"A Oficial Que Minha Família Nunca Enxergou" Capítulo 5
Às sete e meia, eu estava de azul-marinho.
Azul do cortejo, segundo Jéssica. Ela garantiu que havia diferença entre aquele tom e o de qualquer uniforme que eu já usara.
— Este tem mais sofrimento e menos bolsos — explicou.
A madrinha original aceitara a mudança com uma tranquilidade desconcertante. Continuaria ao lado de Lívia, mas entregara a posição principal sem protesto.
— Estou aliviada por escapar do discurso — disse, enquanto uma mulher prendia seus cabelos. — Se alguém perguntar, chorei durante horas.
— Posso confirmar — falei.
Lívia riu diante do espelho.
Minha mãe entrou às oito.
Parou ao me ver com o vestido, os cabelos presos e os brincos pequenos que Tomás me dera no aniversário de quinze anos.
— O que está acontecendo?
— Helena será minha madrinha — respondeu Lívia.
— Você já tinha uma madrinha.
Jéssica ergueu a mão.
— Fui rebaixada com benefícios.
Diana não sorriu.
— Não se muda um casamento na manhã da cerimônia.
Lívia encontrou os olhos dela pelo espelho.
— Observe.
Minha mãe olhou para mim.
— Você concordou?
— Concordei.
— Helena, por favor.
Durante anos, aquela expressão soara como afeto. Naquela manhã, reconheci a tarefa escondida nela: facilite para mim.
— Você queria um dia sem confusão — falei. — Então não crie confusão.
Diana apertou a bolsa contra o corpo.
— Augusto ainda não sabe.
— Vai saber quando chegar.
— Ele pode ir embora.
Lívia deixou a cadeira.
— Essa escolha será dele.
Minha mãe repetira a mesma frase no hotel. Agora precisava mantê-la diante do homem a quem protegera por mais de uma década.
Augusto chegou vinte minutos depois.
Abriu a porta sem bater, parou no meio do quarto e soltou uma risada sem humor.
— Vocês só podem estar brincando.
Lívia pegou o buquê de uma mesa.
— Bom dia, pai.
— Colocou Helena no casamento?
— Coloquei minha irmã ao meu lado.
— Este fim de semana inteiro virou um espetáculo para ela.
— O senhor começou o espetáculo no brinde — disse Jéssica.
Augusto fingiu que não a ouviu.
— Está gostando disso, Helena?
— Dormi três horas. Não estou gostando de nada.
A cabeleireira abafou uma risada. O rosto dele avermelhou.
— Você sempre foi boa em aparecer na hora certa para fazer todos se sentirem culpados.
— Cheguei atrasada e fui colocada na ponta da mesa.
— Exatamente. Ficou lá esperando que alguém perguntasse sobre a grande capitã.
— Caio perguntou. Sobre investimento digital.
Jéssica virou para a parede.
Diana tocou o braço do marido.
— Augusto, vamos conversar do lado de fora.
Ele afastou a mão.
— Não. Se ela quer ocupar o centro, pode ouvir no centro.
Lívia colocou o buquê na cadeira.
— Chega.
— Ela nem faz parte desta família de verdade.
O quarto ficou quieto.
Minha mãe pronunciou o nome dele, mas Augusto avançou.
— Deixou isso claro quando recusou meu sobrenome.
— Ela tinha dezesseis anos — disse Lívia.
— Idade suficiente.
— Para quê? Apagar o pai morto?
Augusto apontou para mim.
— Ofereci uma família. Ela escolheu um homem que já estava debaixo da terra.
O ar entrou curto no meu peito. Apertei a costura lateral do vestido até os dedos pararem de tremer.
— Eu já tinha uma família — respondi.
— Tinha um morto e uma mãe tentando seguir em frente.
Lívia entrou entre nós.
— Saia.
— Como é?
— Saia do meu quarto.
— Sou seu pai.
— É. E ela é minha irmã. Você não vai castigá-la por ter amado o pai dela.
Augusto procurou minha mãe com os olhos.
Era o movimento antigo: ele feriria, Diana apararia as bordas e eu receberia a tarefa de compreender.
Diana deixou a bolsa sobre a mesa.
— Você precisa ir.
O rosto dele perdeu a cor.
— Diana.
— Eu deveria ter dito isso anos atrás.
— Está fazendo isso porque todos estão cansados.
— Estou fazendo tarde demais.
Ela olhou para mim.
— Deixei você tornar minha filha temporária para se sentir permanente.
Augusto ajustou o paletó.
— Se eu sair, não volto.
