"A Oficial Que Minha Família Nunca Enxergou" Capítulo 4
Diana chegou ao hotel às três e vinte da manhã.
Não usava mais o vestido prateado do jantar. Vestira calça clara, suéter cinza e o medo de quem perdera o controle da versão oficial.
Lívia abriu a porta.
— Eu pedi que você não viesse.
— Preciso falar com Helena.
— Então pergunta se ela quer falar.
Minha mãe olhou para mim.
— Quer?
— Entre.
Rafael ofereceu sair. Lívia segurou a mão dele e apontou para a cadeira ao seu lado.
— Fica.
Diana viu o notebook fechado na escrivaninha.
— Vocês não entendem o contexto daqueles e-mails.
— Comece pelo vestido — falei.
Ela baixou os olhos para o saco azul sobre a cama.
— Pedi à costureira uma peça extra.
— Como conseguiu minhas medidas?
— Usei o vestido preto que você deixou em casa no funeral da tia Celeste.
— Queria que eu participasse?
— Queria ter uma solução caso Lívia mudasse de ideia.
Minha irmã se levantou.
— Eu nunca decidi deixá-la fora. Você decidiu por nós duas.
— Achei que evitava conflito.
— Você guardou um vestido secreto durante quatro meses — disse Rafael. — Isso não evita conflito. Mantém controle.
Diana esfregou os dedos.
— Augusto ficaria furioso.
— E eu era mais fácil de perder — falei.
Ela ergueu o rosto.
— Nunca quis perder você.
— Só organizou tudo para que minha ausência parecesse escolha minha.
Minha mãe procurou uma resposta. Não encontrou.
Pedi que contasse desde o início.
Diana conheceu Tomás Duarte aos vinte e três anos. Ele já servia na Marinha, consertava tudo o que quebrava e passava meses fora sem saber falar da volta.
O casamento terminou antes da doença. Quando o câncer apareceu, os dois carregavam ressentimentos demais para reconstruir a vida conjunta e afeto suficiente para sofrer.
— Ele virou outra pessoa para você — ela disse. — Perto do fim, seu pai só mostrava a parte boa quando você estava lá. Eu ficava com hospitais, contas, telefonemas e lembranças do casamento.
— Eu tinha quinze anos.
— Sei.
— Ele não precisava me contar detalhes do divórcio enquanto ensinava a trocar uma tomada.
— Eu olhava para você e via a versão dele que todos amavam.
Lívia segurou minha mão.
— E o Augusto?
Diana observou a aliança.
— Ele queria ser necessário. No começo foi gentil com Helena. Levava à escola, consertou o telhado do quarto, tentou estar presente.
Eu lembrava. A gentileza existira e isso tornava o resto mais difícil de acomodar.
— Depois pediu para me adotar.
— Achou que seria um gesto bonito.
— Eu disse que não queria deixar de ser Duarte.
Diana assentiu.
Na tarde daquela conversa, Augusto fechara a caixa com os documentos e dissera que eu precisava aprender a aceitar quem ainda estava vivo. Na semana seguinte, meu porta-retrato com meu pai desapareceu da sala.
Encontrei-o numa gaveta da área de serviço.
— Por que você não colocou a foto de volta? — perguntei.
— Eu tinha medo de outra briga.
— Você deixou uma adolescente travar a briga sozinha.
Ela respirou pela boca.
— Deixei.
— Quando ele chamou minha formatura de desfile, você sabia?
— Sim.
— Quando ele disse que minhas viagens eram desculpa?
— Sim.
— Quando contou à Lívia que eu recusara ser madrinha?
— Ele disse que sua presença mudaria o foco do casamento.
— E você concordou.
— Concordei.
Cada resposta curta ocupava mais espaço que uma defesa.
Diana estendeu a mão. Eu mantive as minhas sobre o colo.
— Eu deveria ter impedido.
— Deveria.
— Deveria ter ido à sua formatura.
— Sim.
— E deveria ter contado a verdade para Lívia.
— Sim.
Minha mãe chorou sem cobrir o rosto. Eu não me levantei para consolá-la.
Durante anos, meu papel fora sobreviver rápido o bastante para diminuir a culpa dos outros. Naquela madrugada, permaneci sentada.
Lívia puxou o vestido do saco.
— Helena vai usá-lo.
Diana olhou para mim.
— Você aceita?
— Aceito ficar ao lado da minha irmã.
