"
"Você passou três meses sem dormir. Quase não comia. Agora Sofia voltou diferente e..."
"Minha filha voltou depois de desaparecer por três meses. É claro que voltou diferente."
Marta assentiu.
"Exatamente."
Serena ficou em silêncio.
Havia alguma coisa naquela resposta que a incomodava.
Na manhã seguinte, Augusto apareceu.
Elegante como sempre, vestindo um terno cinza impecável, ele beijou a testa da sobrinha e falou sobre médicos, segurança e terapia.
"Você precisa parar de procurar problemas, Serena. Sofia voltou. Isso é o que importa."
"Ela comeu amendoim."
Augusto suspirou.
"Crianças mudam."
"Em três meses ela deixou de ser alérgica?"
"Marcelo pode pedir novos exames."
Serena cruzou os braços.
"E ela não lembra do urso que Daniel deu a ela."
O nome do marido morto deixou o ambiente pesado.
Augusto tocou o ombro dela.
"Você quer sua filha exatamente como era antes do desaparecimento. Talvez essa menina não exista mais."
Serena sentiu os olhos arderem.
"Ela existe."
"Então dê tempo a ela."
Ele saiu pouco depois.
Serena tentou obedecer.
Passou o dia brincando com a menina, sem fazer perguntas. Assistiram a desenhos. Caminharam pelo jardim. Serena deixou que ela escolhesse roupas novas pela internet.
A menina apontou para um vestido rosa cheio de laços.
Serena congelou.
"Esse?"
A criança assentiu.
Sofia odiava rosa.
"Rosa é cor de princesa sem aventura", costumava reclamar.
Serena fechou o notebook.
Naquela noite, esperou a casa inteira dormir.
Entrou no quarto da menina e sentou-se ao lado da cama.
O coração batia forte demais.
Ela não queria fazer aquilo.
Queria estar errada.
Serena afastou uma mecha de cabelo do rosto da criança.
"Sofi?"
Os olhos se abriram lentamente.
"Eu vou falar uma coisa. Só nossa, está bem?"
A menina a observou.
Serena engoliu em seco.
Era uma frase que Daniel inventara quando Sofia tinha três anos. Sempre que a menina tinha medo, ele começava e ela completava.
Serena sussurrou:
"Quando o mar ficar escuro..."
Esperou.
Sofia deveria responder:
"A gente acende as estrelas."
A menina apenas franziu a testa.
"O quê?"
O mundo de Serena parou.
Ela tentou outra vez.
"Quando o mar ficar escuro..."
"Eu não sei."
Serena sentiu o sangue desaparecer do rosto.
"Está tudo bem."
Levantou-se, cobriu a menina e beijou sua testa.
"Durma."
Saiu do quarto sem correr.
Sem chorar.
Sem chamar ninguém.
Entrou no banheiro da suíte, trancou a porta e apoiou as duas mãos na pia.
Seu reflexo parecia o de outra mulher.
"Você está ficando louca", sussurrou para si mesma.
Mas então se lembrou do dedo mínimo.
Do ursinho.
Do amendoim.
Do vestido rosa.
Da frase de Daniel.
Cinco coincidências.
Serena abriu a mão.
Durante a tarde, havia retirado discretamente alguns fios da escova usada pela menina.
Colocou um deles dentro de um pequeno saco plástico.
Na manhã seguinte, mandaria fazer um exame de DNA sem contar a Marta, a Augusto ou a qualquer pessoa da família.
Olhou novamente para o espelho.
Pela primeira vez desde que a polícia telefonara, permitiu-se pensar no que mais temia.
"Se aquela menina não é Sofia..."
Sua voz falhou.
Serena apertou o saco entre os dedos.
"...onde está a minha filha?"
Do outro lado da porta, uma sombra parou no corredor.
Serena não viu.
Também não ouviu quando alguém se afastou silenciosamente do banheiro e pegou o celular.
Poucos segundos depois, uma mensagem foi enviada.
"Ela está desconfiando."
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