Minha mãe começou a chorar. A voz, porém, permaneceu firme.
— Essa decisão é sua.
Ele esperou que alguém cedesse.
Lívia ficou junto a mim. Diana segurou a borda da mesa. Jéssica abriu a porta.
Augusto saiu.
O som de seus passos atravessou o corredor e terminou no elevador. Ninguém foi atrás.
Lívia sentou porque os joelhos falharam.
Ajoelhei diante dela.
— Está bem?
— Não.
— Ótimo. Eu também não.
Ela riu no meio do choro.
Diana continuava do outro lado do quarto.
— Ele não voltará — disse.
— Talvez não — respondi.
— Foram vinte e oito anos.
— Eu sei.
Não fui abraçá-la. Lívia também não.
Jéssica entregou um lenço à minha mãe e outro à noiva.
— Temos duas horas até as fotografias. Se forem destruir mais algum padrão familiar, façam antes do delineador.
A frase puxou todos de volta ao quarto.
Às três e cinquenta, Rafael aguardava no jardim do clube naval. Quando Lívia apareceu no início do corredor, ele perdeu o ar e levou a mão aos olhos.
Tomás Montenegro chorou antes do filho.
Diana caminhava com Lívia. Minha irmã escolhera a mãe para conduzi-la, sem substituir Augusto por outro homem e sem fingir que a ausência dele não doía.
Eu seguia três passos atrás com o buquê menor.
Rafael recebeu Lívia diante do celebrante. Quando chegou a hora dos votos, tirou um papel do bolso e o dobrou novamente.
— Decidi falar sem ler.
Lívia sorriu.
— Péssima ideia.
— Eu prometo escutar a pergunta antes de oferecer uma resposta. Prometo não usar cansaço como desculpa para crueldade.
Ele segurou as mãos dela.
— E, quando alguma coisa for difícil, não vou chamar silêncio de paz.
Lívia olhou para mim. Minha mãe baixou o rosto.
— Eu prometo perguntar a você antes de acreditar numa versão confortável — disse Lívia. — E prometo nunca decidir sozinho o lugar de alguém na nossa vida.
As alianças foram colocadas. O celebrante anunciou o casamento, e o aplauso subiu entre as flores e a água da baía.
Augusto não voltou.
Depois da cerimônia, o fotógrafo reuniu os grupos. Quando chamou a família imediata, meu corpo iniciou o movimento conhecido.
Dei um passo para trás.
Minha mãe viu.
— Não.
Parei.
Diana estendeu a mão para o espaço ao lado dela.
— Aqui.
O cabeleireiro segurava um grampo no ar. Jéssica olhava para Augusto pelo corredor vazio, como se esperasse que ele retornasse.
— E se meu pai aparecer na cerimônia? — perguntou Lívia.
Diana apertou o lenço.
— A decisão será sua.
— Não quero segurança arrastando ninguém.
— Tomás falou com a administração — disse Rafael da porta. — Ele poderá assistir se permanecer respeitoso. Não terá lugar no cortejo.
Lívia assentiu.
Eu me aproximei dela.
— Quer adiar?
— Não.
— Quer reduzir os convidados?
— Também não.
— Então diga o que precisa.
Minha irmã olhou para cada pessoa no quarto.
— Preciso que ninguém explique meus sentimentos por mim hoje.
Diana abriu a boca e a fechou.
Jéssica anotou num papel de hotel e levantou como placa: "Regra número um."
O restante da preparação ganhou tarefas. Camila conferiu flores; Rafael desceu; Diana telefonou ao motorista e cancelou o carro reservado para ela e Augusto.
Quando ficamos diante do espelho, Lívia tocou meu ombro.
— Você teria aceitado se eu tivesse perguntado meses atrás?
— Provavelmente teria reclamado do vestido.
— E depois?
— Teria vindo.
Ela fechou os olhos.
— Isso dói.
— Eu sei.
— Não quero passar o resto da vida transformando dor em prova de amor.
— Então não passe.
Diana ouviu enquanto fechava o próprio colar. Não pediu inclusão na conversa.
Pouco antes de sairmos, minha mãe entregou minha bolsa. O pequeno broche de âncora tocou a fivela por dentro.
— Encontrei numa caixa de Tomás — disse.
— Lívia mostrou.
— Eu devia ter colocado as fotos dele de volta na sala.
— Devia.
Diana assentiu e recuou.
O elevador chegou. As portas se abriram diante das quatro mulheres, e ninguém esperou que um homem dissesse quem deveria entrar primeiro.
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