— Augusto vai…
Ela interrompeu a própria frase.
— Augusto vai escolher como reage — corrigiu.
Rafael levantou-se.
— Isso já é alguma coisa.
Minha mãe enxugou o rosto.
— Posso ajudar com o vestido?
Lívia olhou para mim, deixando a decisão onde deveria ter estado desde o começo.
— Pode entregar à camareira — respondi. — Depois vá dormir.
Diana pegou o saco. Na porta, virou-se.
— Seu pai teria orgulho da sua patente.
— Meu pai teria perguntado se estou tratando bem as pessoas sob meu comando.
Ela soltou um ar que quase virou riso.
— Isso também.
Quando a porta fechou, Lívia encostou a cabeça no meu ombro.
— Você acredita nela?
— Acredito que ela contou parte da verdade.
— E o resto?
— A gente observa o que ela fará com ele.
Rafael apontou para o relógio.
— Faltam quatro horas para a maquiagem.
— Você ainda está aqui — falei.
— Recebi ordem da noiva.
Lívia levantou a cabeça.
— Vá embora, capitão de corveta.
Ele ficou em posição de sentido por brincadeira.
— Sim, senhora.
Depois que saiu, Lívia colocou o vestido diante de mim. O tecido azul cobriu a frente do uniforme de viagem pendurado na cadeira.
— Tem certeza? — perguntei.
— Passei anos achando que você não queria ficar perto. Agora que sei quem fechava a porta, não vou deixá-la trancada.
O zíper do saco fez um som áspero quando ela o abriu por completo.
Na etiqueta, abaixo do meu nome, Diana escrevera à mão: "Se ela vier."
Lívia arrancou as três palavras e as deixou cair no chão.
Ela guardou o pedaço de papel no bolso do robe.
— Amanhã vou devolver isso à mãe.
— Para quê?
— Para ela entender que eu não preciso mais de decisões condicionais.
O telefone marcou quatro e quarenta. Do corredor veio o ruído do carrinho de limpeza e, logo depois, o primeiro canto de pássaro além da janela.
Lívia fechou as cortinas.
— Ainda temos duas horas.
Deitamos atravessadas sobre a cama, sem desmontar os cabides. Minha irmã segurou minha mão até o sono chegar, como fazia durante tempestades quando éramos crianças.
Ficamos sozinhas depois que Camila levou o notebook para o próprio quarto. Lívia separou os cabides e encontrou, no fundo do armário, uma caixa estreita.
Dentro havia um broche de prata em forma de âncora.
— Era do seu pai?
— Ele usava numa gravata que odiava.
Minha mãe devia ter colocado o objeto com o vestido. Passei o polegar pelo metal e encontrei um risco perto da haste.
Tomás fazia marcas em tudo que lhe pertencia. Dizia que objetos bem usados precisavam mostrar serviço.
— Quando ele ficou doente, eu levava sopa depois da escola — contei. — Às vezes ele conseguia comer. Às vezes pedia que eu falasse da aula até a comida esfriar.
Lívia sentou no tapete.
— Eu lembro pouco dele.
— Você tinha três anos quando morreu.
— Lembro de uma música.
Ela cantarolou quatro notas. Reconheci a canção que meu pai assobiava enquanto consertava torneiras.
— Era dele — falei.
Lívia cobriu a boca.
Durante anos, Augusto tratara qualquer lembrança como ameaça. Minha irmã crescera sem saber que parte das próprias memórias pertencia ao homem cujo nome eu me recusara a abandonar.
— Quero uma fotografia dele na minha casa — disse.
— Tenho várias.
— Mãe guardou alguma?
— Provavelmente. Guardar nunca foi o problema dela. Mostrar era.
Lívia colocou o broche junto ao vestido.
— Use amanhã.
— É pequeno demais para prender no tecido.
— Na bolsa, então. Quero que alguma coisa dele esteja lá sem precisar pedir licença.
Prendi a âncora no forro interno da bolsa. Ficaria invisível para os convidados e presente para mim.
Às quatro, uma mensagem de Diana chegou ao telefone de Lívia: "Augusto acordou e quer saber onde estou."
Minha irmã não respondeu por ela.
— O que você vai dizer?
— Que a mãe deve decidir.
Enviou apenas o endereço do hotel e a hora da preparação. Quando deitou, deixou o vestido azul pendurado do lado de fora do armário.
Pela primeira vez, ele não parecia uma possibilidade escondida.
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